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sábado, 4 de julho de 2026

O tempo não trai a verdade

Costuma-se repetir que a história é escrita pelos vencedores. A frase carrega uma parte importante da realidade. Afinal, são eles que normalmente erguem monumentos, ocupam os governos, controlam arquivos, escrevem relatórios e, muitas vezes, determinam aquilo que as primeiras gerações aprenderão sobre um conflito. Durante algum tempo, a versão dos vencedores costuma parecer definitiva. É o que chamamos de narrativa. O tempo possui uma qualidade curiosa. Ele não apaga apenas as lembranças; também desgasta as versões convenientes. À medida que os anos passam, documentos esquecidos reaparecem, arquivos são abertos, cartas são encontradas no fundo de uma gaveta, diários sobrevivem aos seus autores, romances continuam sendo lidos e testemunhos voltam a falar quando aqueles que os escreveram já não estão mais aqui. A propaganda envelhece. A verdade, ao contrário, costuma amadurecer. Hannah Arendt acreditava que os fatos possuem uma resistência extraordinária. Eles podem ser ocultados, manipulados e até negados, mas continuam existindo. A mentira exige vigilância permanente para sobreviver; a verdade necessita apenas de alguém disposto a preservá-la. Paul Ricoeur lembrava que a história nunca é uma construção acabada. Ela é constantemente reconstruída pelo encontro entre memória, documentos e testemunhos. Primo Levi escreveu porque sabia que talvez não sobrevivesse por muito tempo, mas também sabia que suas palavras poderiam sobreviver por ele. Soljenítsin compreendeu que um regime pode controlar jornais, rádios e tribunais, mas jamais conseguirá controlar indefinidamente a literatura. Talvez seja essa a maior missão dos escritores: oferecer ao tempo aquilo que ele precisará para julgar com justiça. Um romance, uma carta, um diário ou um poema podem parecer frágeis diante da força dos exércitos e dos governos. No entanto, não raras vezes são eles que permanecem quando impérios já desapareceram e bandeiras foram substituídas. É por isso que acredito que testemunhar seja um dever moral. Não porque o testemunho mude imediatamente o mundo, mas porque ele impede que o mundo esqueça. A memória talvez não ressuscite os mortos nem desfaça as injustiças, mas preserva aquilo que o poder quase sempre tenta apagar: a dignidade das pessoas comuns e a verdade de suas vidas. A história continuará sendo escrita pelos vencedores. Mas o tempo continuará fiel à verdade. #literaturabrasileira #escritormauricioribas #sobassombrasdasoliveiras

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