Mauricio Ribas - Escritor
"Bem-vindo ao espaço literário de Mauricio Ribas! Aqui, compartilho minha jornada como escritor, explorando histórias, reflexões e debates sobre leitura e escrita. Se você ama literatura e busca inspiração, este blog é o seu ponto de encontro!"
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quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Entre a barbárie e a civilização existe um abismo
Quando o ódio se torna virtude, a violência se transforma em política e a democracia deixa de ser um valor compartilhado. Tenho refletido muito sobre isso. Há uma pergunta que a história insiste em nos fazer, embora raramente estejamos dispostos a respondê-la com a seriedade necessária: como sociedades instruídas, dotadas de universidades, instituições religiosas, produção cultural e conhecimento científico, podem chegar ao ponto de perseguir, torturar e exterminar seres humanos? Como um cidadão aparentemente comum, que trabalha, constitui família, frequenta uma igreja e educa seus filhos, pode aceitar que seu vizinho seja humilhado, expulso ou morto simplesmente por pertencer a outro grupo?
A Alemanha nazista nos deixou essa pergunta. O genocídio de Ruanda a tornou ainda mais perturbadora. Gaza expôs as nossas entranhas. E a história continua a demonstrar que não se trata de uma questão restrita a povos distantes, a épocas primitivas ou a sociedades supostamente atrasadas. A barbárie não é uma condição exclusiva daqueles que desconhecem a civilização. Ela também pode ser produzida por sociedades que se consideram civilizadas.
É justamente por isso que devemos olhar com seriedade para o que acontece no Brasil. Não porque os episódios de violência política que testemunhamos sejam equivalentes, em escala ou natureza, aos genocídios do século XX, mas porque alguns dos mecanismos que tornam a violência coletiva possível podem ser reconhecidos muito antes de uma sociedade chegar ao seu limite mais extremo. Esperar que o sangue seja derramado em larga escala para reconhecer o perigo é uma forma de negligência histórica.
Após o primeiro turno das eleições de 2026, um vídeo registrado em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, mostrou uma criança sobre o teto de um automóvel, dançando e segurando objetos semelhantes a uma pistola e a um fuzil durante uma comemoração política. A Polícia Civil confirmou a autenticidade do vídeo e informou que os responsáveis haviam sido identificados, mas a natureza dos objetos ainda estava sob apuração. Não é necessário afirmar que se tratava de armas reais para perceber a gravidade da cena: uma criança transformada em personagem de uma celebração na qual a arma ocupa o lugar de símbolo de poder e afirmação.
O episódio não pode ser tratado como prova isolada de que toda uma sociedade está se tornando violenta. Mas tampouco deve ser descartado como uma brincadeira sem importância. Crianças aprendem também por aquilo que os adultos celebram. Quando a arma aparece como adereço de festa, quando a força passa a ser motivo de orgulho e quando a intimidação se confunde com coragem, alguma coisa se altera no imaginário coletivo. O que deveria inspirar cautela pode começar a inspirar admiração.
O Brasil já havia assistido, durante a campanha eleitoral de 2022, a cenas que deveriam ter provocado uma reflexão nacional. Em Aparecida, apoiadores de Jair Bolsonaro hostilizaram jornalistas e vaiaram manifestações religiosas que abordavam a fome e o ódio. Em Fazenda Rio Grande, no Paraná, uma missa foi interrompida por uma fiel que acusou o sacerdote de fazer campanha política depois de uma homilia contrária ao armamentismo. Em Guarabira, na Paraíba, o bispo Dom Aldemiro Sena foi alvo de agressões verbais após uma celebração religiosa na qual havia falado sobre a defesa dos pobres e criticado a cultura das armas. Os episódios foram documentados pela imprensa à época.
O que deveria nos inquietar nesses acontecimentos não é a divergência política. Divergir é legítimo, inclusive dentro de uma igreja, de uma universidade ou de uma família. O problema começa quando a divergência deixa de ser respondida com argumentos e passa a ser enfrentada pela intimidação; quando o adversário é tratado como inimigo a ser silenciado; quando a autoridade religiosa, o jornalista, o professor ou o cidadão comum se tornam alvos simplesmente porque disseram algo que desagrada a determinada militância.
Em 2026, o problema da violência política tampouco pode ser reduzido a episódios isolados. Levantamento das organizações Justiça Global e Terra de Direitos registrou 134 ocorrências durante os cinquenta dias de campanha do primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro. Foram contabilizadas ameaças, ofensas, agressões físicas, atentados e dois assassinatos. O levantamento identificou ainda ataques motivados por machismo, racismo e transfobia. Os dados não autorizam atribuir indistintamente todos os casos a um único campo político, mas demonstram a dimensão do problema que a democracia brasileira precisa enfrentar.
O Brasil, que pensa e se indigna, sentiu-se envergonhado ao assistir uma deputada de Santa Catarina que comemorou a sua vitória fazendo estalar em plena rua um relho. Não foram poucos os candidatos que divulgaram suas fotos empunhando fuzis como se a exibição de armas fosse credencial de autoridade e a intimidação, uma demonstração de coragem. Há algo profundamente inquietante quando a força bruta passa a ser exibida como virtude por aqueles que pretendem representar a sociedade.
É necessário, portanto, abandonar duas ilusões. A primeira é imaginar que a violência política seja apenas uma manifestação passageira de ânimos exaltados. A segunda é acreditar que ela se tornará inofensiva se for praticada por pessoas que compartilham nossas convicções. A violência não se torna aceitável porque seu autor veste a camisa de um partido com o qual simpatizamos, invoca a defesa da família ou afirma estar salvando a pátria. O perigo começa quando passamos a selecionar quais agressões merecem nossa indignação e quais podem ser justificadas em nome de uma causa.
A lição que a história não nos permite esquecer
O nazismo não chegou ao poder anunciando, desde o primeiro dia, todos os horrores que viria a cometer. A perseguição foi sendo construída por meio da propaganda, da discriminação legal, da exclusão profissional, da desumanização dos judeus e de outros grupos e da progressiva destruição dos limites institucionais que poderiam conter o regime. O preconceito foi transformado em política de Estado, e diferentes setores da sociedade foram mobilizados ou acomodados a esse processo.
A Alemanha possuía uma tradição intelectual extraordinária. Havia filósofos, músicos, cientistas, médicos, juristas e universidades respeitadas. Nada disso impediu que profissionais qualificados colaborassem com a perseguição racial e que instituições fossem colocadas a serviço de um projeto criminoso. O conhecimento não desapareceu. Em muitos casos, foi utilizado sem escrúpulos para fins desumanos.
Hannah Arendt, ao refletir sobre o julgamento de Adolf Eichmann, responsável por parte da organização das deportações de judeus, chamou a atenção para a banalidade do mal. Sua reflexão não significa que o Holocausto fosse banal ou que seus responsáveis fossem inocentes. Significa que atrocidades de dimensão extraordinária podem ser praticadas por pessoas que se refugiam em justificativas burocráticas, clichês, obediência e recusa em examinar criticamente o significado moral de seus atos.
O funcionário que organiza uma lista de deportados pode alegar que apenas cumpre sua função. O profissional que executa uma política discriminatória pode dizer que apenas aplica a lei. O cidadão que se cala diante da perseguição pode convencer a si mesmo de que não tem responsabilidade pelo que acontece. Assim, a consciência moral vai sendo substituída pela conformidade.
Em Ruanda, em 1994, a propaganda extremista ajudou a transformar vizinhos em inimigos. A desumanização dos tutsis, apresentados como uma ameaça à coletividade, contribuiu para preparar o terreno para o genocídio. Em aproximadamente cem dias, centenas de milhares de pessoas foram assassinadas, sobretudo tutsis, enquanto hutus moderados também foram perseguidos e mortos. A violência não nasceu de uma diferença étnica inevitável, mas de uma história política, de estruturas de poder, de propaganda e de decisões humanas.
O que aproxima essas experiências não é uma equivalência entre acontecimentos históricos muito diferentes. É a possibilidade de reconhecer mecanismos recorrentes: a fabricação de inimigos, a atribuição de todos os males a um grupo, a substituição do argumento pelo ressentimento, a normalização da humilhação e a ideia de que a violência seria necessária para defender a comunidade.
Os genocídios não começam necessariamente com campos de extermínio ou multidões armadas. Antes deles, pode haver palavras, caricaturas, leis discriminatórias, ameaças e uma sociedade que aprende a considerar o sofrimento de determinadas pessoas menos importante do que os interesses do grupo ao qual pertence.
Qualquer educação não nos torna automaticamente melhores
Existe uma crença confortável segundo a qual pessoas instruídas seriam naturalmente menos suscetíveis ao fanatismo. A história desmente essa certeza. Educação, cultura e ciência são conquistas fundamentais, mas não constituem, por si mesmas, garantias de consciência moral.
Um médico pode dominar a ciência e colocar sua competência a serviço de práticas desumanas. Um jurista pode conhecer profundamente as leis e utilizá-las para conferir aparência de legitimidade à injustiça. Um intelectual pode construir argumentos sofisticados para justificar preconceitos que jamais aceitaria reconhecer como tais. A inteligência amplia a capacidade humana, mas não determina a finalidade para a qual essa capacidade será utilizada.
A cultura também não nos protege automaticamente da barbárie. Uma pessoa pode emocionar-se diante de uma sinfonia, admirar grandes obras literárias e permanecer indiferente ao sofrimento de alguém que considera inferior. A sensibilidade estética não é idêntica à responsabilidade moral. A religião, por sua vez, pode inspirar solidariedade e resistência, mas também pode ser instrumentalizada para apresentar adversários políticos como inimigos de Deus ou da sociedade.
Quando uma convicção religiosa, política ou nacionalista passa a justificar qualquer ato contra aqueles que são considerados inimigos, ela deixa de funcionar como limite moral e se converte em autorização para a crueldade. O problema não está na existência de convicções fortes, mas na recusa em submetê-las ao princípio de que a dignidade humana não depende da identidade de quem a possui.
A ciência pode ampliar nossa capacidade de transformar o mundo, mas não decide sozinha quais objetivos são moralmente legítimos. A burocracia pode organizar serviços públicos e proteger direitos, mas também pode tornar a perseguição eficiente quando se subordina a um poder sem limites. A civilização não está apenas no conhecimento que acumulamos, mas nas restrições que aceitamos impor a nós mesmos.
É por isso que o Brasil precisa levar a sério a educação para a democracia, o pensamento crítico, o respeito aos direitos humanos e a responsabilidade institucional. Não basta ensinar a ler se não ensinarmos também a desconfiar de discursos que oferecem culpados fáceis para problemas complexos. Não basta transmitir conhecimentos se não desenvolvermos a capacidade de reconhecer quando a autoridade exige algo moralmente inaceitável.
Quando a violência se torna uma virtude política
A defesa do armamento civil, por si só, não permite classificar automaticamente uma pessoa ou um movimento como fascista. O debate sobre armas e segurança pública comporta diferentes posições legítimas. O problema surge quando o armamento é celebrado dentro de uma cultura política que glorifica a força, trata a violência como solução privilegiada para conflitos e apresenta o adversário como alguém que não merece direitos.
O mesmo vale para a atuação policial. Defender segurança pública eficiente não significa apoiar a violência arbitrária. Uma polícia forte em uma democracia é aquela que consegue proteger a população e enfrentar o crime dentro da lei, com controle, responsabilidade e respeito aos direitos fundamentais. Quando a força policial é apresentada como legítima independentemente de seus meios e de suas vítimas, o Estado de Direito começa a ser substituído pela lógica de que o mais forte decide.
O fascismo histórico possui características próprias, e o emprego da palavra exige rigor. Mas é perfeitamente legítimo examinar traços autoritários em movimentos contemporâneos: a exaltação de um líder acima das instituições, a hostilidade contra a imprensa e a oposição, a construção de inimigos internos, a glorificação da violência e a disposição de deslegitimar resultados eleitorais quando são desfavoráveis. Não é preciso esperar que um regime reproduza integralmente o nazismo para reconhecer que esses comportamentos representam riscos à democracia.
Também não se pode ignorar o que acontece quando minorias raciais, religiosas, sexuais ou políticas são transformadas em alvos preferenciais de discursos de desprezo. O racismo não é apenas uma opinião desagradável; é uma forma de negar a igualdade entre seres humanos. A perseguição de minorias não se torna menos grave porque seus autores afirmam representar a maioria. A democracia não consiste somente no governo dos vencedores de uma eleição. Consiste também em impedir que a maioria retire dos demais os direitos que tornam possível uma vida livre e digna.
É preciso, contudo, fazer uma distinção essencial: eleitores não são uma massa homogênea, e nem todos os que apoiam um candidato compartilham todas as suas posições ou aceitam a violência praticada por alguns de seus apoiadores. A responsabilidade política exige examinar discursos, propostas, condutas e consequências concretas, sem transformar milhões de pessoas em uma categoria moral indistinta. O combate ao autoritarismo perderia sua legitimidade se recorresse à mesma desumanização que pretende combater. Isso não significa neutralidade diante da violência. Significa que devemos ser rigorosos ao identificar responsabilidades e igualmente rigorosos ao defender os direitos de todos.
Constituição não é um obstáculo à vontade de quem vence
Uma democracia pode ser enfraquecida sem que suas instituições sejam imediatamente abolidas. Isso pode ocorrer quando o Legislativo é tratado como irrelevante, quando decisões judiciais só são aceitas se agradam ao governante, quando jornalistas são apresentados como inimigos e quando a oposição passa a ser descrita como uma ameaça à existência da nação.
A Constituição existe precisamente para impedir que o poder se transforme em propriedade de um grupo ou de um indivíduo. Ela estabelece limites, distribui competências, protege direitos e determina procedimentos para a solução de conflitos. Não é um obstáculo artificial colocado no caminho da vontade popular. É parte da estrutura que permite que essa vontade seja expressa sem que os derrotados percam a condição de cidadãos.
O voto confere legitimidade para governar dentro das regras constitucionais. Não concede autorização para destruir essas regras. Uma maioria eleitoral não pode transformar a imprensa em inimiga do Estado, eliminar os direitos das minorias ou substituir a independência das instituições pela fidelidade pessoal a um líder.
A democracia não exige que todos concordem. Exige que as divergências sejam resolvidas por meios legítimos e que ninguém seja obrigado a temer pela própria integridade por defender uma posição política, exercer uma profissão ou pertencer a determinado grupo social.
É justamente por isso que ataques às instituições, ameaças a adversários e tentativas de intimidar quem pensa diferente não devem ser tratados como simples folclore eleitoral. Quando a intimidação se normaliza, o cidadão começa a calcular o preço de falar. O professor pondera se deve abordar determinado assunto em sala de aula. O jornalista avalia se a reportagem pode provocar ameaças. O religioso teme ser hostilizado por uma homilia. O servidor público aprende a silenciar. E a liberdade vai sendo reduzida não apenas por leis, mas pelo medo. Uma Constituição pode continuar impressa em documentos oficiais enquanto o espírito democrático que lhe dá sentido se deteriora na vida cotidiana.
O silêncio também tem consequências
Não precisamos imaginar que todos os cidadãos que se calam diante de uma agressão sejam cúmplices no mesmo grau de quem a pratica. O medo é real, os riscos são diferentes e nem todos dispõem dos mesmos meios para reagir. A história exige discernimento, não julgamentos simplistas.
Mas é igualmente necessário reconhecer que a normalização da violência depende, em parte, da ausência de consequências. Quando uma agressão é celebrada por aliados, quando uma ameaça é minimizada porque veio do campo político preferido e quando o preconceito é tratado como mera provocação, transmite-se a mensagem de que determinadas pessoas podem ser atacadas sem que isso provoque uma reação coletiva.
A omissão não cria sozinha um regime autoritário, mas pode reduzir os custos sociais de sua expansão. O cidadão que considera a violência aceitável contra seus adversários talvez não perceba que está ajudando a enfraquecer as garantias das quais também poderá precisar no futuro. Foi por isso que os resistentes ao nazismo e ao genocídio de Ruanda são tão importantes para nossa compreensão da natureza humana. Mesmo sob pressões terríveis, houve pessoas que esconderam perseguidos, desafiaram ordens e se recusaram a colaborar. Não eram necessariamente indivíduos sem medo. Eram pessoas que, em determinadas circunstâncias, decidiram que a obediência, a conveniência ou a segurança pessoal não justificavam abandonar completamente a responsabilidade moral.
A história não é feita apenas por grandes líderes. É feita também pelas escolhas de pessoas comuns, inclusive pelas pequenas decisões que determinam se uma injustiça será contestada, tolerada ou recompensada.
Que país queremos deixar aos nossos filhos?
O vídeo da criança sobre o carro deveria nos levar a uma pergunta que vai muito além da disputa eleitoral: que valores estamos transmitindo às próximas gerações? Uma criança aprende quando observa os adultos. Aprende com aquilo que é celebrado, com as palavras que escuta e com a maneira como vê os outros serem tratados. Se o poder da arma, a humilhação do adversário e o desprezo por quem pensa diferente se tornam símbolos de vitória, não podemos fingir surpresa quando a violência começa a parecer natural.
Não se trata de proibir o debate sobre segurança pública, de exigir uniformidade ideológica ou de atribuir a um episódio isolado o significado de uma catástrofe iminente. Trata-se de reconhecer que a cultura democrática também se forma no cotidiano, nas relações entre vizinhos, nas escolas, nas igrejas, nas redes sociais e nas manifestações políticas.
Um país não se torna autoritário apenas porque elege um governante de determinada orientação. O risco aumenta quando o poder passa a ser exercido sem respeito aos limites constitucionais, quando a violência contra adversários é tolerada e quando a dignidade de determinados grupos é tratada como questão negociável. É por isso que devemos observar não apenas quem vence as eleições, mas também o que os vencedores fazem com o poder recebido e como seus apoiadores reagem quando as regras democráticas contrariam seus interesses.
A história não nos autoriza a afirmar que o Brasil esteja inevitavelmente destinado à barbárie. Mas também não nos permite acreditar que nossa cultura, nossa religiosidade, nossas universidades ou nossa tradição jurídica nos tornem imunes a ela. O futuro não está escrito. Ele depende, em parte, dos limites que a sociedade decide preservar.
A Alemanha de Beethoven e Goethe não estava protegida contra o nazismo por sua grandeza cultural. Ruanda não estava condenada ao genocídio por suas diferenças étnicas. Em ambos os casos, decisões políticas, propaganda, estruturas de poder e escolhas humanas contribuíram para produzir tragédias que não eram inevitáveis. Em ambos, a desumanização ajudou a transformar pessoas concretas em inimigos abstratos.
O Brasil ainda tem instituições, uma Constituição, uma sociedade civil atuante e cidadãos comprometidos com a democracia. Esses recursos precisam ser fortalecidos, não tratados como garantias eternas. Defender a Constituição não é defender um partido. Rejeitar o racismo não é fazer concessão a uma ideologia. Condenar a violência política não significa renunciar à divergência. Significa reconhecer que existem limites sem os quais a própria convivência democrática se torna impossível.
A barbárie não começa necessariamente quando alguém dispara uma arma. Pode começar quando uma sociedade aprende a rir da humilhação de um adversário, a justificar a agressão de uma minoria, a desconfiar de toda instituição que não obedeça ao seu líder e a considerar a violência uma demonstração de força moral.
É nesse momento que devemos reagir, não porque possamos prever com certeza o desfecho, mas porque conhecemos as consequências históricas de permitir que a desumanização avance sem resistência.
A pergunta que fica não é se somos melhores ou piores do que outros povos. É se seremos capazes de reconhecer os sinais de perigo quando eles aparecem entre nós, inclusive quando vêm de pessoas com as quais compartilhamos crenças, interesses ou preferências políticas.
Uma sociedade verdadeiramente civilizada não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que ninguém precisa temer pela própria dignidade, liberdade ou integridade por pensar de maneira diferente.
Talvez a tragédia mais profunda da humanidade seja esta: não precisamos deixar de ser civilizados para nos tornarmos bárbaros. Podemos continuar frequentando universidades, escrevendo livros, pronunciando sermões, defendendo leis e contemplando obras de arte enquanto aprendemos a conviver com a humilhação, o sofrimento e a morte daqueles que elegemos como nossos inimigos. A barbárie não exige que abandonemos tudo aquilo que construímos. Basta que retiremos de algumas pessoas o direito de fazer parte daquilo que chamamos humanidade.
É assim que uma sociedade começa a perder a si mesma. Primeiro, aceita a injustiça quando a vítima lhe é estranha. Depois, encontra razões para justificá-la quando a vítima lhe é inconveniente. Por fim, já não precisa justificar coisa alguma: acostumou-se. E talvez seja esse o momento mais perigoso de todos: quando o sofrimento alheio deixa de nos escandalizar e passa a nos parecer necessário, merecido ou simplesmente indiferente.
A Alemanha nazista, Ruanda e Gaza, cada qual em sua história e em suas circunstâncias, nos obrigam a confrontar essa possibilidade terrível. Não porque sejam acontecimentos idênticos, mas porque nos devolvem a mesma pergunta, sem permitir que a depositemos tranquilamente no passado: até onde somos capazes de assistir à desumanização de outros seres humanos antes de reconhecer que também estamos perdendo alguma coisa de nós mesmos?
A história não nos pede que sejamos heróis. Pede algo anterior e, talvez, mais difícil: que não nos acostumemos. Que a dor de uma criança não se torne menor por causa de sua origem; que a vida de um desconhecido não valha menos por causa de sua religião; que a dignidade de alguém não dependa de suas convicções políticas. Que não precisemos amar o outro para reconhecer que ele tem o mesmo direito de existir.
O verdadeiro momento do colapso de uma civilização talvez não aconteça quando suas instituições adoeçam simplesmente, mas quando seus cidadãos já não sentem necessidade de defendê-las; não quando seus templos ficam vazios, mas quando a compaixão que anunciam deixa de orientar a vida; não quando o conhecimento desaparece, mas quando a inteligência se põe a serviço da indiferença.
Não basta recordar quantos morreram, quais regimes governaram ou quais atrocidades foram cometidas. Precisamos recordar também as palavras que tornaram essas atrocidades toleráveis, as justificativas que permitiram sua continuidade e os pequenos recuos da consciência pelos quais o inaceitável foi adquirindo aparência de normalidade. A memória precisa nos ensinar a reconhecer não apenas o momento em que a violência explode, mas aquele em que começamos a encontrar razões para aceitá-la, o denominado desengajamento moral. No fim, não seremos julgados pelo que sabíamos, mas pelo que fizemos — e pelo que permitimos — quando ainda podíamos escolher.
Viva o Brasil, viva a democracia. Viva o povo brasileiro.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A matemática da desigualdade
Em 2025, o Brasil recebeu mais uma prova amarga de sua fragilidade educacional. No PISA, exame internacional que mede a proficiência em leitura, ciências e matemática, o país obteve 377 pontos em matemática, contra 469 da média da OCDE. A diferença não é apenas numérica: significa um atraso de 4,6 anos escolares.
Apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico de proficiência, enquanto nos países desenvolvidos esse índice chega a 65%. E quando se olha para os níveis mais altos, os que revelam raciocínio avançado, o Brasil praticamente desaparece: 0% dos alunos contra 20% em países como Japão e Singapura.
O retrato é cruel: 72% dos jovens brasileiros não conseguem sequer interpretar situações simples, como comparar descontos ou converter moedas. Entre os mais pobres, esse número sobe para 89%. A matemática, que deveria ser ferramenta de cidadania, torna-se barreira de exclusão.
As raízes do fracasso
O problema não nasceu em 2025. Desde 2015, os resultados em matemática e leitura estão estagnados. A escola brasileira continua presa à lógica da repetição de procedimentos, sem ensinar a aplicar o conhecimento à vida real.
A pandemia agravou o quadro, deixando milhões de estudantes sem acesso digital e ampliando a evasão. Mas a crise não é apenas educacional: é política. A educação nunca foi prioridade nacional.
Os anos da destruição
Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), a educação sofreu ataques sistemáticos: cortes orçamentários que estrangularam universidades e institutos de pesquisa; bloqueio de bolsas de pós-graduação, deixando jovens cientistas sem futuro; ataques ideológicos contra professores e universidades, acusados de “doutrinação”; gestão instável, com quatro ministros em quatro anos, muitos sem preparo técnico e além de tudo a militarização de escolas, reforçando disciplina rígida em vez de foco pedagógico.
Além do mais, o agravamento das desigualdades no Governo Bolsonaro, sem políticas eficazes para reduzir a distância entre ricos e pobres, somado a pandemia que encontrou um sistema já fragilizado tornou tudo pior. Diante disso a falta de respostas adequadas, a exclusão digital e a evasão escolar se tornaram marcas de uma geração.
O que fazer agora?
Se quisermos mudar o destino, precisamos de coragem para enfrentar o óbvio: ensinar por problemas reais, não apenas por fórmulas; formar professores continuamente, para que transmitam segurança e clareza; combater desigualdades, com reforço escolar e apoio individualizado; usar tecnologia de forma inteligente, aproximando a matemática da vida; valorizar a educação como prioridade política, como fizeram países que avançaram e mudar a cultura, deixando de tratar a matemática como inimiga e reconhecendo-a como linguagem da cidadania.
Conclusão
O Brasil de 2025 mostra que a matemática da desigualdade ainda nos aprisiona. Os ataques sofridos durante o governo da direita não foram apenas cortes de verbas: foram cortes de futuro. Se não transformarmos a educação em projeto nacional, continuaremos condenando nossos jovens a repetir a equação da exclusão.
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Quando a memória se transforma em destino
Poucos acontecimentos da história contemporânea marcaram tão profundamente uma sociedade quanto o Holocausto. O assassinato sistemático de aproximadamente seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial não terminou com a libertação dos campos de concentração em 1945. Seus efeitos ultrapassaram os sobreviventes e alcançaram seus filhos, netos e bisnetos. Hoje, a psicologia, a psiquiatria e os estudos da memória reconhecem esse fenômeno pelo nome de trauma transgeracional ou transmissão intergeracional do trauma.
Durante muitos anos acreditou-se que o trauma morresse com aqueles que o haviam experimentado. Entretanto, pesquisadores começaram a observar algo surpreendente entre os filhos dos sobreviventes do Holocausto. Eles jamais haviam conhecido Auschwitz, Treblinka ou Sobibor. Nunca haviam passado fome em um gueto, nem visto suas famílias serem deportadas. Ainda assim, muitos apresentavam medos semelhantes aos de seus pais: ansiedade constante, necessidade de controlar o ambiente, hipervigilância, dificuldade em confiar nas pessoas e um profundo sentimento de responsabilidade pela sobrevivência da própria família.
A pergunta inevitável surgiu: como alguém pode herdar uma dor que nunca viveu? A resposta revelou-se muito mais complexa do que se imaginava. O trauma raramente era transmitido por grandes discursos. Era comunicado nos pequenos gestos cotidianos. O pai que jamais desperdiçava um pedaço de pão. A mãe que comprava alimentos em quantidade muito maior do que a necessária por medo inconsciente de uma nova escassez. O avô que se sobressaltava ao ouvir uma sirene. A família inteira que vivia permanentemente preparada para uma tragédia que talvez nunca chegasse.
As crianças cresciam dentro desse universo emocional. Aprendiam, sem que ninguém lhes ensinasse explicitamente, que o mundo era um lugar profundamente inseguro. Herdavam não as lembranças do Holocausto, mas a maneira como o Holocausto continuava vivendo dentro daqueles que o haviam sobrevivido.
Curiosamente, o silêncio também transmitia memória. Muitos sobreviventes nunca conseguiram falar sobre o que haviam vivido. Não porque quisessem esquecer, mas porque algumas experiências pareciam impossíveis de serem colocadas em palavras. Ainda assim, os filhos percebiam que havia uma dor enorme ocupando todos os espaços da casa. Cresciam diante de fotografias de parentes que jamais conheceriam. Escutavam nomes pronunciados em voz baixa. Intuíam perguntas que ninguém tinha coragem de fazer.
A psicóloga israelense Dina Wardi descreveu muitos desses descendentes como verdadeiras "velas memoriais". Segundo ela, inúmeros filhos de sobreviventes passaram a viver como se carregassem uma missão: justificar a sobrevivência da família, manter viva a memória dos mortos e impedir que a tragédia voltasse a acontecer.
Esse sentimento de missão talvez seja uma das heranças mais profundas deixadas pelo Holocausto. A expressão "Nunca Mais" tornou-se parte da identidade coletiva de Israel. Para muitos, significava garantir que o povo judeu jamais voltaria a viver indefeso diante da possibilidade de um novo extermínio. Ao longo das décadas, essa memória passou a influenciar não apenas famílias, mas também a cultura política, a percepção de ameaças e as escolhas estratégicas do Estado israelense.
Entretanto, a própria sociedade israelense nunca foi unânime sobre o significado dessa herança. Há quem interprete o "Nunca Mais" como um compromisso absoluto com a autodefesa, mesmo diante das circunstâncias mais difíceis. Outros entendem que a maior homenagem possível às vítimas do Holocausto consiste justamente em impedir que qualquer povo seja desumanizado. Essas duas leituras convivem, dialogam e, por vezes, entram em profundo conflito dentro da própria sociedade israelense.
É exatamente nesse ponto que a literatura talvez consiga alcançar lugares onde os ensaios históricos e os estudos acadêmicos encontram seus limites. Os romances possuem a capacidade de transformar conceitos abstratos em experiências humanas. Em vez de explicar o trauma, permitem que o leitor o habite. Em vez de apresentar estatísticas, fazem-no acompanhar uma família ao longo de gerações, percebendo como medos, silêncios, afetos e escolhas atravessam o tempo.
Foi essa reflexão que orientou a construção de meu romance Sob as Sombras das Oliveiras – Isaac e Ishmael. A obra não procura apenas narrar acontecimentos históricos nem oferecer respostas fáceis para um dos conflitos mais complexos do nosso tempo. Seu propósito é investigar como duas grandes memórias traumáticas — o Holocausto e a Nakba palestina — continuam moldando identidades, medos, decisões e formas de enxergar o outro.
Ao longo da narrativa, os personagens descobrem que o trauma não determina um único destino. Duas pessoas podem herdar a mesma dor e responder a ela de maneiras completamente distintas. Uma poderá concluir que nunca mais permitirá que seu povo seja vítima. Outra poderá acreditar que a verdadeira homenagem aos mortos consiste em impedir que qualquer ser humano seja transformado em vítima. Essa diferença, aparentemente sutil, modifica completamente a maneira de compreender a história.
Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja apenas como recordar o passado, mas o que fazemos com a memória que recebemos. Toda geração herda as dores das que vieram antes. A questão decisiva é se utilizará essa herança para construir novos muros ou novas pontes. É justamente aí que a literatura encontra sua função mais profunda. Não a de decidir quem está certo ou errado, nem a de substituir a História, mas a de devolver rosto, voz e humanidade àqueles que tantas vezes são reduzidos a estatísticas, slogans ou bandeiras.
Porque, no fim, nenhuma memória deveria aprisionar as gerações futuras. A lembrança dos que sofreram só encontra seu sentido mais pleno quando deixa de alimentar o medo e passa a inspirar a coragem de impedir que o sofrimento se repita, seja qual for o povo, a religião ou a terra onde ele aconteça.
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sexta-feira, 10 de julho de 2026
Sob a sombra das oliveiras - Romance em acabamento - Por que devemos ler?
"Sob as Sombras das Oliveiras não é um romance sobre quem tem razão no conflito entre israelenses e palestinos. É um romance sobre o preço humano de acreditar que apenas um dos lados pode possuir toda a razão.
A história acompanha duas famílias ao longo de quase um século. Através delas, o leitor atravessa o Holocausto, a criação do Estado de Israel, a Nakba, as guerras, os acordos de paz, as intifadas e chega até os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e seus desdobramentos. Mas esses eventos nunca aparecem como capítulos de um livro de História. Eles são vividos por pessoas concretas: um avô que sobrevive ao antissemitismo europeu, um jovem que participa de Deir Yassin e passa o resto da vida tentando reconciliar-se com a própria consciência, um professor palestino que acredita na educação como forma de resistência, médicos que salvam vidas sem perguntar de que lado está o paciente e uma nova geração que herda memórias que não escolheu carregar.
O que mais chama a atenção é que o romance recusa a caricatura. Os personagens não existem para defender uma tese. Eles mudam de ideia, erram, sofrem, contradizem-se e amadurecem. Talvez por isso o livro provoque desconforto em leitores de posições políticas opostas: ele exige que se reconheça a humanidade de quem está do outro lado.
Também impressiona a arquitetura da obra. Ela cobre muitas décadas sem perder de vista as pequenas cenas da vida cotidiana: uma mesa de jantar, um hospital, uma carta, um casamento, uma criança que nasce, uma oliveira que atravessa gerações. Aos poucos, o leitor percebe que o verdadeiro protagonista talvez seja a própria memória e a pergunta que atravessa todo o romance: o que devemos preservar para que a verdade não desapareça com aqueles que a viveram?
Não é um livro de respostas fáceis. É um romance que convida o leitor a habitar um conflito complexo sem reduzir ninguém a um rótulo. E talvez seu maior mérito seja justamente este: lembrar que a literatura pode fazer aquilo que a política raramente consegue — devolver rosto, voz e história às pessoas antes de transformá-las em inimigos."
O romance dialoga claramente com Amós Oz, David Grossman e Ghassan Kanafani, mas procura construir uma voz própria. Enquanto Oz parte da memória autobiográfica e Grossman explora as marcas do trauma, Maurício Ribas aposta na ideia do testemunho. Cartas, diários, relatos e memórias atravessam a narrativa porque o livro sustenta uma convicção: a História pode ser escrita pelos vencedores, mas é a literatura que impede que a verdade desapareça com os vencidos.
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sábado, 4 de julho de 2026
O tempo não trai a verdade
Costuma-se repetir que a história é escrita pelos vencedores. A frase carrega uma parte importante da realidade. Afinal, são eles que normalmente erguem monumentos, ocupam os governos, controlam arquivos, escrevem relatórios e, muitas vezes, determinam aquilo que as primeiras gerações aprenderão sobre um conflito. Durante algum tempo, a versão dos vencedores costuma parecer definitiva. É o que chamamos de narrativa.
O tempo possui uma qualidade curiosa. Ele não apaga apenas as lembranças; também desgasta as versões convenientes. À medida que os anos passam, documentos esquecidos reaparecem, arquivos são abertos, cartas são encontradas no fundo de uma gaveta, diários sobrevivem aos seus autores, romances continuam sendo lidos e testemunhos voltam a falar quando aqueles que os escreveram já não estão mais aqui. A propaganda envelhece. A verdade, ao contrário, costuma amadurecer.
Hannah Arendt acreditava que os fatos possuem uma resistência extraordinária. Eles podem ser ocultados, manipulados e até negados, mas continuam existindo. A mentira exige vigilância permanente para sobreviver; a verdade necessita apenas de alguém disposto a preservá-la.
Paul Ricoeur lembrava que a história nunca é uma construção acabada. Ela é constantemente reconstruída pelo encontro entre memória, documentos e testemunhos. Primo Levi escreveu porque sabia que talvez não sobrevivesse por muito tempo, mas também sabia que suas palavras poderiam sobreviver por ele. Soljenítsin compreendeu que um regime pode controlar jornais, rádios e tribunais, mas jamais conseguirá controlar indefinidamente a literatura.
Talvez seja essa a maior missão dos escritores: oferecer ao tempo aquilo que ele precisará para julgar com justiça. Um romance, uma carta, um diário ou um poema podem parecer frágeis diante da força dos exércitos e dos governos. No entanto, não raras vezes são eles que permanecem quando impérios já desapareceram e bandeiras foram substituídas.
É por isso que acredito que testemunhar seja um dever moral. Não porque o testemunho mude imediatamente o mundo, mas porque ele impede que o mundo esqueça. A memória talvez não ressuscite os mortos nem desfaça as injustiças, mas preserva aquilo que o poder quase sempre tenta apagar: a dignidade das pessoas comuns e a verdade de suas vidas. A história continuará sendo escrita pelos vencedores. Mas o tempo continuará fiel à verdade.
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quarta-feira, 20 de maio de 2026
Sob a Sombra das Oliveiras – Isaac e Ishmael Sinopse - Livro ainda em fase de finalização
Entre Jerusalém, Gaza, Ramala, São Paulo e Oslo, cinco gerações de duas famílias atravessam quase um século de guerras, exílios, perdas e reencontros, ligadas por uma origem comum que a História insistiu em transformar em ruptura.
Sob a Sombra das Oliveiras – Isaac e Ishmael é uma saga literária multigeracional que acompanha judeus e palestinos desde os anos que antecedem a criação do Estado de Israel até os conflitos contemporâneos do século XXI. Mais do que um romance histórico, a obra é uma investigação profundamente humana sobre memória, pertencimento, identidade e a possibilidade — talvez utópica, talvez necessária — de reconciliação entre povos marcados pelo trauma.
O romance se inicia em 2023, no amanhecer de 7 de outubro. Sob o mesmo céu ainda tranquilo, dois homens observam o início de um dia que mudará suas vidas para sempre. Isaac, descendente de judeus sobreviventes do Holocausto, desperta em Jerusalém poucos instantes antes das sirenes anunciarem o ataque do Hamas. Em Gaza, Ishmael contempla a manhã silenciosa sem imaginar que aquele mesmo dia abrirá uma nova ferida na história da sua terra. Nenhum dos dois compreende ainda a dimensão da tragédia que se aproxima, mas ambos reconhecem que algo irreversível começou. A partir desse ponto, a narrativa retorna ao passado.
Em 1942, em São Paulo, Ibrahim Levi, judeu alemão refugiado do nazismo, tenta reconstruir a vida ao lado da esposa Hanna, dos filhos e do pequeno neto Isaac. Carregando o peso da culpa por ter conseguido sair enquanto seus familiares permaneciam presos na Alemanha, Ibrahim vive entre a esperança e o medo, aguardando notícias que talvez nunca cheguem. Em meio às celebrações do Shabat, às orações e à rotina simples da comunidade judaica no Bom Retiro, ele procura preservar no neto a continuidade de uma tradição ameaçada pela barbárie.
Ao mesmo tempo, em Ramala, Omar Al-Husseini, professor palestino de História, observa com crescente inquietação as mudanças que atravessam a Palestina sob o Mandato Britânico. Humanista, intelectual e defensor da convivência entre árabes e judeus, Omar tenta ensinar ao filho Ishmael que dignidade e justiça não precisam nascer da violência. Mas o mundo ao redor começa lentamente a desmenti-lo.
À medida que o Holocausto é revelado ao mundo e o movimento sionista ganha força internacional, judeus perseguidos na Europa passam a chegar em massa à Palestina. Entre eles está a família Levi, que abandona definitivamente o Brasil em busca de um lar seguro na terra prometida. A travessia clandestina no navio Exodus 1947 e o confronto com as autoridades britânicas tornam-se experiências decisivas para o jovem Isaac, que cresce acreditando que a sobrevivência judaica depende da construção de um Estado próprio.
Do outro lado, os palestinos observam a transformação acelerada da sua terra. O sonho de independência vai sendo substituído pelo medo do deslocamento e da perda. Omar tenta resistir politicamente, defendendo a criação de dois Estados e denunciando tanto o colonialismo britânico quanto a radicalização crescente do conflito. Seu filho Ishmael, porém, pertence a outra geração. Uma geração moldada pela Nakba, pelas expulsões, pelos campos de refugiados e pela sensação de abandono histórico. Quando a guerra de 1948 explode, os caminhos das duas famílias tornam-se inseparáveis.
Décadas depois, em meio à ocupação, às guerras sucessivas e ao aprofundamento das feridas históricas, o destino produz um encontro improvável. Zac — apelido de Isaac Levi, bisneto de Ibrahim — apaixona-se por Maria, filha de Ishmael Al-Husseini, o guerrilheiro palestino morto anos antes em um confronto militar comandado pelo próprio pai de Zac. O amor entre os dois nasce como uma afronta silenciosa ao ódio herdado pelas gerações anteriores.
Enquanto a violência continua moldando o cotidiano de israelenses e palestinos, o romance acompanha as transformações das novas gerações. Em Oslo, jovens judeus, palestinos e noruegueses descobrem a amizade, o amor e a possibilidade de diálogo em meio aos debates políticos e às cicatrizes carregadas por suas famílias. Em Gaza, médicos, professores e ativistas tentam preservar humanidade em meio ao colapso permanente. Em Jerusalém, militares, intelectuais e sobreviventes convivem com o peso da memória e da culpa.
Ao longo da narrativa, os personagens enfrentam perdas irreparáveis, dilemas morais e escolhas que atravessam gerações. Alguns mergulham na radicalização. Outros resistem à lógica da vingança. Todos, porém, carregam a mesma pergunta: é possível continuar humano quando a própria História parece empurrar homens e povos inteiros para a desumanização?
Construído sobre espelhamentos simbólicos entre Isaac e Ishmael — os filhos bíblicos de Abraão — o romance utiliza a tradição judaica, cristã e islâmica como ponto de partida para refletir sobre pertencimento, herança espiritual e reconciliação. As oliveiras que atravessam a narrativa tornam-se símbolo dessa permanência: árvores antigas, feridas pelo tempo, mas ainda capazes de florescer.
Em uma terra onde memória e trauma se confundem, Sob as Sombras das Oliveiras – Isaac e Ishmael propõe uma visão rara do conflito israelo-palestino: não a partir da ideologia, mas da experiência humana. O romance atravessa guerras, deslocamentos, campos de refugiados, atentados, exílios e perdas familiares para mostrar que, antes de serem inimigos históricos, judeus e palestinos talvez continuem sendo aquilo que sempre foram desde o princípio: irmãos separados pela História, mas ligados pela mesma condição humana. Ao final, resta apenas a pergunta que atravessa todo o romance: será possível que Isaac e Ishmael enterrem juntos não apenas o pai Abraão, mas também o próprio ódio que herdaram?
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sexta-feira, 15 de maio de 2026
Quando a Dor Ultrapassa a Linguagem
Há mais de dois anos acordo e durmo com o mesmo livro. Sob a Sombra das Oliveiras — Isaac e Ishmael deixou de ser apenas um romance há muito tempo. Tornou-se presença. Uma companhia silenciosa que atravessa meus dias, ocupa minhas manhãs, invade minhas noites e permanece comigo mesmo quando me afasto do computador.
Escrever um livro assim exige mais do que pesquisa. Exige permanência emocional. Há dias em que passo horas mergulhado em documentos históricos, fotografias antigas, relatos de guerra, depoimentos de sobreviventes, discursos políticos, mapas, cartas, imagens de vídeo, ruínas e memórias. Em outros, fico diante de uma única frase tentando encontrar o tom exato para narrar uma dor que nunca será completamente compreendida por quem não a viveu.
Hoje foi um desses dias. Mais um dia inteiro escrevendo. Mais um dia tentando atravessar, pela literatura, um dos conflitos mais dolorosos da história contemporânea. E justamente hoje, dia em que os palestinos lembram a Nakba — a catástrofe de 1948 que expulsou centenas de milhares de pessoas de suas casas e transformou o exílio em herança — li uma reportagem sobre crianças palestinas traumatizadas pela guerra que simplesmente pararam de falar. Mudas. Não por doença. Não por incapacidade física. Mas porque o horror, às vezes, ultrapassa a linguagem.
Fechei a tela do computador por alguns minutos. Fiquei olhando em silêncio para as páginas abertas do manuscrito. Pensei em quantas vezes, ao longo desses dois anos, tentei encontrar palavras para falar sobre aquilo que talvez exista justamente além delas. A Nakba. O exílio. O medo. As perdas. Os mortos. Os sobreviventes. Os que permaneceram. Os que partiram carregando apenas chaves, fotografias e lembranças. Mas também pensei em outra coisa: na necessidade quase desesperada que tenho de humanizar essa história. Não escrevo para defender governos. Não escrevo para justificar violências. Não escrevo para produzir propaganda. Escrevo porque acredito que a literatura ainda pode fazer algo raro: obrigar o leitor a olhar para o outro como ser humano.
Em Sob a Sombra das Oliveiras, tento mostrar israelenses e palestinos não como símbolos, slogans ou caricaturas ideológicas, mas como pessoas: pais, mães, filhos, professores, médicos, soldados, homens e mulheres atravessados pela História. Pessoas capazes de amar, sofrer, errar, odiar, resistir e também sonhar.
Talvez esse seja o verdadeiro desafio do romance: preservar humanidade justamente onde ela parece mais ameaçada. Hoje, enquanto escrevo mais uma vez da manhã até a noite, penso nessas crianças que perderam a voz antes mesmo de conhecer plenamente o mundo. E penso também no que a literatura pode fazer diante disso. Talvez muito pouco. Mas talvez esse pouco ainda importe. Talvez contar essas histórias com honestidade, dor e humanidade seja também uma forma de resistência contra o esquecimento. E talvez seja por isso que continuo voltando todos os dias para este livro. Tocando uma ferida. Ou a uma promessa.
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