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domingo, 4 de janeiro de 2026

Crônica – As amizades perigosas - Bandido bom é bandido amigo

Há amizades que dizem mais do que discursos. Donald Trump, com seu sorriso calculado e seus gestos de proximidade, sempre soube escolher bem os companheiros de palco. Entre eles, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu — nomes que carregam não apenas poder, mas também acusações pesadas de crimes de guerra, com mandados de prisão expedidos pelo Tribunal Penal Internacional. É curioso observar como esses laços se entrelaçam. Putin, com sua guerra que devora vidas na Ucrânia; Netanyahu, com a necropolítica que bombardeia, sufoca e expande assentamentos; ambos, figuras que transformaram a violência em instrumento de governo. E Trump, ao lado deles, como quem legitima, pela amizade, a brutalidade travestida de estratégia. Do outro lado, surge Nicolás Maduro. Ditador, sim, e não há como negar. Mas sua sombra, por mais longa que seja, não alcança as dimensões das mortes provocadas por Putin e Netanyahu. Maduro é lembrado pela repressão, pela fome que corrói a Venezuela, mas ainda assim sua figura não se distancia tanto dos outros dois — apenas se mede em escala. O contraste é revelador: Trump se aproxima dos que carregam o peso de genocídios e guerras, enquanto o mundo se ocupa em capturar Maduro.O pior é que tem gente que comemora a morte anunciada do Direito Internacional. A pergunta que fica é: por que alguns ditadores são tratados como monstros absolutos, enquanto outros, com crimes ainda maiores, são recebidos como aliados estratégicos? Na política internacional, a justiça parece ter olhos seletivos. E é nesse jogo de conveniências que se revela a verdadeira crônica do nosso tempo: a paz é sempre adiada, a violência sempre justificada, e os amigos de Trump continuam a escrever, com sangue, as páginas mais sombrias da história contemporânea.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Hipocrisia da Mídia: Entre o Incêndio na Suíça e os Bombardeios em Gaza

O início do ano novo foi marcado por uma tragédia na Suíça: jovens morreram em um incêndio em um bar de uma pequena cidade, que tem uma famosa estação de esqui. A mídia internacional não tardou em cobrir cada detalhe, especular sobre as causas e exibir apresentadores visivelmente consternados e profundamente sensibilizados diante das câmeras. A comoção foi imediata, os discursos de pesar se multiplicaram e a narrativa ganhou espaço privilegiado nos noticiários. No entanto, essa mesma mídia parece incapaz de demonstrar igual consternação diante da realidade brutal que se desenrola em Gaza. Há mais de dois anos, milhares de pessoas — homens, mulheres e crianças — têm sido mortas em bombardeios diários, despedaçadas ou carbonizadas por armas israelenses com apoio explícito dos Estados Unidos. A repetição da violência, a impunidade e o silêncio cúmplice transformaram o massacre em rotina invisível. A contradição torna-se ainda mais evidente quando um líder, como Benjamin Netanyahu, aparece em um evento social, tranquilamente assistindo a queimas de fogos na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago, localizada em Palm Beach, mesmo com mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra cometidos. A normalização dessa presença contrasta com a cobertura sensacionalista de tragédias europeias, revelando um padrão seletivo de indignação. O que se expõe, portanto, é uma hipocrisia estrutural: vidas europeias, brancas e ricas são tratadas como preciosas e dignas de luto coletivo, enquanto vidas palestinas, pobres e de pele escura são relegadas ao esquecimento. A mídia, ao reproduzir esse desequilíbrio, reforça uma hierarquia implícita de quem merece compaixão e quem pode ser descartado. Não se trata de negar a dor das famílias suíças, mas de denunciar a falsa universalidade da solidariedade midiática. O mundo chora quando a tragédia atinge os privilegiados, mas permanece indiferente quando a barbárie se repete contra os despossuídos. Essa seletividade revela que, no fundo, não é a humanidade que importa, mas o lugar social e racial de quem sofre. A inescrupulosa mídia em verdade não se importa com nada, apenas em faturar bilhões e fazer o jogo do sistema.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Resenha Crítica do livro Turning Point - Até que ponto você mudaria a sua história?

Maurício Ribas, em *Turning Point*, constrói uma obra que se inscreve na tradição da literatura contemporânea de caráter híbrido, situada entre o romance introspectivo e o texto motivacional. A narrativa não se limita a contar uma história, mas se propõe como experiência de leitura que interpela diretamente o leitor, convidando-o a refletir sobre os momentos decisivos de sua própria trajetória. A obra apresenta uma **estrutura fragmentada**, alternando episódios narrativos com reflexões filosóficas. Essa forma não-linear funciona como metáfora da própria experiência humana, marcada por rupturas e recomeços. O estilo de Ribas é **confessional e oralizado**, criando proximidade com o leitor. A cadência discursiva aproxima-se da conversação, mas é permeada por imagens poéticas — o tempo como rio, o passado como sombra, o futuro como horizonte. O livro problematiza a relação entre **escolha e destino**, **arrependimento e reconstrução**, propondo que cada “turning point” é uma oportunidade de reescrever a própria história. Nesse sentido, Ribas dialoga com tradições literárias que exploram memória e subjetividade. Aqui podemos evocar **Paul Ricoeur**, em *A memória, a história, o esquecimento*, ao afirmar que a memória é sempre seletiva e interpretativa. Ribas parece consciente dessa dimensão: ao narrar pontos de virada, mostra que não se trata de fatos objetivos, mas de reconstruções subjetivas que moldam a identidade. Do mesmo modo, é possível relacionar a obra com **Walter Benjamin**, em seu ensaio *O narrador*. Benjamin observa que a experiência moderna é marcada pela fragmentação e pela perda da transmissão tradicional de sentido. Ribas, ao propor uma narrativa que interpela diretamente o leitor, busca recuperar essa dimensão de experiência compartilhada, transformando o ato de narrar em um gesto de transmissão e reflexão. Mais do que uma trama ficcional, *Turning Point* se destaca pela sua **dimensão performativa**: o texto funciona como espelho, provocando o leitor a se ver refletido e a se perguntar até que ponto mudaria sua própria história. Essa característica aproxima a obra de uma literatura de testemunho, mas com forte carga filosófica e ética. *Turning Point* deve ser compreendido como uma obra de fronteira, que transita entre literatura e filosofia prática. Sua relevância reside na capacidade de articular narrativa e reflexão, estética e ética, oferecendo ao leitor não apenas uma história, mas uma experiência de questionamento existencial. Ao propor esse diálogo, Maurício Ribas inscreve-se na tradição de autores que utilizam a literatura como espaço de transformação e de interrogação sobre o sentido da vida.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Safaris Humanos, crônica da Barbárie: Entre Sarajevo e Gaza

Sarajevo, início dos anos 1990. A cidade que antes pulsava com música, literatura e cafés que reuniam intelectuais, tornou-se o império do medo. O cerco durou quase quatro anos: ruas viraram corredores da morte, mercados se tornaram alvos, e cada travessia era uma roleta russa contra franco-atiradores escondidos nas colinas. Mais de onze mil pessoas morreram, muitas delas apenas tentando buscar água ou pão. Mas como se a guerra não bastasse, surgiu o espetáculo mais cruel: os chamados “safáris humanos”. Estrangeiros ricos pagavam pequenas fortunas para serem levados às colinas e, de lá, atirar em civis indefesos. Não havia ideologia, não havia causa política. Apenas o entretenimento macabro de transformar a dor em espetáculo. A vida, reduzida a alvo. Décadas depois, em Gaza, a cena se repetiu sob outra forma. Correspondentes estrangeiros relataram moradores de cidades israelenses próximas que subiam às colinas para assistir aos bombardeios, como quem assiste a um show. Cadeiras de praia, binóculos, lanches. A guerra convertida em evento público. E, em meio à fome, multidões de palestinos que buscavam alimentos foram recebidas com tiros, transformando a necessidade em sentença, num safari desumano permeado de crueldade. Em Sarajevo, diversão. Em Gaza, controle e intimidação e escárnio. Mas em ambos os casos, o mesmo efeito simbólico: a banalização da vida. A violência convertida em espetáculo, a dignidade humana caçada como um animal selvagem. Stefan Zweig dizia que os livros existem para nos defender da transitoriedade e do esquecimento. Diante da repetição destes acontecimentos, parece que o mundo escolheu esquecer. O “safári humano” e os tiros contra famintos são testemunhos de que a barbárie não é exceção: ela se repete, muda de cenário, mas mantém o mesmo roteiro. Não podemos permitir o esquecimento, nossas vozes precisam se fazer ouvidas. Não sem razão foi um escritor e jornalista italiano, Ezio Gavazzeni, quem denunciou a prática em Sarajevo. Hoje, tribunais investigam, jornalistas denunciam, e a memória tenta se recompor. Mas a pergunta permanece: o que fazemos da dor alheia? Transformamos em notícia, em espetáculo, em silêncio? Sarajevo e Gaza nos lembram que o reverso da existência não é apenas a morte, mas a indiferença.

Stefan Zweig: O Último Humanista da Europa Perdida

“Os livros são escritos unicamente para, acima de tudo, unir os seres humanos e, assim, nos defender do inexorável lado oposto de toda a existência: a transitoriedade e o esquecimento.” Essa frase de Stefan Zweig traz embutida uma verdade provocadora. Quem foi esse escritor e qual o seu legado? Transitoriedade é a ideia de que tudo o que existe está sujeito ao tempo, à mudança e ao fim. Nada permanece eternamente igual. Heráclito (pré-socrático), afirmava: “Tudo flui” (panta rhei). A transitoriedade é a essência da realidade: nada é fixo, tudo está em constante transformação. Já Heidegger pontuava que: o ser humano é um “ser-para-a-morte”. A consciência da transitoriedade dá autenticidade à vida, pois nos lembra que cada instante é único. Já o esquecimento é a perda da memória, o apagamento daquilo que foi vivido ou pensado. Nietzsche: fala do “esquecimento ativo” como algo necessário para viver, pois sem esquecer não poderíamos suportar o peso do passado. Mas também alerta para o perigo do esquecimento histórico, que apaga lições fundamentais. Destarte, Zweig nos afirma que os livros, a literatura, nos unem enquanto seres humanos e por isso nos defendem da transitoriedade e do esquecimento. Elementos esses que são o lado oposto de toda a existência. Em sua obra autobiográfica “O Mundo de Ontem”, escrita pouco antes da morte, Stefan Zweig descreveu a Viena de sua juventude como um lugar de esplendor cultural, onde a música, a literatura e a ciência conviviam em harmonia. Era, segundo ele, uma época em que se acreditava no progresso contínuo e na paz duradoura. Mas esse mundo, que parecia eterno, desmoronou diante da barbárie das guerras e da ascensão do nazismo. “Nunca antes a geração jovem acreditou tão firmemente na continuidade e na indestrutibilidade daquilo que lhe era dado.” (O Mundo de Ontem) Essa frase revela a nostalgia de Zweig por uma Europa que se perdeu, um continente que trocou a confiança no futuro pela violência e pelo ódio. Nascido em Viena em 1881, Zweig foi um escritor cosmopolita, traduzido em dezenas de línguas e lido em todo o mundo. Mas sua trajetória foi marcada pelo exílio: Londres, Nova Iorque e, finalmente, o Brasil. Em Petrópolis, escreveu “Brasil, País do Futuro”, obra que expressava sua esperança em um novo horizonte cultural. Ainda assim, o peso da guerra e da destruição da Europa o mergulhou em um estado de desesperança. Em 1942, junto de sua esposa Lotte Altmann, decidiu pôr fim à própria vida. Sua carta de despedida falava de gratidão ao Brasil, mas também de uma dor irreparável diante da ruína de sua pátria espiritual. Zweig via os livros como fragmentos do infinito, pequenos pedaços de uma totalidade maior. Para ele, a literatura era ponte entre povos, guardiã da memória e resistência contra a barbárie. Suas novelas psicológicas — “Carta de uma desconhecida”, “Amok”, “Novela de xadrez” — revelam a fragilidade humana diante da paixão, da solidão e da obsessão. Suas biografias — “Maria Antonieta”, “Maria Stuart”, “Erasmo de Rotterdam” — são retratos que unem rigor histórico e sensibilidade literária. Mais do que narrativas, seus textos são testemunhos de uma época em que a cultura parecia capaz de salvar o mundo. Stefan Zweig permanece como símbolo de um humanismo cosmopolita. Sua obra nos lembra que a cultura é frágil, mas também essencial para a sobrevivência da humanidade. Ele foi, em muitos sentidos, o cronista da perda: da Europa que acreditava no progresso, da confiança no futuro, da paz que se desfez. “Cada sombra é, em última análise, filha da luz.” (O Mundo de Ontem) Essa frase resume sua visão: mesmo diante da escuridão, a memória da luz permanece. Zweig nos deixou não apenas livros, mas um testemunho pungente de que a literatura pode ser refúgio, resistência e esperança. Stefan Zweig foi mais do que um escritor: foi um intérprete da alma humana em tempos de crise. Sua vida e obra nos lembram que o “inexorável reverso da existência” — a morte, a perda, o fim — só ganha sentido quando contraposto à beleza da cultura e ao poder da memória. Ao dizer que os livros nos defendem da transitoriedade e do esquecimento, Zweig aponta para o papel da escrita como memória coletiva: aquilo que resiste ao tempo, preserva experiências e impede que vidas e ideias desapareçam no silêncio da história. Em resumo, Zweig enxerga a literatura como um ato de resistência contra o esquecimento, uma forma de eternizar o humano diante da finitude inevitável.

domingo, 26 de outubro de 2025

Foi divulgado na imprensa: Maurício Ribas e a virada silenciosa: de heróis em guerra à batalha interior

Por muito tempo, Maurício Ribas foi reconhecido como um autor que dominava o terreno da ficção histórica e da literatura de guerra. Em *Glória aos Heróis*, seu romance mais conhecido, ele constrói uma narrativa tensa e visceral, ambientada no conflito ucraniano, onde o protagonista André Katyuk Richter enfrenta dilemas éticos em meio ao caos bélico. A obra é marcada por ritmo acelerado, linguagem direta e uma atmosfera de urgência — tudo que se espera de um romance de trincheira. Mas com *Turning Point: Até que ponto você mudaria a sua história?*, Ribas realiza uma virada literária que surpreende e revela uma nova camada de sua voz autoral. O cenário agora não é um campo de batalha, mas a memória. O inimigo não é externo, mas o tempo. E o conflito não se dá entre nações, mas entre versões de si mesmo. ## Do épico ao íntimo A transição entre os dois livros é mais do que temática — é estrutural. *Turning Point* abandona o épico para abraçar o íntimo. O protagonista não busca glória, mas redenção. Ele revisita momentos decisivos da vida, confronta escolhas mal feitas e se pergunta, como o título sugere, até que ponto seria possível reescrever sua história. Essa mudança de eixo narrativo — do mundo externo para o mundo interno — revela um autor que se permite explorar novas camadas da experiência humana. Ribas troca o uniforme militar pela roupa civil da alma, e convida o leitor a fazer o mesmo. ## Estilo narrativo: da ação à contemplação Em *Glória aos Heróis*, a linguagem é técnica, objetiva, quase jornalística. Já em *Turning Point*, a prosa se torna lírica, reflexiva, com pausas que permitem ao leitor respirar junto com o personagem. O tempo narrativo se dilata, e o silêncio entre as palavras ganha protagonismo. Essa mudança aproxima Ribas de autores como Julian Barnes ou Milton Hatoum, que trabalham com a memória como matéria-prima da ficção. A guerra agora é emocional, e o campo minado é o passado. ## Temas: da coragem física à coragem emocional Enquanto o romance anterior trata da coragem em campo — enfrentar o inimigo, proteger aliados, sobreviver — *Turning Point* aborda a coragem de revisitar o passado, de encarar arrependimentos, de aceitar que nem tudo pode ser consertado. É uma obra sobre tempo, escolhas e identidade — temas universais que transcendem fronteiras e contextos. ## Construção do protagonista A evolução do protagonista entre os dois livros é notável. André, antes um homem em conflito com o mundo, torna-se um homem em conflito consigo mesmo. A complexidade psicológica se aprofunda, e o personagem se torna mais humano, mais falível — e, por isso, mais próximo do leitor. ## Conclusão: maturidade literária A virada de Maurício Ribas não representa uma ruptura, mas uma evolução. Ele mostra que é capaz de transitar entre gêneros, estilos e atmosferas sem perder sua identidade literária. *Turning Point* é uma obra que marca não apenas um ponto de inflexão na vida do personagem, mas também na trajetória do autor. Ao trocar o barulho das armas pelo sussurro da memória, Ribas nos lembra que há batalhas que não deixam cicatrizes visíveis — mas que moldam quem somos de forma ainda mais profunda.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

"Se eu não reinar, já sei quem reinará"

"Se eu não reinar, já sei quem reinará." Essa frase teria sido dita em resposta às ameaças de senhores de escravos que, indignados com a iminente abolição da escravidão, avisaram que a Princesa Isabel perderia o trono se assinasse a Lei Áurea. A frase sugere que ela estava disposta a sacrificar seu futuro político em nome da liberdade dos escravizados. A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888, abolindo oficialmente a escravidão no Brasil. Longe de ser um beneplácito, foi a pá de cal lançada sobre a escravidão, a libertação foi fruto de uma imensa luta de grandes e valorosos brasileiros. Isabel era a regente do Império na ausência de seu pai, Dom Pedro II. A pressão dos abolicionistas, da opinião pública e das revoltas de escravizados tornava a abolição inevitável. Muitos senhores de escravos ficaram revoltados, pois não houve indenização — e isso contribuiu para o fim da monarquia no ano seguinte, em 1889. A frase “Se eu não reinar, já sei quem reinará”, atribuída a Isabel, é geralmente entendida como uma expressão de fé — sugerindo que, mesmo que ela perdesse o trono por abolir a escravidão, Deus reinaria, ou que a justiça prevaleceria. No entanto, entendo que a monarca quis dizer algo diferente. Isabel talvez estivesse reconhecendo que, caso ela não governasse, as elites brasileiras — especialmente os senhores de escravos — continuariam a dominar o país. Essa leitura é bastante plausível, especialmente se considerarmos que a monarquia estava enfraquecida e isolada politicamente; que a abolição da escravidão sem indenização gerou forte oposição das elites agrárias; e que o golpe republicano de 1889 foi liderado por setores militares e civis ligados a essas elites. Ao assinar a Lei Áurea, Isabel pode ter percebido que estava rompendo com os interesses dominantes, e que isso teria consequências políticas. Nesse sentido, a frase externava uma crítica velada: se ela não reinasse, os mesmos que exploravam os escravizados continuariam a reinar, sob outra forma de governo opressor. Infelizmente — ou desgraçadamente — as elites dominantes no Brasil de hoje são frequentemente criticadas por manterem privilégios históricos e resistirem a reformas estruturais que promovam maior equidade social. Elas influenciam fortemente o sistema político, econômico e midiático, muitas vezes em benefício próprio. Persistem na concentração de renda, terra e poder, enquanto grande parte da população enfrenta desigualdade e precarização. Seu discurso tende a valorizar o mérito individual, ignorando barreiras sistêmicas. Essa elite também é vista como pouco comprometida com a justiça social e ambiental. Isabel vaticinou. Ela estava mais do que certa. MAURICIO RIBAS

Crônica – As amizades perigosas - Bandido bom é bandido amigo

Há amizades que dizem mais do que discursos. Donald Trump, com seu sorriso calculado e seus gestos de proximidade, sempre soube escolher ...