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sexta-feira, 15 de maio de 2026
Quando a Dor Ultrapassa a Linguagem
Há mais de dois anos acordo e durmo com o mesmo livro. Sob a Sombra das Oliveiras — Isaac e Ishmael deixou de ser apenas um romance há muito tempo. Tornou-se presença. Uma companhia silenciosa que atravessa meus dias, ocupa minhas manhãs, invade minhas noites e permanece comigo mesmo quando me afasto do computador.
Escrever um livro assim exige mais do que pesquisa. Exige permanência emocional. Há dias em que passo horas mergulhado em documentos históricos, fotografias antigas, relatos de guerra, depoimentos de sobreviventes, discursos políticos, mapas, cartas, imagens de vídeo, ruínas e memórias. Em outros, fico diante de uma única frase tentando encontrar o tom exato para narrar uma dor que nunca será completamente compreendida por quem não a viveu.
Hoje foi um desses dias. Mais um dia inteiro escrevendo. Mais um dia tentando atravessar, pela literatura, um dos conflitos mais dolorosos da história contemporânea. E justamente hoje, dia em que os palestinos lembram a Nakba — a catástrofe de 1948 que expulsou centenas de milhares de pessoas de suas casas e transformou o exílio em herança — li uma reportagem sobre crianças palestinas traumatizadas pela guerra que simplesmente pararam de falar. Mudas. Não por doença. Não por incapacidade física. Mas porque o horror, às vezes, ultrapassa a linguagem.
Fechei a tela do computador por alguns minutos. Fiquei olhando em silêncio para as páginas abertas do manuscrito. Pensei em quantas vezes, ao longo desses dois anos, tentei encontrar palavras para falar sobre aquilo que talvez exista justamente além delas. A Nakba. O exílio. O medo. As perdas. Os mortos. Os sobreviventes. Os que permaneceram. Os que partiram carregando apenas chaves, fotografias e lembranças. Mas também pensei em outra coisa: na necessidade quase desesperada que tenho de humanizar essa história. Não escrevo para defender governos. Não escrevo para justificar violências. Não escrevo para produzir propaganda. Escrevo porque acredito que a literatura ainda pode fazer algo raro: obrigar o leitor a olhar para o outro como ser humano.
Em Sob a Sombra das Oliveiras, tento mostrar israelenses e palestinos não como símbolos, slogans ou caricaturas ideológicas, mas como pessoas: pais, mães, filhos, professores, médicos, soldados, homens e mulheres atravessados pela História. Pessoas capazes de amar, sofrer, errar, odiar, resistir e também sonhar.
Talvez esse seja o verdadeiro desafio do romance: preservar humanidade justamente onde ela parece mais ameaçada. Hoje, enquanto escrevo mais uma vez da manhã até a noite, penso nessas crianças que perderam a voz antes mesmo de conhecer plenamente o mundo. E penso também no que a literatura pode fazer diante disso. Talvez muito pouco. Mas talvez esse pouco ainda importe. Talvez contar essas histórias com honestidade, dor e humanidade seja também uma forma de resistência contra o esquecimento. E talvez seja por isso que continuo voltando todos os dias para este livro. Tocando uma ferida. Ou a uma promessa.
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