"Bem-vindo ao espaço literário de Mauricio Ribas! Aqui, compartilho minha jornada como escritor, explorando histórias, reflexões e debates sobre leitura e escrita. Se você ama literatura e busca inspiração, este blog é o seu ponto de encontro!"
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terça-feira, 28 de julho de 2026
Quando a memória se transforma em destino
Poucos acontecimentos da história contemporânea marcaram tão profundamente uma sociedade quanto o Holocausto. O assassinato sistemático de aproximadamente seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial não terminou com a libertação dos campos de concentração em 1945. Seus efeitos ultrapassaram os sobreviventes e alcançaram seus filhos, netos e bisnetos. Hoje, a psicologia, a psiquiatria e os estudos da memória reconhecem esse fenômeno pelo nome de trauma transgeracional ou transmissão intergeracional do trauma.
Durante muitos anos acreditou-se que o trauma morresse com aqueles que o haviam experimentado. Entretanto, pesquisadores começaram a observar algo surpreendente entre os filhos dos sobreviventes do Holocausto. Eles jamais haviam conhecido Auschwitz, Treblinka ou Sobibor. Nunca haviam passado fome em um gueto, nem visto suas famílias serem deportadas. Ainda assim, muitos apresentavam medos semelhantes aos de seus pais: ansiedade constante, necessidade de controlar o ambiente, hipervigilância, dificuldade em confiar nas pessoas e um profundo sentimento de responsabilidade pela sobrevivência da própria família.
A pergunta inevitável surgiu: como alguém pode herdar uma dor que nunca viveu? A resposta revelou-se muito mais complexa do que se imaginava. O trauma raramente era transmitido por grandes discursos. Era comunicado nos pequenos gestos cotidianos. O pai que jamais desperdiçava um pedaço de pão. A mãe que comprava alimentos em quantidade muito maior do que a necessária por medo inconsciente de uma nova escassez. O avô que se sobressaltava ao ouvir uma sirene. A família inteira que vivia permanentemente preparada para uma tragédia que talvez nunca chegasse.
As crianças cresciam dentro desse universo emocional. Aprendiam, sem que ninguém lhes ensinasse explicitamente, que o mundo era um lugar profundamente inseguro. Herdavam não as lembranças do Holocausto, mas a maneira como o Holocausto continuava vivendo dentro daqueles que o haviam sobrevivido.
Curiosamente, o silêncio também transmitia memória. Muitos sobreviventes nunca conseguiram falar sobre o que haviam vivido. Não porque quisessem esquecer, mas porque algumas experiências pareciam impossíveis de serem colocadas em palavras. Ainda assim, os filhos percebiam que havia uma dor enorme ocupando todos os espaços da casa. Cresciam diante de fotografias de parentes que jamais conheceriam. Escutavam nomes pronunciados em voz baixa. Intuíam perguntas que ninguém tinha coragem de fazer.
A psicóloga israelense Dina Wardi descreveu muitos desses descendentes como verdadeiras "velas memoriais". Segundo ela, inúmeros filhos de sobreviventes passaram a viver como se carregassem uma missão: justificar a sobrevivência da família, manter viva a memória dos mortos e impedir que a tragédia voltasse a acontecer.
Esse sentimento de missão talvez seja uma das heranças mais profundas deixadas pelo Holocausto. A expressão "Nunca Mais" tornou-se parte da identidade coletiva de Israel. Para muitos, significava garantir que o povo judeu jamais voltaria a viver indefeso diante da possibilidade de um novo extermínio. Ao longo das décadas, essa memória passou a influenciar não apenas famílias, mas também a cultura política, a percepção de ameaças e as escolhas estratégicas do Estado israelense.
Entretanto, a própria sociedade israelense nunca foi unânime sobre o significado dessa herança. Há quem interprete o "Nunca Mais" como um compromisso absoluto com a autodefesa, mesmo diante das circunstâncias mais difíceis. Outros entendem que a maior homenagem possível às vítimas do Holocausto consiste justamente em impedir que qualquer povo seja desumanizado. Essas duas leituras convivem, dialogam e, por vezes, entram em profundo conflito dentro da própria sociedade israelense.
É exatamente nesse ponto que a literatura talvez consiga alcançar lugares onde os ensaios históricos e os estudos acadêmicos encontram seus limites. Os romances possuem a capacidade de transformar conceitos abstratos em experiências humanas. Em vez de explicar o trauma, permitem que o leitor o habite. Em vez de apresentar estatísticas, fazem-no acompanhar uma família ao longo de gerações, percebendo como medos, silêncios, afetos e escolhas atravessam o tempo.
Foi essa reflexão que orientou a construção de meu romance Sob as Sombras das Oliveiras – Isaac e Ishmael. A obra não procura apenas narrar acontecimentos históricos nem oferecer respostas fáceis para um dos conflitos mais complexos do nosso tempo. Seu propósito é investigar como duas grandes memórias traumáticas — o Holocausto e a Nakba palestina — continuam moldando identidades, medos, decisões e formas de enxergar o outro.
Ao longo da narrativa, os personagens descobrem que o trauma não determina um único destino. Duas pessoas podem herdar a mesma dor e responder a ela de maneiras completamente distintas. Uma poderá concluir que nunca mais permitirá que seu povo seja vítima. Outra poderá acreditar que a verdadeira homenagem aos mortos consiste em impedir que qualquer ser humano seja transformado em vítima. Essa diferença, aparentemente sutil, modifica completamente a maneira de compreender a história.
Talvez a grande pergunta do nosso tempo não seja apenas como recordar o passado, mas o que fazemos com a memória que recebemos. Toda geração herda as dores das que vieram antes. A questão decisiva é se utilizará essa herança para construir novos muros ou novas pontes. É justamente aí que a literatura encontra sua função mais profunda. Não a de decidir quem está certo ou errado, nem a de substituir a História, mas a de devolver rosto, voz e humanidade àqueles que tantas vezes são reduzidos a estatísticas, slogans ou bandeiras.
Porque, no fim, nenhuma memória deveria aprisionar as gerações futuras. A lembrança dos que sofreram só encontra seu sentido mais pleno quando deixa de alimentar o medo e passa a inspirar a coragem de impedir que o sofrimento se repita, seja qual for o povo, a religião ou a terra onde ele aconteça.
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sexta-feira, 10 de julho de 2026
Sob a sombra das oliveiras - Romance em acabamento - Por que devemos ler?
"Sob as Sombras das Oliveiras não é um romance sobre quem tem razão no conflito entre israelenses e palestinos. É um romance sobre o preço humano de acreditar que apenas um dos lados pode possuir toda a razão.
A história acompanha duas famílias ao longo de quase um século. Através delas, o leitor atravessa o Holocausto, a criação do Estado de Israel, a Nakba, as guerras, os acordos de paz, as intifadas e chega até os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e seus desdobramentos. Mas esses eventos nunca aparecem como capítulos de um livro de História. Eles são vividos por pessoas concretas: um avô que sobrevive ao antissemitismo europeu, um jovem que participa de Deir Yassin e passa o resto da vida tentando reconciliar-se com a própria consciência, um professor palestino que acredita na educação como forma de resistência, médicos que salvam vidas sem perguntar de que lado está o paciente e uma nova geração que herda memórias que não escolheu carregar.
O que mais chama a atenção é que o romance recusa a caricatura. Os personagens não existem para defender uma tese. Eles mudam de ideia, erram, sofrem, contradizem-se e amadurecem. Talvez por isso o livro provoque desconforto em leitores de posições políticas opostas: ele exige que se reconheça a humanidade de quem está do outro lado.
Também impressiona a arquitetura da obra. Ela cobre muitas décadas sem perder de vista as pequenas cenas da vida cotidiana: uma mesa de jantar, um hospital, uma carta, um casamento, uma criança que nasce, uma oliveira que atravessa gerações. Aos poucos, o leitor percebe que o verdadeiro protagonista talvez seja a própria memória e a pergunta que atravessa todo o romance: o que devemos preservar para que a verdade não desapareça com aqueles que a viveram?
Não é um livro de respostas fáceis. É um romance que convida o leitor a habitar um conflito complexo sem reduzir ninguém a um rótulo. E talvez seu maior mérito seja justamente este: lembrar que a literatura pode fazer aquilo que a política raramente consegue — devolver rosto, voz e história às pessoas antes de transformá-las em inimigos."
O romance dialoga claramente com Amós Oz, David Grossman e Ghassan Kanafani, mas procura construir uma voz própria. Enquanto Oz parte da memória autobiográfica e Grossman explora as marcas do trauma, Maurício Ribas aposta na ideia do testemunho. Cartas, diários, relatos e memórias atravessam a narrativa porque o livro sustenta uma convicção: a História pode ser escrita pelos vencedores, mas é a literatura que impede que a verdade desapareça com os vencidos.
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sábado, 4 de julho de 2026
O tempo não trai a verdade
Costuma-se repetir que a história é escrita pelos vencedores. A frase carrega uma parte importante da realidade. Afinal, são eles que normalmente erguem monumentos, ocupam os governos, controlam arquivos, escrevem relatórios e, muitas vezes, determinam aquilo que as primeiras gerações aprenderão sobre um conflito. Durante algum tempo, a versão dos vencedores costuma parecer definitiva. É o que chamamos de narrativa.
O tempo possui uma qualidade curiosa. Ele não apaga apenas as lembranças; também desgasta as versões convenientes. À medida que os anos passam, documentos esquecidos reaparecem, arquivos são abertos, cartas são encontradas no fundo de uma gaveta, diários sobrevivem aos seus autores, romances continuam sendo lidos e testemunhos voltam a falar quando aqueles que os escreveram já não estão mais aqui. A propaganda envelhece. A verdade, ao contrário, costuma amadurecer.
Hannah Arendt acreditava que os fatos possuem uma resistência extraordinária. Eles podem ser ocultados, manipulados e até negados, mas continuam existindo. A mentira exige vigilância permanente para sobreviver; a verdade necessita apenas de alguém disposto a preservá-la.
Paul Ricoeur lembrava que a história nunca é uma construção acabada. Ela é constantemente reconstruída pelo encontro entre memória, documentos e testemunhos. Primo Levi escreveu porque sabia que talvez não sobrevivesse por muito tempo, mas também sabia que suas palavras poderiam sobreviver por ele. Soljenítsin compreendeu que um regime pode controlar jornais, rádios e tribunais, mas jamais conseguirá controlar indefinidamente a literatura.
Talvez seja essa a maior missão dos escritores: oferecer ao tempo aquilo que ele precisará para julgar com justiça. Um romance, uma carta, um diário ou um poema podem parecer frágeis diante da força dos exércitos e dos governos. No entanto, não raras vezes são eles que permanecem quando impérios já desapareceram e bandeiras foram substituídas.
É por isso que acredito que testemunhar seja um dever moral. Não porque o testemunho mude imediatamente o mundo, mas porque ele impede que o mundo esqueça. A memória talvez não ressuscite os mortos nem desfaça as injustiças, mas preserva aquilo que o poder quase sempre tenta apagar: a dignidade das pessoas comuns e a verdade de suas vidas. A história continuará sendo escrita pelos vencedores. Mas o tempo continuará fiel à verdade.
#literaturabrasileira #escritormauricioribas #sobassombrasdasoliveiras
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