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segunda-feira, 9 de março de 2026

O paradoxo que diz algo essencial sobre a condição humana

Há algo profundamente desconcertante na maneira como a história humana parece escolher seus protagonistas. Quando olhamos para trás, para aqueles que marcaram o mundo, na religião, na arte, no pensamento, quase nunca encontramos vidas lineares, limpas, heroicas no sentido clássico. Pelo contrário, encontramos falhas, contradições, quedas e impulsos desordenados. Encontramos homens e mulheres profundamente humanos. Talvez seja por isso que a história de Paulo de Tarso cause tanto espanto. Antes de ser Paulo, ele era Saulo, o perseguidor. Um homem convencido de que defendia a verdade ao combater os cristãos. Participou da perseguição, aprovou a morte de Estêvão e acreditou estar fazendo o que era justo. Nada em sua trajetória parecia apontar para o homem que mais tarde atravessaria o mundo romano pregando o Evangelho. Algo semelhante ocorre com Pedro Apóstolo. Pedro promete fidelidade absoluta. Pouco depois, diante do medo, nega conhecer Jesus três vezes. É um dos episódios mais humanos de todo o Evangelho. A coragem que se desfaz diante da ameaça, o coração que vacila quando o risco se torna real. Ainda assim, é esse homem falível, impulsivo e frágil que se torna a pedra sobre a qual se edifica a Igreja. Se olharmos com atenção, esse padrão se repete inúmeras vezes na história. Não apenas na religião, mas também na arte e na literatura. Vincent van Gogh escrevia cartas desesperadas pedindo tinta ao irmão. Ernest Hemingway terminou a vida testando o próprio rifle. Fyodor Dostoevsky esteve diante de um pelotão de fuzilamento antes de se tornar um dos maiores romancistas da história. Federico García Lorca foi assassinado numa estrada durante a Guerra Civil Espanhola. Nenhum deles corresponde à imagem do herói perfeito. Todos carregavam fissuras profundas. E, no entanto, foi através dessas vidas imperfeitas que surgiram obras capazes de atravessar o tempo e iluminar gerações. O poeta Charles Bukowski percebeu esse paradoxo com brutal clareza. Em seu poema Feras Saltando Através do Tempo, ele reúne uma espécie de galeria de artistas quebrados pela vida. Van Gogh pedindo tinta ao irmão, Hemingway testando seu rifle, Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade, Sylvia Plath com a cabeça no forno, Lorca assassinado na estrada. A cada exemplo, o poeta repete a mesma constatação dura e simples: “a impossibilidade de ser humano”. E ainda assim, apesar de todas essas ruínas, Bukowski termina reconhecendo que esses homens e mulheres continuam movendo “esse pedacinho de luz em direção a nós, impossivelmente”. Talvez exista aqui um paradoxo que diz algo essencial sobre a condição humana. Não são os perfeitos que movem o mundo. São aqueles que, apesar de suas falhas, respondem a um chamado. Esse chamado pode assumir muitas formas. Para alguns, é a fé. Para outros, a arte. Para outros ainda, a tarefa de construir algo maior do que a própria vida, uma ideia, uma comunidade, uma esperança. O ponto comum não está na pureza moral, mas numa inquietação interior que impede certas pessoas de viver apenas na superfície das coisas. Há um pensamento frequentemente atribuído a Fyodor Dostoevsky segundo o qual no coração do homem existe um vazio do tamanho de Deus. Talvez seja essa falta, esse espaço interior que nunca se preenche completamente, que impulsiona o ser humano a buscar algo maior do que si mesmo. A fé nasce daí, mas também nascem daí a arte, a filosofia e a literatura. Os escritores sabem bem disso. Muitos passam a vida inteira burilando frases, corrigindo páginas, voltando incansavelmente sobre as mesmas palavras. Buscam a forma justa, a expressão exata, a cadência perfeita. Não porque sejam perfeitos, mas precisamente porque sabem que não o são. A imperfeição que carregam dentro de si torna-se, paradoxalmente, o motor de uma busca incessante por beleza e verdade. Talvez escrevam assim porque amam essa tarefa e sentem que foram chamados a ela. Por isso revisam um parágrafo dezenas de vezes, como um artesão paciente diante de uma pedra bruta. Não para esconder suas falhas, mas para responder com o melhor que possuem a essa vocação silenciosa. No fundo, a verdadeira medida de um ser humano talvez não esteja em nunca falhar. A história mostra justamente o contrário. O que parece distinguir certas vidas é a capacidade de reconhecer, mesmo em meio às próprias quedas, uma voz que as chama para algo maior e de responder a ela com perseverança. A grandeza humana raramente nasce da perfeição. Ela nasce da coragem de continuar caminhando, de continuar criando, de continuar acreditando, mesmo quando sabemos que somos feitos da mesma matéria imperfeita de todos os homens. Ainda assim, algumas pessoas escutam o chamado e respondem. E é nessa resposta, imperfeita e persistente, que algo de extraordinário se torna possível.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Crônica – O Pinguim que Partiu para as Montanhas

Há imagens que não pertencem apenas ao mundo natural, mas ao reino da poesia. Uma delas é a do pinguim que, em meio ao seu bando, decide romper o destino coletivo e partir sozinho, em direção às montanhas geladas, onde não há alimento, nem colônia, nem sobrevivência. Esse gesto, aparentemente insano, tornou-se metáfora. O pinguim que se afasta é o ser humano que ousa quebrar o círculo da repetição, que se recusa a seguir o caminho seguro, que escolhe a solidão como forma de liberdade. É loucura, dizem alguns. É resistência, dizem outros. É busca espiritual, afirmam os que enxergam além da lógica. Naquele caminhar trôpego, há uma poesia silenciosa: o animal que se torna símbolo da alma inquieta, que não se contenta com o abrigo da multidão. Ele parte, mesmo sabendo que a morte o espera, como quem busca um sentido maior do que a sobrevivência. A cena nos fere porque revela nossa própria condição. Quantos de nós já sentimos o impulso de abandonar o bando, de seguir um caminho incompreensível, de buscar montanhas interiores onde talvez não haja nada além de silêncio? O pinguim é o espelho da liberdade radical, da loucura que nos habita, da resistência contra o destino imposto. E talvez seja também um ato espiritual. Porque há quem veja, nesse caminhar solitário, uma prece. Uma entrega ao mistério. Uma recusa em aceitar que a vida se resume a comer, reproduzir, sobreviver. O pinguim que parte é o monge que se retira, é o poeta ou escritor que se isola, é o visionário que escolhe o deserto. Para a humanidade, essa imagem é um chamado. Um lembrete de que dentro de nós existe sempre a possibilidade de romper o bando, de buscar o impossível, de caminhar para montanhas que não prometem nada além de silêncio e transcendência. O pinguim que parte sozinho não é apenas um animal perdido. É um ato poético. É a metáfora viva da liberdade, da loucura, da resistência e da busca espiritual. É um canto trágico e sublime de rebelião.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

CAMUS ARENDT E BEAUVOIR - O DIREITO DE EXISTIR E A PENA DE MORTE

Arendt, Beauvoir e Camus partem de um mesmo solo histórico, o trauma do nazismo, da ocupação e do genocídio, mas constroem respostas distintas diante da pergunta mais dura do pós-guerra: como julgar o crime absoluto sem nos tornarmos cúmplices de outra violência absoluta? Hannah Arendt, ao analisar o caso Eichmann, desloca o debate da psicologia do criminoso para o campo político. Eichmann não é um demônio excepcional, mas um homem comum que abdicou do pensamento. Essa “banalidade do mal” não o absolve; ao contrário, o condena. Para Arendt, Eichmann deve morrer não por vingança nem por exemplaridade moral, mas porque rompeu o fundamento da convivência humana. Ele participou de um sistema que negou a milhões o direito de existir no mundo comum. A pena de morte, nesse sentido, não é catarse, mas um reconhecimento jurídico de que há crimes que expulsam o sujeito da comunidade política dos vivos. Simone de Beauvoir chega a uma conclusão semelhante por outro caminho. No caso de Robert Brasillach, ela insiste na responsabilidade existencial. Para Beauvoir, a liberdade humana é inseparável de suas consequências históricas. O intelectual não escreve no vazio: a palavra é ação. Brasillach, ao colaborar ideologicamente com o nazismo, escolheu o ódio e a exclusão; escolheu, portanto, as mortes que ajudou a legitimar. Beauvoir aceita a execução não com frieza jurídica, mas com consciência trágica: trata-se de uma decisão amarga, quase um fracasso moral coletivo, porém inevitável diante da gravidade do crime. A pena de morte não é celebrada; é suportada. Albert Camus, por sua vez, rompe com ambas. Também marcado pela resistência e pela violência do século, ele recusa a pena capital em qualquer circunstância. Para Camus, o assassinato cometido pelo Estado, mesmo contra um assassino, destrói a possibilidade de uma justiça verdadeiramente humana. Em Reflexões sobre a guilhotina, ele afirma que a pena de morte não repara o mal cometido; apenas o prolonga sob outra forma. Onde Arendt vê a necessidade de afirmar um limite político, e Beauvoir aceita a punição como tragédia inevitável, Camus enxerga uma contradição insuperável: matar em nome da vida é negar o próprio valor que se pretende defender. O diálogo entre os três não é uma disputa simples entre “a favor” e “contra”. Arendt pensa o crime a partir do mundo comum e da política; Beauvoir, a partir da liberdade e da responsabilidade individual; Camus, a partir da dignidade humana levada até suas últimas consequências. Os três concordam em algo essencial: não há inocência possível diante da barbárie. Divergem, porém, na resposta final. Arendt e Beauvoir admitem que certos crimes colocam a humanidade diante de decisões-limite. Camus se recusa a atravessar esse limite. Esse desacordo não enfraquece o debate, ao contrário, o torna mais humano. Ele revela que, após Auschwitz, qualquer reflexão sobre justiça carrega uma ferida aberta: como punir o mal sem reproduzi-lo? Cada um oferece uma resposta distinta, e nenhuma é confortável. Talvez seja justamente aí que reside a força desse diálogo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Crônica – As amizades perigosas - Bandido bom é bandido amigo

Há amizades que dizem mais do que discursos. Donald Trump, com seu sorriso calculado e seus gestos de proximidade, sempre soube escolher bem os companheiros de palco. Entre eles, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu — nomes que carregam não apenas poder, mas também acusações pesadas de crimes de guerra, com mandados de prisão expedidos pelo Tribunal Penal Internacional. É curioso observar como esses laços se entrelaçam. Putin, com sua guerra que devora vidas na Ucrânia; Netanyahu, com a necropolítica que bombardeia, sufoca e expande assentamentos; ambos, figuras que transformaram a violência em instrumento de governo. E Trump, ao lado deles, como quem legitima, pela amizade, a brutalidade travestida de estratégia. Do outro lado, surge Nicolás Maduro. Ditador, sim, e não há como negar. Mas sua sombra, por mais longa que seja, não alcança as dimensões das mortes provocadas por Putin e Netanyahu. Maduro é lembrado pela repressão, pela fome que corrói a Venezuela, mas ainda assim sua figura não se distancia tanto dos outros dois — apenas se mede em escala. O contraste é revelador: Trump se aproxima dos que carregam o peso de genocídios e guerras, enquanto o mundo se ocupa em capturar Maduro.O pior é que tem gente que comemora a morte anunciada do Direito Internacional. A pergunta que fica é: por que alguns ditadores são tratados como monstros absolutos, enquanto outros, com crimes ainda maiores, são recebidos como aliados estratégicos? Na política internacional, a justiça parece ter olhos seletivos. E é nesse jogo de conveniências que se revela a verdadeira crônica do nosso tempo: a paz é sempre adiada, a violência sempre justificada, e os amigos de Trump continuam a escrever, com sangue, as páginas mais sombrias da história contemporânea.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Hipocrisia da Mídia: Entre o Incêndio na Suíça e os Bombardeios em Gaza

O início do ano novo foi marcado por uma tragédia na Suíça: jovens morreram em um incêndio em um bar de uma pequena cidade, que tem uma famosa estação de esqui. A mídia internacional não tardou em cobrir cada detalhe, especular sobre as causas e exibir apresentadores visivelmente consternados e profundamente sensibilizados diante das câmeras. A comoção foi imediata, os discursos de pesar se multiplicaram e a narrativa ganhou espaço privilegiado nos noticiários. No entanto, essa mesma mídia parece incapaz de demonstrar igual consternação diante da realidade brutal que se desenrola em Gaza. Há mais de dois anos, milhares de pessoas — homens, mulheres e crianças — têm sido mortas em bombardeios diários, despedaçadas ou carbonizadas por armas israelenses com apoio explícito dos Estados Unidos. A repetição da violência, a impunidade e o silêncio cúmplice transformaram o massacre em rotina invisível. A contradição torna-se ainda mais evidente quando um líder, como Benjamin Netanyahu, aparece em um evento social, tranquilamente assistindo a queimas de fogos na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago, localizada em Palm Beach, mesmo com mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra cometidos. A normalização dessa presença contrasta com a cobertura sensacionalista de tragédias europeias, revelando um padrão seletivo de indignação. O que se expõe, portanto, é uma hipocrisia estrutural: vidas europeias, brancas e ricas são tratadas como preciosas e dignas de luto coletivo, enquanto vidas palestinas, pobres e de pele escura são relegadas ao esquecimento. A mídia, ao reproduzir esse desequilíbrio, reforça uma hierarquia implícita de quem merece compaixão e quem pode ser descartado. Não se trata de negar a dor das famílias suíças, mas de denunciar a falsa universalidade da solidariedade midiática. O mundo chora quando a tragédia atinge os privilegiados, mas permanece indiferente quando a barbárie se repete contra os despossuídos. Essa seletividade revela que, no fundo, não é a humanidade que importa, mas o lugar social e racial de quem sofre. A inescrupulosa mídia em verdade não se importa com nada, apenas em faturar bilhões e fazer o jogo do sistema.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Resenha Crítica do livro Turning Point - Até que ponto você mudaria a sua história?

Maurício Ribas, em *Turning Point*, constrói uma obra que se inscreve na tradição da literatura contemporânea de caráter híbrido, situada entre o romance introspectivo e o texto motivacional. A narrativa não se limita a contar uma história, mas se propõe como experiência de leitura que interpela diretamente o leitor, convidando-o a refletir sobre os momentos decisivos de sua própria trajetória. A obra apresenta uma **estrutura fragmentada**, alternando episódios narrativos com reflexões filosóficas. Essa forma não-linear funciona como metáfora da própria experiência humana, marcada por rupturas e recomeços. O estilo de Ribas é **confessional e oralizado**, criando proximidade com o leitor. A cadência discursiva aproxima-se da conversação, mas é permeada por imagens poéticas — o tempo como rio, o passado como sombra, o futuro como horizonte. O livro problematiza a relação entre **escolha e destino**, **arrependimento e reconstrução**, propondo que cada “turning point” é uma oportunidade de reescrever a própria história. Nesse sentido, Ribas dialoga com tradições literárias que exploram memória e subjetividade. Aqui podemos evocar **Paul Ricoeur**, em *A memória, a história, o esquecimento*, ao afirmar que a memória é sempre seletiva e interpretativa. Ribas parece consciente dessa dimensão: ao narrar pontos de virada, mostra que não se trata de fatos objetivos, mas de reconstruções subjetivas que moldam a identidade. Do mesmo modo, é possível relacionar a obra com **Walter Benjamin**, em seu ensaio *O narrador*. Benjamin observa que a experiência moderna é marcada pela fragmentação e pela perda da transmissão tradicional de sentido. Ribas, ao propor uma narrativa que interpela diretamente o leitor, busca recuperar essa dimensão de experiência compartilhada, transformando o ato de narrar em um gesto de transmissão e reflexão. Mais do que uma trama ficcional, *Turning Point* se destaca pela sua **dimensão performativa**: o texto funciona como espelho, provocando o leitor a se ver refletido e a se perguntar até que ponto mudaria sua própria história. Essa característica aproxima a obra de uma literatura de testemunho, mas com forte carga filosófica e ética. *Turning Point* deve ser compreendido como uma obra de fronteira, que transita entre literatura e filosofia prática. Sua relevância reside na capacidade de articular narrativa e reflexão, estética e ética, oferecendo ao leitor não apenas uma história, mas uma experiência de questionamento existencial. Ao propor esse diálogo, Maurício Ribas inscreve-se na tradição de autores que utilizam a literatura como espaço de transformação e de interrogação sobre o sentido da vida.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Safaris Humanos, crônica da Barbárie: Entre Sarajevo e Gaza

Sarajevo, início dos anos 1990. A cidade que antes pulsava com música, literatura e cafés que reuniam intelectuais, tornou-se o império do medo. O cerco durou quase quatro anos: ruas viraram corredores da morte, mercados se tornaram alvos, e cada travessia era uma roleta russa contra franco-atiradores escondidos nas colinas. Mais de onze mil pessoas morreram, muitas delas apenas tentando buscar água ou pão. Mas como se a guerra não bastasse, surgiu o espetáculo mais cruel: os chamados “safáris humanos”. Estrangeiros ricos pagavam pequenas fortunas para serem levados às colinas e, de lá, atirar em civis indefesos. Não havia ideologia, não havia causa política. Apenas o entretenimento macabro de transformar a dor em espetáculo. A vida, reduzida a alvo. Décadas depois, em Gaza, a cena se repetiu sob outra forma. Correspondentes estrangeiros relataram moradores de cidades israelenses próximas que subiam às colinas para assistir aos bombardeios, como quem assiste a um show. Cadeiras de praia, binóculos, lanches. A guerra convertida em evento público. E, em meio à fome, multidões de palestinos que buscavam alimentos foram recebidas com tiros, transformando a necessidade em sentença, num safari desumano permeado de crueldade. Em Sarajevo, diversão. Em Gaza, controle e intimidação e escárnio. Mas em ambos os casos, o mesmo efeito simbólico: a banalização da vida. A violência convertida em espetáculo, a dignidade humana caçada como um animal selvagem. Stefan Zweig dizia que os livros existem para nos defender da transitoriedade e do esquecimento. Diante da repetição destes acontecimentos, parece que o mundo escolheu esquecer. O “safári humano” e os tiros contra famintos são testemunhos de que a barbárie não é exceção: ela se repete, muda de cenário, mas mantém o mesmo roteiro. Não podemos permitir o esquecimento, nossas vozes precisam se fazer ouvidas. Não sem razão foi um escritor e jornalista italiano, Ezio Gavazzeni, quem denunciou a prática em Sarajevo. Hoje, tribunais investigam, jornalistas denunciam, e a memória tenta se recompor. Mas a pergunta permanece: o que fazemos da dor alheia? Transformamos em notícia, em espetáculo, em silêncio? Sarajevo e Gaza nos lembram que o reverso da existência não é apenas a morte, mas a indiferença.

O paradoxo que diz algo essencial sobre a condição humana

Há algo profundamente desconcertante na maneira como a história humana parece escolher seus protagonistas. Quando olhamos para trás, para ...