Mauricio Ribas - Escritor
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sábado, 17 de outubro de 2026
Porque eu digo que estamos lutando contra o (Neo)fascismo
Uma democracia revela sua força não apenas pela maneira como um governante chega ao poder, mas pela forma como reage quando encontra limites à própria autoridade. A declaração atribuída a Flávio Bolsonaro, segundo a qual seria possível recorrer à força diante de um Poder da República que se recusasse a cumprir determinada decisão do Executivo, merece atenção. É necessário considerar o contexto e as palavras exatas, mas a questão central permanece: em uma democracia, nenhum presidente está acima da Constituição.
O artigo 2º da Constituição Federal estabelece a independência e a harmonia entre os Poderes. O presidente pode discordar de decisões judiciais, contestá-las pelos meios legais e propor mudanças legislativas. O que não pode é substituir os procedimentos constitucionais pela intimidação ou pela força.
É nesse ponto que a declaração se aproxima de uma característica do pensamento fascista: a ideia de que a vontade do líder ou de seu projeto político pode prevalecer sobre as instituições quando elas oferecem resistência.
No fascismo histórico, as instituições eram progressivamente subordinadas ao poder do líder. No neofascismo, essa lógica pode assumir formas adaptadas à democracia contemporânea: eleições são disputadas, mas a legitimidade das instituições é questionada quando seus resultados contrariam os interesses do movimento.
No bolsonarismo, os conflitos com o Supremo Tribunal Federal, os ataques à confiabilidade do sistema eleitoral e os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 compõem um contexto relevante para essa análise. Isso não significa atribuir a todos os apoiadores do movimento intenções antidemocráticas, nem afirmar, sem provas, que uma declaração isolada represente um plano concreto de ruptura.
O problema está em normalizar a força como alternativa para resolver conflitos entre Poderes. Em 2024, ao julgar a ADI 6.457, o STF reafirmou que as Forças Armadas não exercem poder moderador e não podem ser utilizadas para submeter os demais Poderes à vontade presidencial.
A democracia não exige que Executivo, Legislativo e Judiciário concordem entre si. Exige que suas divergências sejam resolvidas dentro da Constituição. Quando um governante considera legítimo constranger outro Poder porque não aceita suas decisões, o conflito deixa de ser apenas político e passa a ameaçar a própria ordem democrática.
O traço autoritário não está em discordar do Judiciário, mas em pretender submetê-lo pela força. Quando a vontade de um líder se coloca acima das regras constitucionais, o alerta histórico torna-se inevitável. É por isso que declarações dessa natureza devem ser examinadas com rigor, responsabilidade e memória democrática.
Há palavras que incomodam porque acusam. Outras incomodam porque obrigam a olhar para uma realidade que preferíamos não reconhecer. Fascismo é uma delas. Seu uso banaliza-se quando serve para desqualificar qualquer adversário político, mas também perde seu sentido quando evitamos empregá-lo diante de fenômenos que guardam semelhanças evidentes com aquilo que a história já nos ensinou a reconhecer.
É por isso que digo que o bolsonarismo é neofascismo. Não porque Jair Bolsonaro seja uma reprodução de Mussolini ou Hitler, nem porque todos os seus eleitores possam ser colocados na mesma categoria. Digo porque identifico nesse movimento uma combinação de elementos que ultrapassa o conservadorismo tradicional e alcança uma região perigosa da política: o culto ao líder, a hostilidade ao pluralismo, a fabricação de inimigos internos, a exaltação da força e a disposição de subordinar as instituições democráticas à vontade de um projeto político.
A palavra não é minha invenção. Em artigo publicado em 2020 na revista Crítica Marxista, o cientista político Armando Boito Jr., professor da Unicamp, desenvolveu precisamente essa interpretação, distinguindo o movimento neofascista de uma ditadura fascista já consolidada. Sua análise não encerra o debate acadêmico, mas demonstra que a classificação possui fundamento teórico e não constitui apenas um insulto lançado no calor da disputa partidária. A pergunta, portanto, não deveria ser se a palavra fascismo é forte demais. A pergunta é se estamos dispostos a examinar os fatos que tornam seu emprego pertinente.
O fascismo não precisa voltar com o mesmo uniforme
Quando se fala em fascismo, a memória costuma nos conduzir às camisas negras italianas, às suásticas alemãs, aos desfiles militares e aos campos de concentração. É uma imagem historicamente compreensível, mas insuficiente para reconhecer as formas que o autoritarismo pode assumir em outras épocas.
O fascismo histórico nasceu em circunstâncias específicas, na Europa do período entre as duas guerras mundiais. Alimentou-se da crise das instituições liberais, do medo da revolução social, do nacionalismo radical e da promessa de restaurar uma grandeza nacional supostamente perdida. Conquistou apoio popular, destruiu liberdades e converteu adversários em inimigos a serem eliminados da vida política.
O neofascismo não precisa reproduzir todos esses elementos da mesma maneira. Pode utilizar eleições, redes sociais, discursos religiosos e a linguagem da liberdade individual. Pode apresentar-se como reação à corrupção, à insegurança ou à degradação dos costumes. Pode, inclusive, proclamar-se defensor da democracia enquanto ataca a legitimidade das instituições que tornam possível a convivência entre pessoas que pensam de maneira diferente.
A diferença entre as épocas não elimina as continuidades. Ao contrário, torna necessário identificá-las. No Brasil, o bolsonarismo encontrou um terreno fértil na crise política e econômica, no desgaste dos partidos tradicionais, na indignação provocada pelos escândalos de corrupção e no antipetismo. Somaram-se a isso o medo da violência, a insatisfação de parcelas da classe média e a força de discursos que associavam a esquerda à destruição da família, da religião e da própria nação.
Essas insatisfações eram reais para muitos brasileiros. Não precisam ser negadas para que se compreenda o fenômeno. O problema começa quando sentimentos legítimos são organizados em torno de uma narrativa que divide o país entre os que seriam seus verdadeiros proprietários e aqueles que, por discordarem deles, passam a ser tratados como intrusos, traidores ou inimigos. Foi nessa transformação do adversário em ameaça que o bolsonarismo revelou uma de suas características mais preocupantes.
O líder acima das instituições
O fascismo sempre atribuiu importância especial à figura do líder. Ele não é apresentado apenas como alguém que governa, mas como aquele que compreende a vontade do povo melhor do que o próprio povo seria capaz de expressá-la. Sua palavra adquire uma autoridade que pretende ultrapassar os limites impostos pelas leis e pelas instituições.
No bolsonarismo, essa relação assumiu uma forma reconhecível. Bolsonaro construiu sua imagem como a de um homem que enfrentaria sozinho um sistema supostamente dominado por políticos corruptos, pela esquerda, pela imprensa e por instituições hostis. O conflito permanente tornou-se parte de sua identidade política. A crítica não era recebida apenas como divergência: frequentemente era apresentada como prova de perseguição.
Essa estratégia produziu uma inversão perigosa. Em uma democracia, o governante deve prestar contas à sociedade, respeitar os limites de sua autoridade e aceitar que outros poderes possam contrariá-lo. Na lógica personalista, porém, as instituições só parecem legítimas quando confirmam a vontade do líder. Quando isso não acontece, tornam-se suspeitas.
O Supremo Tribunal Federal passa a ser descrito como inimigo; a imprensa, como adversária; as urnas, como objeto de desconfiança; os órgãos de fiscalização, como instrumentos de perseguição. A crítica institucional deixa de ser um mecanismo de aperfeiçoamento da democracia e transforma-se em argumento para desacreditá-la.
Não se trata de afirmar que instituições brasileiras sejam infalíveis. Nenhuma instituição merece imunidade à crítica, e a independência dos poderes não significa ausência de responsabilidade. O ponto é outro: questionar uma decisão judicial não é o mesmo que negar a legitimidade do Judiciário; fiscalizar eleições não é o mesmo que disseminar suspeitas sem provas suficientes; denunciar abusos não autoriza a destruição das regras que permitem corrigir esses abusos. O autoritarismo começa a ganhar terreno quando o compromisso com as regras passa a depender de quem vence a disputa.
O patriotismo transformado em propriedade
Uma das características mais curiosas do bolsonarismo foi sua capacidade de apropriar-se de símbolos que pertencem a todos os brasileiros. A bandeira nacional, o verde e o amarelo, o hino e as referências à pátria passaram a ocupar lugar central em suas manifestações. Nada há de problemático, evidentemente, em demonstrar orgulho nacional. O problema surge quando esses símbolos deixam de representar uma comunidade plural e passam a funcionar como marcas de pertencimento a um campo político.
Quem não concorda com o movimento corre o risco de ser considerado menos patriota. Quem critica o governo pode ser acusado de torcer contra o Brasil. Quem defende políticas diferentes passa a ser associado a interesses estrangeiros ou a projetos de destruição nacional. É uma operação antiga: identificar a nação com uma parcela de seus habitantes e, em seguida, apresentar os demais como corpos estranhos.
O Brasil, entretanto, não pertence a um partido, a uma religião, a uma família política ou a um líder. O cidadão que vota na esquerda não é menos brasileiro do que aquele que vota na direita. O jornalista que investiga o poder não é inimigo da pátria por cumprir seu ofício. O magistrado que profere uma decisão contrária ao governo não deixa de servir à República por contrariar o governante. A democracia existe justamente porque ninguém pode reivindicar o monopólio da representação nacional.
O nacionalismo fascista, em suas diferentes versões, não se limita a amar o próprio país. Ele estabelece uma hierarquia entre aqueles que considera integrantes legítimos da comunidade e os que julga indignos de pertencer a ela. É nesse ponto que o patriotismo deixa de unir e passa a excluir.
A fabricação dos inimigos
Todo movimento político identifica adversários. A política democrática é, por natureza, um espaço de conflito entre interesses, ideias e projetos diferentes. O que distingue o conflito democrático da lógica fascista é a maneira como o adversário é tratado.
Em uma democracia, o adversário pode estar errado, defender propostas que consideramos nocivas e até ser responsabilizado por atos ilegais. Ainda assim, conserva o direito de participar da vida pública. Não precisa ser transformado em inimigo existencial.
No discurso bolsonarista, entretanto, consolidou-se uma visão de mundo na qual diferentes grupos podiam ser reunidos sob a mesma suspeita: a esquerda, os movimentos sociais, setores da imprensa, professores, artistas, ambientalistas e instituições consideradas obstáculos ao projeto político do movimento. Em diferentes momentos, essas categorias foram apresentadas como agentes de uma conspiração contra o país ou contra os valores de seus cidadãos.
O efeito dessa retórica não se limita às palavras. Quando um grupo é constantemente descrito como inimigo, a violência contra seus integrantes torna-se mais fácil de justificar. A humilhação parece merecida. A ameaça passa a ser compreendida como defesa. A perseguição recebe o nome de justiça.
É assim que o desengajamento moral, estudado pelo psicólogo Albert Bandura, ajuda a compreender a normalização de condutas que, em outras circunstâncias, provocariam repulsa. A pessoa deixa de avaliar um ato por suas consequências e passa a julgá-lo pela causa que supostamente serve. Se a causa é considerada sagrada, quase tudo pode ser tolerado em seu nome.
Esse mecanismo não pertence exclusivamente ao bolsonarismo. Pode aparecer em movimentos de diferentes orientações políticas. Mas sua presença em uma corrente que exalta a força, estimula a desconfiança generalizada e trata adversários como ameaças à existência nacional merece atenção especial. O perigo não está apenas na possibilidade de alguém praticar violência. Está na construção de uma atmosfera moral em que a violência começa a parecer aceitável.
A memória da ditadura e a sedução da força
O Brasil tem uma história que deveria nos tornar especialmente cautelosos diante da exaltação do autoritarismo. A ditadura militar iniciada em 1964 suprimiu direitos políticos, censurou a imprensa, perseguiu opositores e recorreu à tortura. Não foi um episódio abstrato dos livros de história. Produziu vítimas, famílias destruídas, exílios e amordaçamento que atravessaram gerações.
Apesar disso, a memória do regime militar foi frequentemente reabilitada em setores do bolsonarismo. A defesa de uma intervenção militar, a exaltação de agentes da ditadura e a apresentação daquele período como uma época de ordem e grandeza fizeram parte do repertório de parcelas do movimento. O que é especialmente asqueroso.
É preciso reconhecer que existem diferentes formas de conservadorismo e que nem todo cidadão que valoriza as Forças Armadas defende uma ditadura. A instituição militar, como qualquer instituição pública, não deve ser confundida com projetos políticos particulares. Mas quando a ordem é colocada acima da liberdade, quando a tortura é relativizada e quando a intervenção militar aparece como solução para conflitos políticos, já não estamos diante de uma simples preferência por governos rigorosos. Estamos diante da barbárie e da ignomínia, isto é, vergonha extrema.
Além do mais, também estamos diante de uma concepção de poder que considera os limites democráticos um obstáculo a ser removido. A democracia é, por vezes, lenta, contraditória e frustrante. Exige negociação, tolerância e a aceitação de derrotas. A tentação autoritária oferece o caminho inverso: promete resolver os conflitos pela força, dispensar a negociação e entregar a um líder a tarefa de decidir quem merece ser ouvido. É uma promessa sedutora, para muitos, sobretudo em períodos de insegurança. Mas a história demonstra que o preço dessa suposta eficiência costuma ser pago por aqueles que perdem a proteção das leis.
O teste de 2022 e o 8 de janeiro
As eleições de 2022 tornaram especialmente visível o problema da relação entre o bolsonarismo e as regras democráticas. Bolsonaro perdeu a disputa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado foi proclamado pelas autoridades eleitorais e reconhecido institucionalmente, mas a desconfiança disseminada contra as urnas eletrônicas e a contestação da legitimidade do processo alimentaram a mobilização de setores que não aceitavam a derrota.
A existência de críticas ao sistema eleitoral não constitui, por si só, ameaça à democracia. Sistemas de votação devem ser fiscalizados, aperfeiçoados e submetidos a procedimentos transparentes. O que não se pode fazer é transformar suspeitas não demonstradas em certezas políticas e usá-las para deslegitimar um resultado sem apresentar provas capazes de sustentá-las.
Em 8 de janeiro de 2023, manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto. As imagens daquele dia mostraram mais do que a destruição de edifícios públicos. Revelaram a disposição de setores mobilizados de atacar os próprios centros institucionais da República.
Não seria correto atribuir indistintamente a todos os eleitores de Bolsonaro a responsabilidade por aqueles atos. A responsabilidade penal é individual, e a diversidade de motivações entre seus apoiadores não pode ser ignorada. Também é necessário distinguir os participantes diretos dos atos, seus eventuais financiadores e instigadores e aqueles que apenas compartilham determinadas posições políticas.
Mas a prudência na atribuição de responsabilidades não exige fechar os olhos para a natureza antidemocrática de uma tentativa de impor, pela força, uma solução política que não foi obtida nas urnas. O episódio tornou concreta uma pergunta que já estava presente durante o governo Bolsonaro: o movimento aceita a alternância de poder como regra inegociável ou considera legítimos os resultados apenas quando lhe são favoráveis? Essa é uma das perguntas decisivas para avaliar o caráter de qualquer movimento político.
Não é preciso transformar todo bolsonarista em fascista
Talvez a objeção mais frequente a essa interpretação seja a de que milhões de brasileiros apoiaram Bolsonaro por razões diversas. Muitos o fizeram por rejeição ao PT, por preocupações econômicas, por afinidade religiosa, por posições conservadoras ou por desconfiança em relação à política tradicional. Isso é verdadeiro e precisa ser levado a sério.
Não conhecemos a consciência de cada eleitor, e seria intelectualmente desonesto atribuir a todos as mesmas motivações. Uma pessoa pode ter votado em Bolsonaro sem desejar uma ditadura, sem aprovar a violência política e sem conhecer a tradição histórica do fascismo. Pode ter mudado de posição, mantido seu voto ou rejeitado aspectos importantes do governo por razões inteiramente legítimas. Mas a diversidade dos eleitores não resolve a questão sobre a natureza do movimento.
Uma coisa é examinar as motivações individuais de quem vota. Outra é analisar o conjunto de ideias, símbolos, práticas e objetivos que organiza uma corrente política. É nesse segundo plano que considero adequada a definição de neofascismo.
Também não afirmo que o Brasil tenha vivido, durante o governo Bolsonaro, uma ditadura fascista equivalente aos regimes de Mussolini ou Hitler. A oposição continuou atuando, a imprensa conservou espaços de independência, as eleições permaneceram competitivas e as instituições demonstraram capacidade de resistência. Essas diferenças são importantes e não devem ser apagadas.
O que sustento é que um movimento pode apresentar características neofascistas sem ter conseguido destruir a democracia ou consolidar uma ditadura. Confundir essas duas afirmações seria como dizer que o incêndio só merece ser reconhecido quando a casa inteira já está em chamas.
O que está em jogo
Chamo o bolsonarismo de neofascismo porque considero insuficiente descrevê-lo apenas como conservadorismo, populismo ou uma expressão mais radical da direita brasileira. Esses conceitos ajudam a explicar partes do fenômeno, mas, a meu ver, não dão conta de toda a combinação entre personalismo, nacionalismo excludente, hostilidade ao pluralismo, nostalgia autoritária e contestação das regras democráticas.
Sei que a classificação é discutida por pesquisadores e que existem diferenças entre o fascismo histórico e os movimentos contemporâneos de extrema-direita. Não ignoro essas diferenças. É justamente por reconhecê-las que utilizo o prefixo “neo”: não para afirmar que a história se repete de maneira idêntica, mas para indicar a adaptação de uma lógica política antiga a novas circunstâncias.
O problema não desaparece porque o movimento disputa eleições. A democracia não se resume ao ato de votar. Ela depende também da aceitação da derrota, da proteção das minorias, da liberdade de imprensa, da independência judicial e do reconhecimento de que nenhum líder está acima da lei.
Talvez o sinal mais inquietante de uma tendência autoritária seja a facilidade com que se começa a tolerar aquilo que antes parecia inaceitável. Primeiro, a mentira é desculpada porque favorece a causa. Depois, o adversário é desumanizado porque supostamente ameaça o país. Em seguida, a violência é relativizada porque teria sido provocada pelo inimigo. Por fim, as próprias regras democráticas passam a ser tratadas como obstáculos que podem ser removidos em nome de uma missão superior.
Não é necessário que todos percorram esse caminho. Basta que uma parcela suficientemente mobilizada o percorra e que outros, por conveniência, medo ou indiferença, deixem de reagir. É por isso que considero importante dar nome ao fenômeno. Não para encerrar a discussão com um rótulo, nem para substituir argumentos por acusações, mas para tornar possível uma discussão mais rigorosa sobre aquilo que ameaça a democracia.
Chamo o bolsonarismo de neofascismo porque vejo nele mais do que uma disputa entre direita e esquerda. Vejo uma concepção de política que, em seus setores mais radicalizados, tende a confundir a nação com o líder, a divergência com a traição e a força com o direito. E não considero essa uma questão secundária, nem um problema que pertença apenas aos adversários de Bolsonaro.
Quando a democracia é tratada como legítima somente se produz o resultado desejado, nenhum cidadão está inteiramente protegido. Hoje, o alvo pode ser o adversário político. Amanhã, pode ser qualquer pessoa que se recuse a obedecer.
Durante décadas, Jair Bolsonaro foi um deputado do baixo clero que exaltava a ditadura, defendia a tortura e chegou a afirmar que o regime deveria ter matado mais. Em 2016, dedicou seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Nada disso impediu sua eleição à Presidência, em 2018. A leniência com a apologia da ditadura permitiu que o autoritarismo deixasse as margens da política e alcançasse o centro do poder. Foi nesse terreno que nasceu o bolsonarismo.
Ignorar a história nos torna mais propensos a repetir seus erros. Mas não podemos nos eximir da responsabilidade quando, diante deles, escolhemos não reconhecê-los. O autoritarismo raramente retorna com o mesmo rosto: muda os discursos, veste novas bandeiras e se apresenta como salvador da pátria. A democracia não morre apenas quando lhe arrancam as liberdades, mas também quando os cidadãos, de tanto vê-las ameaçadas, deixam de sentir o dever de defendê-las.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Entre a barbárie e a civilização existe um abismo
Quando o ódio se torna virtude, a violência se transforma em política e a democracia deixa de ser um valor compartilhado. Tenho refletido muito sobre isso. Há uma pergunta que a história insiste em nos fazer, embora raramente estejamos dispostos a respondê-la com a seriedade necessária: como sociedades instruídas, dotadas de universidades, instituições religiosas, produção cultural e conhecimento científico, podem chegar ao ponto de perseguir, torturar e exterminar seres humanos? Como um cidadão aparentemente comum, que trabalha, constitui família, frequenta uma igreja e educa seus filhos, pode aceitar que seu vizinho seja humilhado, expulso ou morto simplesmente por pertencer a outro grupo?
A Alemanha nazista nos deixou essa pergunta. O genocídio de Ruanda a tornou ainda mais perturbadora. Gaza expôs as nossas entranhas. E a história continua a demonstrar que não se trata de uma questão restrita a povos distantes, a épocas primitivas ou a sociedades supostamente atrasadas. A barbárie não é uma condição exclusiva daqueles que desconhecem a civilização. Ela também pode ser produzida por sociedades que se consideram civilizadas.
É justamente por isso que devemos olhar com seriedade para o que acontece no Brasil. Não porque os episódios de violência política que testemunhamos sejam equivalentes, em escala ou natureza, aos genocídios do século XX, mas porque alguns dos mecanismos que tornam a violência coletiva possível podem ser reconhecidos muito antes de uma sociedade chegar ao seu limite mais extremo. Esperar que o sangue seja derramado em larga escala para reconhecer o perigo é uma forma de negligência histórica.
Após o primeiro turno das eleições de 2026, um vídeo registrado em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, mostrou uma criança sobre o teto de um automóvel, dançando e segurando objetos semelhantes a uma pistola e a um fuzil durante uma comemoração política. A Polícia Civil confirmou a autenticidade do vídeo e informou que os responsáveis haviam sido identificados, mas a natureza dos objetos ainda estava sob apuração. Não é necessário afirmar que se tratava de armas reais para perceber a gravidade da cena: uma criança transformada em personagem de uma celebração na qual a arma ocupa o lugar de símbolo de poder e afirmação.
O episódio não pode ser tratado como prova isolada de que toda uma sociedade está se tornando violenta. Mas tampouco deve ser descartado como uma brincadeira sem importância. Crianças aprendem também por aquilo que os adultos celebram. Quando a arma aparece como adereço de festa, quando a força passa a ser motivo de orgulho e quando a intimidação se confunde com coragem, alguma coisa se altera no imaginário coletivo. O que deveria inspirar cautela pode começar a inspirar admiração.
O Brasil já havia assistido, durante a campanha eleitoral de 2022, a cenas que deveriam ter provocado uma reflexão nacional. Em Aparecida, apoiadores de Jair Bolsonaro hostilizaram jornalistas e vaiaram manifestações religiosas que abordavam a fome e o ódio. Em Fazenda Rio Grande, no Paraná, uma missa foi interrompida por uma fiel que acusou o sacerdote de fazer campanha política depois de uma homilia contrária ao armamentismo. Em Guarabira, na Paraíba, o bispo Dom Aldemiro Sena foi alvo de agressões verbais após uma celebração religiosa na qual havia falado sobre a defesa dos pobres e criticado a cultura das armas. Os episódios foram documentados pela imprensa à época.
O que deveria nos inquietar nesses acontecimentos não é a divergência política. Divergir é legítimo, inclusive dentro de uma igreja, de uma universidade ou de uma família. O problema começa quando a divergência deixa de ser respondida com argumentos e passa a ser enfrentada pela intimidação; quando o adversário é tratado como inimigo a ser silenciado; quando a autoridade religiosa, o jornalista, o professor ou o cidadão comum se tornam alvos simplesmente porque disseram algo que desagrada a determinada militância.
Em 2026, o problema da violência política tampouco pode ser reduzido a episódios isolados. Levantamento das organizações Justiça Global e Terra de Direitos registrou 134 ocorrências durante os cinquenta dias de campanha do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro. Foram contabilizadas ameaças, ofensas, agressões físicas, atentados e dois assassinatos. O levantamento identificou ainda ataques motivados por machismo, racismo e transfobia. Os dados não autorizam atribuir indistintamente todos os casos a um único campo político, mas demonstram a dimensão do problema que a democracia brasileira precisa enfrentar.
O Brasil, que pensa e se indigna, sentiu-se envergonhado ao assistir uma deputada de Santa Catarina que comemorou a sua vitória fazendo estalar em plena rua um relho. Não foram poucos os candidatos que divulgaram suas fotos empunhando fuzis como se a exibição de armas fosse credencial de autoridade e a intimidação, uma demonstração de coragem. Há algo profundamente inquietante quando a força bruta passa a ser exibida como virtude por aqueles que pretendem representar a sociedade.
É necessário, portanto, abandonar duas ilusões. A primeira é imaginar que a violência política seja apenas uma manifestação passageira de ânimos exaltados. A segunda é acreditar que ela se tornará inofensiva se for praticada por pessoas que compartilham nossas convicções. A violência não se torna aceitável porque seu autor veste a camisa de um partido com o qual simpatizamos, invoca a defesa da família ou afirma estar salvando a pátria. O perigo começa quando passamos a selecionar quais agressões merecem nossa indignação e quais podem ser justificadas em nome de uma causa.
A lição que a história não nos permite esquecer
O nazismo não chegou ao poder anunciando, desde o primeiro dia, todos os horrores que viria a cometer. A perseguição foi sendo construída por meio da propaganda, da discriminação legal, da exclusão profissional, da desumanização dos judeus e de outros grupos e da progressiva destruição dos limites institucionais que poderiam conter o regime. O preconceito foi transformado em política de Estado, e diferentes setores da sociedade foram mobilizados ou acomodados a esse processo.
A Alemanha possuía uma tradição intelectual extraordinária. Havia filósofos, músicos, cientistas, médicos, juristas e universidades respeitadas. Nada disso impediu que profissionais qualificados colaborassem com a perseguição racial e que instituições fossem colocadas a serviço de um projeto criminoso. O conhecimento não desapareceu. Em muitos casos, foi utilizado sem escrúpulos para fins desumanos.
Hannah Arendt, ao refletir sobre o julgamento de Adolf Eichmann, responsável por parte da organização das deportações de judeus, chamou a atenção para a banalidade do mal. Sua reflexão não significa que o Holocausto fosse banal ou que seus responsáveis fossem inocentes. Significa que atrocidades de dimensão extraordinária podem ser praticadas por pessoas que se refugiam em justificativas burocráticas, clichês, obediência e recusa em examinar criticamente o significado moral de seus atos.
O funcionário que organiza uma lista de deportados pode alegar que apenas cumpre sua função. O profissional que executa uma política discriminatória pode dizer que apenas aplica a lei. O cidadão que se cala diante da perseguição pode convencer a si mesmo de que não tem responsabilidade pelo que acontece. Assim, a consciência moral vai sendo substituída pela conformidade.
Em Ruanda, em 1994, a propaganda extremista ajudou a transformar vizinhos em inimigos. A desumanização dos tutsis, apresentados como uma ameaça à coletividade, contribuiu para preparar o terreno para o genocídio. Em aproximadamente cem dias, centenas de milhares de pessoas foram assassinadas, sobretudo tutsis, enquanto hutus moderados também foram perseguidos e mortos. A violência não nasceu de uma diferença étnica inevitável, mas de uma história política, de estruturas de poder, de propaganda e de decisões humanas.
O que aproxima essas experiências não é uma equivalência entre acontecimentos históricos muito diferentes. É a possibilidade de reconhecer mecanismos recorrentes: a fabricação de inimigos, a atribuição de todos os males a um grupo, a substituição do argumento pelo ressentimento, a normalização da humilhação e a ideia de que a violência seria necessária para defender a comunidade.
Os genocídios não começam necessariamente com campos de extermínio ou multidões armadas. Antes deles, pode haver palavras, caricaturas, leis discriminatórias, ameaças e uma sociedade que aprende a considerar o sofrimento de determinadas pessoas menos importante do que os interesses do grupo ao qual pertence.
Qualquer educação não nos torna automaticamente melhores
Existe uma crença confortável segundo a qual pessoas instruídas seriam naturalmente menos suscetíveis ao fanatismo. A história desmente essa certeza. Educação, cultura e ciência são conquistas fundamentais, mas não constituem, por si mesmas, garantias de consciência moral.
Um médico pode dominar a ciência e colocar sua competência a serviço de práticas desumanas. Um jurista pode conhecer profundamente as leis e utilizá-las para conferir aparência de legitimidade à injustiça. Um intelectual pode construir argumentos sofisticados para justificar preconceitos que jamais aceitaria reconhecer como tais. A inteligência amplia a capacidade humana, mas não determina a finalidade para a qual essa capacidade será utilizada.
A cultura também não nos protege automaticamente da barbárie. Uma pessoa pode emocionar-se diante de uma sinfonia, admirar grandes obras literárias e permanecer indiferente ao sofrimento de alguém que considera inferior. A sensibilidade estética não é idêntica à responsabilidade moral. A religião, por sua vez, pode inspirar solidariedade e resistência, mas também pode ser instrumentalizada para apresentar adversários políticos como inimigos de Deus ou da sociedade.
Quando uma convicção religiosa, política ou nacionalista passa a justificar qualquer ato contra aqueles que são considerados inimigos, ela deixa de funcionar como limite moral e se converte em autorização para a crueldade. O problema não está na existência de convicções fortes, mas na recusa em submetê-las ao princípio de que a dignidade humana não depende da identidade de quem a possui.
A ciência pode ampliar nossa capacidade de transformar o mundo, mas não decide sozinha quais objetivos são moralmente legítimos. A burocracia pode organizar serviços públicos e proteger direitos, mas também pode tornar a perseguição eficiente quando se subordina a um poder sem limites. A civilização não está apenas no conhecimento que acumulamos, mas nas restrições que aceitamos impor a nós mesmos.
É por isso que o Brasil precisa levar a sério a educação para a democracia, o pensamento crítico, o respeito aos direitos humanos e a responsabilidade institucional. Não basta ensinar a ler se não ensinarmos também a desconfiar de discursos que oferecem culpados fáceis para problemas complexos. Não basta transmitir conhecimentos se não desenvolvermos a capacidade de reconhecer quando a autoridade exige algo moralmente inaceitável.
Quando a violência se torna uma virtude política
A defesa do armamento civil, por si só, não permite classificar automaticamente uma pessoa ou um movimento como fascista. O debate sobre armas e segurança pública comporta diferentes posições legítimas. O problema surge quando o armamento é celebrado dentro de uma cultura política que glorifica a força, trata a violência como solução privilegiada para conflitos e apresenta o adversário como alguém que não merece direitos.
O mesmo vale para a atuação policial. Defender segurança pública eficiente não significa apoiar a violência arbitrária. Uma polícia forte em uma democracia é aquela que consegue proteger a população e enfrentar o crime dentro da lei, com controle, responsabilidade e respeito aos direitos fundamentais. Quando a força policial é apresentada como legítima independentemente de seus meios e de suas vítimas, o Estado de Direito começa a ser substituído pela lógica de que o mais forte decide.
O fascismo histórico possui características próprias, e o emprego da palavra exige rigor. Mas é perfeitamente legítimo examinar traços autoritários em movimentos contemporâneos: a exaltação de um líder acima das instituições, a hostilidade contra a imprensa e a oposição, a construção de inimigos internos, a glorificação da violência e a disposição de deslegitimar resultados eleitorais quando são desfavoráveis. Não é preciso esperar que um regime reproduza integralmente o nazismo para reconhecer que esses comportamentos representam riscos à democracia.
Também não se pode ignorar o que acontece quando minorias raciais, religiosas, sexuais ou políticas são transformadas em alvos preferenciais de discursos de desprezo. O racismo não é apenas uma opinião desagradável; é uma forma de negar a igualdade entre seres humanos. A perseguição de minorias não se torna menos grave porque seus autores afirmam representar a maioria. A democracia não consiste somente no governo dos vencedores de uma eleição. Consiste também em impedir que a maioria retire dos demais os direitos que tornam possível uma vida livre e digna.
É preciso, contudo, fazer uma distinção essencial: eleitores não são uma massa homogênea, e nem todos os que apoiam um candidato compartilham todas as suas posições ou aceitam a violência praticada por alguns de seus apoiadores. A responsabilidade política exige examinar discursos, propostas, condutas e consequências concretas, sem transformar milhões de pessoas em uma categoria moral indistinta. O combate ao autoritarismo perderia sua legitimidade se recorresse à mesma desumanização que pretende combater. Isso não significa neutralidade diante da violência. Significa que devemos ser rigorosos ao identificar responsabilidades e igualmente rigorosos ao defender os direitos de todos.
Constituição não é um obstáculo à vontade de quem vence
Uma democracia pode ser enfraquecida sem que suas instituições sejam imediatamente abolidas. Isso pode ocorrer quando o Legislativo é tratado como irrelevante, quando decisões judiciais só são aceitas se agradam ao governante, quando jornalistas são apresentados como inimigos e quando a oposição passa a ser descrita como uma ameaça à existência da nação.
A Constituição existe precisamente para impedir que o poder se transforme em propriedade de um grupo ou de um indivíduo. Ela estabelece limites, distribui competências, protege direitos e determina procedimentos para a solução de conflitos. Não é um obstáculo artificial colocado no caminho da vontade popular. É parte da estrutura que permite que essa vontade seja expressa sem que os derrotados percam a condição de cidadãos.
O voto confere legitimidade para governar dentro das regras constitucionais. Não concede autorização para destruir essas regras. Uma maioria eleitoral não pode transformar a imprensa em inimiga do Estado, eliminar os direitos das minorias ou substituir a independência das instituições pela fidelidade pessoal a um líder.
A democracia não exige que todos concordem. Exige que as divergências sejam resolvidas por meios legítimos e que ninguém seja obrigado a temer pela própria integridade por defender uma posição política, exercer uma profissão ou pertencer a determinado grupo social.
É justamente por isso que ataques às instituições, ameaças a adversários e tentativas de intimidar quem pensa diferente não devem ser tratados como simples folclore eleitoral. Quando a intimidação se normaliza, o cidadão começa a calcular o preço de falar. O professor pondera se deve abordar determinado assunto em sala de aula. O jornalista avalia se a reportagem pode provocar ameaças. O religioso teme ser hostilizado por uma homilia. O servidor público aprende a silenciar. E a liberdade vai sendo reduzida não apenas por leis, mas pelo medo. Uma Constituição pode continuar impressa em documentos oficiais enquanto o espírito democrático que lhe dá sentido se deteriora na vida cotidiana.
O silêncio também tem consequências
Não precisamos imaginar que todos os cidadãos que se calam diante de uma agressão sejam cúmplices no mesmo grau de quem a pratica. O medo é real, os riscos são diferentes e nem todos dispõem dos mesmos meios para reagir. A história exige discernimento, não julgamentos simplistas.
Mas é igualmente necessário reconhecer que a normalização da violência depende, em parte, da ausência de consequências. Quando uma agressão é celebrada por aliados, quando uma ameaça é minimizada porque veio do campo político preferido e quando o preconceito é tratado como mera provocação, transmite-se a mensagem de que determinadas pessoas podem ser atacadas sem que isso provoque uma reação coletiva.
A omissão não cria sozinha um regime autoritário, mas pode reduzir os custos sociais de sua expansão. O cidadão que considera a violência aceitável contra seus adversários talvez não perceba que está ajudando a enfraquecer as garantias das quais também poderá precisar no futuro. Foi por isso que os resistentes ao nazismo e ao genocídio de Ruanda são tão importantes para nossa compreensão da natureza humana. Mesmo sob pressões terríveis, houve pessoas que esconderam perseguidos, desafiaram ordens e se recusaram a colaborar. Não eram necessariamente indivíduos sem medo. Eram pessoas que, em determinadas circunstâncias, decidiram que a obediência, a conveniência ou a segurança pessoal não justificavam abandonar completamente a responsabilidade moral.
A história não é feita apenas por grandes líderes. É feita também pelas escolhas de pessoas comuns, inclusive pelas pequenas decisões que determinam se uma injustiça será contestada, tolerada ou recompensada.
Que país queremos deixar aos nossos filhos?
O vídeo da criança sobre o carro deveria nos levar a uma pergunta que vai muito além da disputa eleitoral: que valores estamos transmitindo às próximas gerações? Uma criança aprende quando observa os adultos. Aprende com aquilo que é celebrado, com as palavras que escuta e com a maneira como vê os outros serem tratados. Se o poder da arma, a humilhação do adversário e o desprezo por quem pensa diferente se tornam símbolos de vitória, não podemos fingir surpresa quando a violência começa a parecer natural.
Não se trata de proibir o debate sobre segurança pública, de exigir uniformidade ideológica ou de atribuir a um episódio isolado o significado de uma catástrofe iminente. Trata-se de reconhecer que a cultura democrática também se forma no cotidiano, nas relações entre vizinhos, nas escolas, nas igrejas, nas redes sociais e nas manifestações políticas.
Um país não se torna autoritário apenas porque elege um governante de determinada orientação. O risco aumenta quando o poder passa a ser exercido sem respeito aos limites constitucionais, quando a violência contra adversários é tolerada e quando a dignidade de determinados grupos é tratada como questão negociável. É por isso que devemos observar não apenas quem vence as eleições, mas também o que os vencedores fazem com o poder recebido e como seus apoiadores reagem quando as regras democráticas contrariam seus interesses.
A história não nos autoriza a afirmar que o Brasil esteja inevitavelmente destinado à barbárie. Mas também não nos permite acreditar que nossa cultura, nossa religiosidade, nossas universidades ou nossa tradição jurídica nos tornem imunes a ela. O futuro não está escrito. Ele depende, em parte, dos limites que a sociedade decide preservar.
A Alemanha de Beethoven e Goethe não estava protegida contra o nazismo por sua grandeza cultural. Ruanda não estava condenada ao genocídio por suas diferenças étnicas. Em ambos os casos, decisões políticas, propaganda, estruturas de poder e escolhas humanas contribuíram para produzir tragédias que não eram inevitáveis. Em ambos, a desumanização ajudou a transformar pessoas concretas em inimigos abstratos.
O Brasil ainda tem instituições, uma Constituição, uma sociedade civil atuante e cidadãos comprometidos com a democracia. Esses recursos precisam ser fortalecidos, não tratados como garantias eternas. Defender a Constituição não é defender um partido. Rejeitar o racismo não é fazer concessão a uma ideologia. Condenar a violência política não significa renunciar à divergência. Significa reconhecer que existem limites sem os quais a própria convivência democrática se torna impossível.
A barbárie não começa necessariamente quando alguém dispara uma arma. Pode começar quando uma sociedade aprende a rir da humilhação de um adversário, a justificar a agressão de uma minoria, a desconfiar de toda instituição que não obedeça ao seu líder e a considerar a violência uma demonstração de força moral.
É nesse momento que devemos reagir, não porque possamos prever com certeza o desfecho, mas porque conhecemos as consequências históricas de permitir que a desumanização avance sem resistência.
A pergunta que fica não é se somos melhores ou piores do que outros povos. É se seremos capazes de reconhecer os sinais de perigo quando eles aparecem entre nós, inclusive quando vêm de pessoas com as quais compartilhamos crenças, interesses ou preferências políticas.
Uma sociedade verdadeiramente civilizada não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que ninguém precisa temer pela própria dignidade, liberdade ou integridade por pensar de maneira diferente.
Talvez a tragédia mais profunda da humanidade seja esta: não precisamos deixar de ser civilizados para nos tornarmos bárbaros. Podemos continuar frequentando universidades, escrevendo livros, pronunciando sermões, defendendo leis e contemplando obras de arte enquanto aprendemos a conviver com a humilhação, o sofrimento e a morte daqueles que elegemos como nossos inimigos. A barbárie não exige que abandonemos tudo aquilo que construímos. Basta que retiremos de algumas pessoas o direito de fazer parte daquilo que chamamos humanidade.
É assim que uma sociedade começa a perder a si mesma. Primeiro, aceita a injustiça quando a vítima lhe é estranha. Depois, encontra razões para justificá-la quando a vítima lhe é inconveniente. Por fim, já não precisa justificar coisa alguma: acostumou-se. E talvez seja esse o momento mais perigoso de todos: quando o sofrimento alheio deixa de nos escandalizar e passa a nos parecer necessário, merecido ou simplesmente indiferente.
A Alemanha nazista, Ruanda e Gaza, cada qual em sua história e em suas circunstâncias, nos obrigam a confrontar essa possibilidade terrível. Não porque sejam acontecimentos idênticos, mas porque nos devolvem a mesma pergunta, sem permitir que a depositemos tranquilamente no passado: até onde somos capazes de assistir à desumanização de outros seres humanos antes de reconhecer que também estamos perdendo alguma coisa de nós mesmos?
A história não nos pede que sejamos heróis. Pede algo anterior e, talvez, mais difícil: que não nos acostumemos. Que a dor de uma criança não se torne menor por causa de sua origem; que a vida de um desconhecido não valha menos por causa de sua religião; que a dignidade de alguém não dependa de suas convicções políticas. Que não precisemos amar o outro para reconhecer que ele tem o mesmo direito de existir.
O verdadeiro momento do colapso de uma civilização talvez não aconteça quando suas instituições adoeçam simplesmente, mas quando seus cidadãos já não sentem necessidade de defendê-las; não quando seus templos ficam vazios, mas quando a compaixão que anunciam deixa de orientar a vida; não quando o conhecimento desaparece, mas quando a inteligência se põe a serviço da indiferença.
Não basta recordar quantos morreram, quais regimes governaram ou quais atrocidades foram cometidas. Precisamos recordar também as palavras que tornaram essas atrocidades toleráveis, as justificativas que permitiram sua continuidade e os pequenos recuos da consciência pelos quais o inaceitável foi adquirindo aparência de normalidade. A memória precisa nos ensinar a reconhecer não apenas o momento em que a violência explode, mas aquele em que começamos a encontrar razões para aceitá-la, o denominado desengajamento moral. No fim, não seremos julgados pelo que sabíamos, mas pelo que fizemos — e pelo que permitimos — quando ainda podíamos escolher.
Viva o Brasil, viva a democracia. Viva o povo brasileiro.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A matemática da desigualdade
Em 2025, o Brasil recebeu mais uma prova amarga de sua fragilidade educacional. No PISA, exame internacional que mede a proficiência em leitura, ciências e matemática, o país obteve 377 pontos em matemática, contra 469 da média da OCDE. A diferença não é apenas numérica: significa um atraso de 4,6 anos escolares.
Apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico de proficiência, enquanto nos países desenvolvidos esse índice chega a 65%. E quando se olha para os níveis mais altos, os que revelam raciocínio avançado, o Brasil praticamente desaparece: 0% dos alunos contra 20% em países como Japão e Singapura.
O retrato é cruel: 72% dos jovens brasileiros não conseguem sequer interpretar situações simples, como comparar descontos ou converter moedas. Entre os mais pobres, esse número sobe para 89%. A matemática, que deveria ser ferramenta de cidadania, torna-se barreira de exclusão.
As raízes do fracasso
O problema não nasceu em 2025. Desde 2015, os resultados em matemática e leitura estão estagnados. A escola brasileira continua presa à lógica da repetição de procedimentos, sem ensinar a aplicar o conhecimento à vida real.
A pandemia agravou o quadro, deixando milhões de estudantes sem acesso digital e ampliando a evasão. Mas a crise não é apenas educacional: é política. A educação nunca foi prioridade nacional.
Os anos da destruição
Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), a educação sofreu ataques sistemáticos: cortes orçamentários que estrangularam universidades e institutos de pesquisa; bloqueio de bolsas de pós-graduação, deixando jovens cientistas sem futuro; ataques ideológicos contra professores e universidades, acusados de “doutrinação”; gestão instável, com quatro ministros em quatro anos, muitos sem preparo técnico e além de tudo a militarização de escolas, reforçando disciplina rígida em vez de foco pedagógico.
Além do mais, o agravamento das desigualdades no Governo Bolsonaro, sem políticas eficazes para reduzir a distância entre ricos e pobres, somado a pandemia que encontrou um sistema já fragilizado tornou tudo pior. Diante disso a falta de respostas adequadas, a exclusão digital e a evasão escolar se tornaram marcas de uma geração.
O que fazer agora?
Se quisermos mudar o destino, precisamos de coragem para enfrentar o óbvio: ensinar por problemas reais, não apenas por fórmulas; formar professores continuamente, para que transmitam segurança e clareza; combater desigualdades, com reforço escolar e apoio individualizado; usar tecnologia de forma inteligente, aproximando a matemática da vida; valorizar a educação como prioridade política, como fizeram países que avançaram e mudar a cultura, deixando de tratar a matemática como inimiga e reconhecendo-a como linguagem da cidadania.
Conclusão
O Brasil de 2025 mostra que a matemática da desigualdade ainda nos aprisiona. Os ataques sofridos durante o governo da direita não foram apenas cortes de verbas: foram cortes de futuro. Se não transformarmos a educação em projeto nacional, continuaremos condenando nossos jovens a repetir a equação da exclusão.
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Quando a memória se transforma em destino
Poucos acontecimentos da história contemporânea marcaram tão profundamente uma sociedade quanto o Holocausto. O assassinato sistemático de aproximadamente seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial não terminou com a libertação dos campos de concentração em 1945. Seus efeitos ultrapassaram os sobreviventes e alcançaram seus filhos, netos e bisnetos. Hoje, a psicologia, a psiquiatria e os estudos da memória reconhecem esse fenômeno pelo nome de trauma transgeracional ou transmissão intergeracional do trauma.
Durante muitos anos acreditou-se que o trauma morresse com aqueles que o haviam experimentado. Entretanto, pesquisadores começaram a observar algo surpreendente entre os filhos dos sobreviventes do Holocausto. Eles jamais haviam conhecido Auschwitz, Treblinka ou Sobibor. Nunca haviam passado fome em um gueto, nem visto suas famílias serem deportadas. Ainda assim, muitos apresentavam medos semelhantes aos de seus pais: ansiedade constante, necessidade de controlar o ambiente, hipervigilância, dificuldade em confiar nas pessoas e um profundo sentimento de responsabilidade pela sobrevivência da própria família.
A pergunta inevitável surgiu: como alguém pode herdar uma dor que nunca viveu? A resposta revelou-se muito mais complexa do que se imaginava. O trauma raramente era transmitido por grandes discursos. Era comunicado nos pequenos gestos cotidianos. O pai que jamais desperdiçava um pedaço de pão. A mãe que comprava alimentos em quantidade muito maior do que a necessária por medo inconsciente de uma nova escassez. O avô que se sobressaltava ao ouvir uma sirene. A família inteira que vivia permanentemente preparada para uma tragédia que talvez nunca chegasse.
As crianças cresciam dentro desse universo emocional. Aprendiam, sem que ninguém lhes ensinasse explicitamente, que o mundo era um lugar profundamente inseguro. Herdavam não as lembranças do Holocausto, mas a maneira como o Holocausto continuava vivendo dentro daqueles que o haviam sobrevivido.
Curiosamente, o silêncio também transmitia memória. Muitos sobreviventes nunca conseguiram falar sobre o que haviam vivido. Não porque quisessem esquecer, mas porque algumas experiências pareciam impossíveis de serem colocadas em palavras. Ainda assim, os filhos percebiam que havia uma dor enorme ocupando todos os espaços da casa. Cresciam diante de fotografias de parentes que jamais conheceriam. Escutavam nomes pronunciados em voz baixa. Intuíam perguntas que ninguém tinha coragem de fazer.
A psicóloga israelense Dina Wardi descreveu muitos desses descendentes como verdadeiras "velas memoriais". Segundo ela, inúmeros filhos de sobreviventes passaram a viver como se carregassem uma missão: justificar a sobrevivência da família, manter viva a memória dos mortos e impedir que a tragédia voltasse a acontecer.
Esse sentimento de missão talvez seja uma das heranças mais profundas deixadas pelo Holocausto. A expressão "Nunca Mais" tornou-se parte da identidade coletiva de Israel. Para muitos, significava garantir que o povo judeu jamais voltaria a viver indefeso diante da possibilidade de um novo extermínio. Ao longo das décadas, essa memória passou a influenciar não apenas famílias, mas também a cultura política, a percepção de ameaças e as escolhas estratégicas do Estado israelense.
Entretanto, a própria sociedade israelense nunca foi unânime sobre o significado dessa herança. Há quem interprete o "Nunca Mais" como um compromisso absoluto com a autodefesa, mesmo diante das circunstâncias mais difíceis. Outros entendem que a maior homenagem possível às vítimas do Holocausto consiste justamente em impedir que qualquer povo seja desumanizado. Essas duas leituras convivem, dialogam e, por vezes, entram em profundo conflito dentro da própria sociedade israelense.
É exatamente nesse ponto que a literatura talvez consiga alcançar lugares onde os ensaios históricos e os estudos acadêmicos encontram seus limites. Os romances possuem a capacidade de transformar conceitos abstratos em experiências humanas. Em vez de explicar o trauma, permitem que o leitor o habite. Em vez de apresentar estatísticas, fazem-no acompanhar uma família ao longo de gerações, percebendo como medos, silêncios, afetos e escolhas atravessam o tempo.
Foi essa reflexão que orientou a construção de meu romance Sob as Sombras das Oliveiras – Isaac e Ishmael. A obra não procura apenas narrar acontecimentos históricos nem oferecer respostas fáceis para um dos conflitos mais complexos do nosso tempo. Seu propósito é investigar como duas grandes memórias traumáticas — o Holocausto e a Nakba palestina — continuam moldando identidades, medos, decisões e formas de enxergar o outro.
Ao longo da narrativa, os personagens descobrem que o trauma não determina um único destino. Duas pessoas podem herdar a mesma dor e responder a ela de maneiras completamente distintas. Uma poderá concluir que nunca mais permitirá que seu povo seja vítima. Outra poderá acreditar que a verdadeira homenagem aos mortos consiste em impedir que qualquer ser humano seja transformado em vítima. Essa diferença, aparentemente sutil, modifica completamente a maneira de compreender a história.
Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja apenas como recordar o passado, mas o que fazemos com a memória que recebemos. Toda geração herda as dores das que vieram antes. A questão decisiva é se utilizará essa herança para construir novos muros ou novas pontes. É justamente aí que a literatura encontra sua função mais profunda. Não a de decidir quem está certo ou errado, nem a de substituir a História, mas a de devolver rosto, voz e humanidade àqueles que tantas vezes são reduzidos a estatísticas, slogans ou bandeiras.
Porque, no fim, nenhuma memória deveria aprisionar as gerações futuras. A lembrança dos que sofreram só encontra seu sentido mais pleno quando deixa de alimentar o medo e passa a inspirar a coragem de impedir que o sofrimento se repita, seja qual for o povo, a religião ou a terra onde ele aconteça.
#DireitosHumanos #CulturaDePaz #Violência #Ética #Israel #Palestina #ConflitoIsraelPalestina #Diálogo #mauricioribasescritor #mauricioribaswriter.blogspot.com
sexta-feira, 10 de julho de 2026
Sob a sombra das oliveiras - Romance em acabamento - Por que devemos ler?
"Sob as Sombras das Oliveiras não é um romance sobre quem tem razão no conflito entre israelenses e palestinos. É um romance sobre o preço humano de acreditar que apenas um dos lados pode possuir toda a razão.
A história acompanha duas famílias ao longo de quase um século. Através delas, o leitor atravessa o Holocausto, a criação do Estado de Israel, a Nakba, as guerras, os acordos de paz, as intifadas e chega até os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e seus desdobramentos. Mas esses eventos nunca aparecem como capítulos de um livro de História. Eles são vividos por pessoas concretas: um avô que sobrevive ao antissemitismo europeu, um jovem que participa de Deir Yassin e passa o resto da vida tentando reconciliar-se com a própria consciência, um professor palestino que acredita na educação como forma de resistência, médicos que salvam vidas sem perguntar de que lado está o paciente e uma nova geração que herda memórias que não escolheu carregar.
O que mais chama a atenção é que o romance recusa a caricatura. Os personagens não existem para defender uma tese. Eles mudam de ideia, erram, sofrem, contradizem-se e amadurecem. Talvez por isso o livro provoque desconforto em leitores de posições políticas opostas: ele exige que se reconheça a humanidade de quem está do outro lado.
Também impressiona a arquitetura da obra. Ela cobre muitas décadas sem perder de vista as pequenas cenas da vida cotidiana: uma mesa de jantar, um hospital, uma carta, um casamento, uma criança que nasce, uma oliveira que atravessa gerações. Aos poucos, o leitor percebe que o verdadeiro protagonista talvez seja a própria memória e a pergunta que atravessa todo o romance: o que devemos preservar para que a verdade não desapareça com aqueles que a viveram?
Não é um livro de respostas fáceis. É um romance que convida o leitor a habitar um conflito complexo sem reduzir ninguém a um rótulo. E talvez seu maior mérito seja justamente este: lembrar que a literatura pode fazer aquilo que a política raramente consegue — devolver rosto, voz e história às pessoas antes de transformá-las em inimigos."
O romance dialoga claramente com Amós Oz, David Grossman e Ghassan Kanafani, mas procura construir uma voz própria. Enquanto Oz parte da memória autobiográfica e Grossman explora as marcas do trauma, Maurício Ribas aposta na ideia do testemunho. Cartas, diários, relatos e memórias atravessam a narrativa porque o livro sustenta uma convicção: a História pode ser escrita pelos vencedores, mas é a literatura que impede que a verdade desapareça com os vencidos.
#sobasombradasoliveiras #mauricioribasescritor #literaturauniversal #literaturaisraelopalestina
sábado, 4 de julho de 2026
O tempo não trai a verdade
Costuma-se repetir que a história é escrita pelos vencedores. A frase carrega uma parte importante da realidade. Afinal, são eles que normalmente erguem monumentos, ocupam os governos, controlam arquivos, escrevem relatórios e, muitas vezes, determinam aquilo que as primeiras gerações aprenderão sobre um conflito. Durante algum tempo, a versão dos vencedores costuma parecer definitiva. É o que chamamos de narrativa.
O tempo possui uma qualidade curiosa. Ele não apaga apenas as lembranças; também desgasta as versões convenientes. À medida que os anos passam, documentos esquecidos reaparecem, arquivos são abertos, cartas são encontradas no fundo de uma gaveta, diários sobrevivem aos seus autores, romances continuam sendo lidos e testemunhos voltam a falar quando aqueles que os escreveram já não estão mais aqui. A propaganda envelhece. A verdade, ao contrário, costuma amadurecer.
Hannah Arendt acreditava que os fatos possuem uma resistência extraordinária. Eles podem ser ocultados, manipulados e até negados, mas continuam existindo. A mentira exige vigilância permanente para sobreviver; a verdade necessita apenas de alguém disposto a preservá-la.
Paul Ricoeur lembrava que a história nunca é uma construção acabada. Ela é constantemente reconstruída pelo encontro entre memória, documentos e testemunhos. Primo Levi escreveu porque sabia que talvez não sobrevivesse por muito tempo, mas também sabia que suas palavras poderiam sobreviver por ele. Soljenítsin compreendeu que um regime pode controlar jornais, rádios e tribunais, mas jamais conseguirá controlar indefinidamente a literatura.
Talvez seja essa a maior missão dos escritores: oferecer ao tempo aquilo que ele precisará para julgar com justiça. Um romance, uma carta, um diário ou um poema podem parecer frágeis diante da força dos exércitos e dos governos. No entanto, não raras vezes são eles que permanecem quando impérios já desapareceram e bandeiras foram substituídas.
É por isso que acredito que testemunhar seja um dever moral. Não porque o testemunho mude imediatamente o mundo, mas porque ele impede que o mundo esqueça. A memória talvez não ressuscite os mortos nem desfaça as injustiças, mas preserva aquilo que o poder quase sempre tenta apagar: a dignidade das pessoas comuns e a verdade de suas vidas. A história continuará sendo escrita pelos vencedores. Mas o tempo continuará fiel à verdade.
#literaturabrasileira #escritormauricioribas #sobassombrasdasoliveiras
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Sob a Sombra das Oliveiras – Isaac e Ishmael Sinopse - Livro ainda em fase de finalização
Entre Jerusalém, Gaza, Ramala, São Paulo e Oslo, cinco gerações de duas famílias atravessam quase um século de guerras, exílios, perdas e reencontros, ligadas por uma origem comum que a História insistiu em transformar em ruptura.
Sob a Sombra das Oliveiras – Isaac e Ishmael é uma saga literária multigeracional que acompanha judeus e palestinos desde os anos que antecedem a criação do Estado de Israel até os conflitos contemporâneos do século XXI. Mais do que um romance histórico, a obra é uma investigação profundamente humana sobre memória, pertencimento, identidade e a possibilidade — talvez utópica, talvez necessária — de reconciliação entre povos marcados pelo trauma.
O romance se inicia em 2023, no amanhecer de 7 de outubro. Sob o mesmo céu ainda tranquilo, dois homens observam o início de um dia que mudará suas vidas para sempre. Isaac, descendente de judeus sobreviventes do Holocausto, desperta em Jerusalém poucos instantes antes das sirenes anunciarem o ataque do Hamas. Em Gaza, Ishmael contempla a manhã silenciosa sem imaginar que aquele mesmo dia abrirá uma nova ferida na história da sua terra. Nenhum dos dois compreende ainda a dimensão da tragédia que se aproxima, mas ambos reconhecem que algo irreversível começou. A partir desse ponto, a narrativa retorna ao passado.
Em 1942, em São Paulo, Ibrahim Levi, judeu alemão refugiado do nazismo, tenta reconstruir a vida ao lado da esposa Hanna, dos filhos e do pequeno neto Isaac. Carregando o peso da culpa por ter conseguido sair enquanto seus familiares permaneciam presos na Alemanha, Ibrahim vive entre a esperança e o medo, aguardando notícias que talvez nunca cheguem. Em meio às celebrações do Shabat, às orações e à rotina simples da comunidade judaica no Bom Retiro, ele procura preservar no neto a continuidade de uma tradição ameaçada pela barbárie.
Ao mesmo tempo, em Ramala, Omar Al-Husseini, professor palestino de História, observa com crescente inquietação as mudanças que atravessam a Palestina sob o Mandato Britânico. Humanista, intelectual e defensor da convivência entre árabes e judeus, Omar tenta ensinar ao filho Ishmael que dignidade e justiça não precisam nascer da violência. Mas o mundo ao redor começa lentamente a desmenti-lo.
À medida que o Holocausto é revelado ao mundo e o movimento sionista ganha força internacional, judeus perseguidos na Europa passam a chegar em massa à Palestina. Entre eles está a família Levi, que abandona definitivamente o Brasil em busca de um lar seguro na terra prometida. A travessia clandestina no navio Exodus 1947 e o confronto com as autoridades britânicas tornam-se experiências decisivas para o jovem Isaac, que cresce acreditando que a sobrevivência judaica depende da construção de um Estado próprio.
Do outro lado, os palestinos observam a transformação acelerada da sua terra. O sonho de independência vai sendo substituído pelo medo do deslocamento e da perda. Omar tenta resistir politicamente, defendendo a criação de dois Estados e denunciando tanto o colonialismo britânico quanto a radicalização crescente do conflito. Seu filho Ishmael, porém, pertence a outra geração. Uma geração moldada pela Nakba, pelas expulsões, pelos campos de refugiados e pela sensação de abandono histórico. Quando a guerra de 1948 explode, os caminhos das duas famílias tornam-se inseparáveis.
Décadas depois, em meio à ocupação, às guerras sucessivas e ao aprofundamento das feridas históricas, o destino produz um encontro improvável. Zac — apelido de Isaac Levi, bisneto de Ibrahim — apaixona-se por Maria, filha de Ishmael Al-Husseini, o guerrilheiro palestino morto anos antes em um confronto militar comandado pelo próprio pai de Zac. O amor entre os dois nasce como uma afronta silenciosa ao ódio herdado pelas gerações anteriores.
Enquanto a violência continua moldando o cotidiano de israelenses e palestinos, o romance acompanha as transformações das novas gerações. Em Oslo, jovens judeus, palestinos e noruegueses descobrem a amizade, o amor e a possibilidade de diálogo em meio aos debates políticos e às cicatrizes carregadas por suas famílias. Em Gaza, médicos, professores e ativistas tentam preservar humanidade em meio ao colapso permanente. Em Jerusalém, militares, intelectuais e sobreviventes convivem com o peso da memória e da culpa.
Ao longo da narrativa, os personagens enfrentam perdas irreparáveis, dilemas morais e escolhas que atravessam gerações. Alguns mergulham na radicalização. Outros resistem à lógica da vingança. Todos, porém, carregam a mesma pergunta: é possível continuar humano quando a própria História parece empurrar homens e povos inteiros para a desumanização?
Construído sobre espelhamentos simbólicos entre Isaac e Ishmael — os filhos bíblicos de Abraão — o romance utiliza a tradição judaica, cristã e islâmica como ponto de partida para refletir sobre pertencimento, herança espiritual e reconciliação. As oliveiras que atravessam a narrativa tornam-se símbolo dessa permanência: árvores antigas, feridas pelo tempo, mas ainda capazes de florescer.
Em uma terra onde memória e trauma se confundem, Sob as Sombras das Oliveiras – Isaac e Ishmael propõe uma visão rara do conflito israelo-palestino: não a partir da ideologia, mas da experiência humana. O romance atravessa guerras, deslocamentos, campos de refugiados, atentados, exílios e perdas familiares para mostrar que, antes de serem inimigos históricos, judeus e palestinos talvez continuem sendo aquilo que sempre foram desde o princípio: irmãos separados pela História, mas ligados pela mesma condição humana. Ao final, resta apenas a pergunta que atravessa todo o romance: será possível que Isaac e Ishmael enterrem juntos não apenas o pai Abraão, mas também o próprio ódio que herdaram?
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