"Bem-vindo ao espaço literário de Mauricio Ribas! Aqui, compartilho minha jornada como escritor, explorando histórias, reflexões e debates sobre leitura e escrita. Se você ama literatura e busca inspiração, este blog é o seu ponto de encontro!"
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Crônica – O Pinguim que Partiu para as Montanhas
Há imagens que não pertencem apenas ao mundo natural, mas ao reino da poesia. Uma delas é a do pinguim que, em meio ao seu bando, decide romper o destino coletivo e partir sozinho, em direção às montanhas geladas, onde não há alimento, nem colônia, nem sobrevivência.
Esse gesto, aparentemente insano, tornou-se metáfora. O pinguim que se afasta é o ser humano que ousa quebrar o círculo da repetição, que se recusa a seguir o caminho seguro, que escolhe a solidão como forma de liberdade. É loucura, dizem alguns. É resistência, dizem outros. É busca espiritual, afirmam os que enxergam além da lógica.
Naquele caminhar trôpego, há uma poesia silenciosa: o animal que se torna símbolo da alma inquieta, que não se contenta com o abrigo da multidão. Ele parte, mesmo sabendo que a morte o espera, como quem busca um sentido maior do que a sobrevivência.
A cena nos fere porque revela nossa própria condição. Quantos de nós já sentimos o impulso de abandonar o bando, de seguir um caminho incompreensível, de buscar montanhas interiores onde talvez não haja nada além de silêncio? O pinguim é o espelho da liberdade radical, da loucura que nos habita, da resistência contra o destino imposto.
E talvez seja também um ato espiritual. Porque há quem veja, nesse caminhar solitário, uma prece. Uma entrega ao mistério. Uma recusa em aceitar que a vida se resume a comer, reproduzir, sobreviver. O pinguim que parte é o monge que se retira, é o poeta ou escritor que se isola, é o visionário que escolhe o deserto.
Para a humanidade, essa imagem é um chamado. Um lembrete de que dentro de nós existe sempre a possibilidade de romper o bando, de buscar o impossível, de caminhar para montanhas que não prometem nada além de silêncio e transcendência.
O pinguim que parte sozinho não é apenas um animal perdido. É um ato poético. É a metáfora viva da liberdade, da loucura, da resistência e da busca espiritual. É um canto trágico e sublime de rebelião.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
CAMUS ARENDT E BEAUVOIR - O DIREITO DE EXISTIR E A PENA DE MORTE
Arendt, Beauvoir e Camus partem de um mesmo solo histórico, o trauma do nazismo, da ocupação e do genocídio, mas constroem respostas distintas diante da pergunta mais dura do pós-guerra: como julgar o crime absoluto sem nos tornarmos cúmplices de outra violência absoluta?
Hannah Arendt, ao analisar o caso Eichmann, desloca o debate da psicologia do criminoso para o campo político. Eichmann não é um demônio excepcional, mas um homem comum que abdicou do pensamento. Essa “banalidade do mal” não o absolve; ao contrário, o condena. Para Arendt, Eichmann deve morrer não por vingança nem por exemplaridade moral, mas porque rompeu o fundamento da convivência humana. Ele participou de um sistema que negou a milhões o direito de existir no mundo comum. A pena de morte, nesse sentido, não é catarse, mas um reconhecimento jurídico de que há crimes que expulsam o sujeito da comunidade política dos vivos.
Simone de Beauvoir chega a uma conclusão semelhante por outro caminho. No caso de Robert Brasillach, ela insiste na responsabilidade existencial. Para Beauvoir, a liberdade humana é inseparável de suas consequências históricas. O intelectual não escreve no vazio: a palavra é ação. Brasillach, ao colaborar ideologicamente com o nazismo, escolheu o ódio e a exclusão; escolheu, portanto, as mortes que ajudou a legitimar. Beauvoir aceita a execução não com frieza jurídica, mas com consciência trágica: trata-se de uma decisão amarga, quase um fracasso moral coletivo, porém inevitável diante da gravidade do crime. A pena de morte não é celebrada; é suportada.
Albert Camus, por sua vez, rompe com ambas. Também marcado pela resistência e pela violência do século, ele recusa a pena capital em qualquer circunstância. Para Camus, o assassinato cometido pelo Estado, mesmo contra um assassino, destrói a possibilidade de uma justiça verdadeiramente humana. Em Reflexões sobre a guilhotina, ele afirma que a pena de morte não repara o mal cometido; apenas o prolonga sob outra forma. Onde Arendt vê a necessidade de afirmar um limite político, e Beauvoir aceita a punição como tragédia inevitável, Camus enxerga uma contradição insuperável: matar em nome da vida é negar o próprio valor que se pretende defender.
O diálogo entre os três não é uma disputa simples entre “a favor” e “contra”. Arendt pensa o crime a partir do mundo comum e da política; Beauvoir, a partir da liberdade e da responsabilidade individual; Camus, a partir da dignidade humana levada até suas últimas consequências. Os três concordam em algo essencial: não há inocência possível diante da barbárie. Divergem, porém, na resposta final. Arendt e Beauvoir admitem que certos crimes colocam a humanidade diante de decisões-limite. Camus se recusa a atravessar esse limite.
Esse desacordo não enfraquece o debate, ao contrário, o torna mais humano. Ele revela que, após Auschwitz, qualquer reflexão sobre justiça carrega uma ferida aberta: como punir o mal sem reproduzi-lo? Cada um oferece uma resposta distinta, e nenhuma é confortável. Talvez seja justamente aí que reside a força desse diálogo.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Crônica – As amizades perigosas - Bandido bom é bandido amigo
Há amizades que dizem mais do que discursos. Donald Trump, com seu sorriso calculado e seus gestos de proximidade, sempre soube escolher bem os companheiros de palco. Entre eles, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu — nomes que carregam não apenas poder, mas também acusações pesadas de crimes de guerra, com mandados de prisão expedidos pelo Tribunal Penal Internacional.
É curioso observar como esses laços se entrelaçam. Putin, com sua guerra que devora vidas na Ucrânia; Netanyahu, com a necropolítica que bombardeia, sufoca e expande assentamentos; ambos, figuras que transformaram a violência em instrumento de governo. E Trump, ao lado deles, como quem legitima, pela amizade, a brutalidade travestida de estratégia.
Do outro lado, surge Nicolás Maduro. Ditador, sim, e não há como negar. Mas sua sombra, por mais longa que seja, não alcança as dimensões das mortes provocadas por Putin e Netanyahu. Maduro é lembrado pela repressão, pela fome que corrói a Venezuela, mas ainda assim sua figura não se distancia tanto dos outros dois — apenas se mede em escala.
O contraste é revelador: Trump se aproxima dos que carregam o peso de genocídios e guerras, enquanto o mundo se ocupa em capturar Maduro.O pior é que tem gente que comemora a morte anunciada do Direito Internacional. A pergunta que fica é: por que alguns ditadores são tratados como monstros absolutos, enquanto outros, com crimes ainda maiores, são recebidos como aliados estratégicos?
Na política internacional, a justiça parece ter olhos seletivos. E é nesse jogo de conveniências que se revela a verdadeira crônica do nosso tempo: a paz é sempre adiada, a violência sempre justificada, e os amigos de Trump continuam a escrever, com sangue, as páginas mais sombrias da história contemporânea.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
A Hipocrisia da Mídia: Entre o Incêndio na Suíça e os Bombardeios em Gaza
O início do ano novo foi marcado por uma tragédia na Suíça: jovens morreram em um incêndio em um bar de uma pequena cidade, que tem uma famosa estação de esqui. A mídia internacional não tardou em cobrir cada detalhe, especular sobre as causas e exibir apresentadores visivelmente consternados e profundamente sensibilizados diante das câmeras. A comoção foi imediata, os discursos de pesar se multiplicaram e a narrativa ganhou espaço privilegiado nos noticiários.
No entanto, essa mesma mídia parece incapaz de demonstrar igual consternação diante da realidade brutal que se desenrola em Gaza. Há mais de dois anos, milhares de pessoas — homens, mulheres e crianças — têm sido mortas em bombardeios diários, despedaçadas ou carbonizadas por armas israelenses com apoio explícito dos Estados Unidos. A repetição da violência, a impunidade e o silêncio cúmplice transformaram o massacre em rotina invisível.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando um líder, como Benjamin Netanyahu, aparece em um evento social, tranquilamente assistindo a queimas de fogos na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago, localizada em Palm Beach, mesmo com mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra cometidos. A normalização dessa presença contrasta com a cobertura sensacionalista de tragédias europeias, revelando um padrão seletivo de indignação.
O que se expõe, portanto, é uma hipocrisia estrutural: vidas europeias, brancas e ricas são tratadas como preciosas e dignas de luto coletivo, enquanto vidas palestinas, pobres e de pele escura são relegadas ao esquecimento. A mídia, ao reproduzir esse desequilíbrio, reforça uma hierarquia implícita de quem merece compaixão e quem pode ser descartado.
Não se trata de negar a dor das famílias suíças, mas de denunciar a falsa universalidade da solidariedade midiática. O mundo chora quando a tragédia atinge os privilegiados, mas permanece indiferente quando a barbárie se repete contra os despossuídos. Essa seletividade revela que, no fundo, não é a humanidade que importa, mas o lugar social e racial de quem sofre. A inescrupulosa mídia em verdade não se importa com nada, apenas em faturar bilhões e fazer o jogo do sistema.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Resenha Crítica do livro Turning Point - Até que ponto você mudaria a sua história?
Maurício Ribas, em *Turning Point*, constrói uma obra que se inscreve na tradição da literatura contemporânea de caráter híbrido, situada entre o romance introspectivo e o texto motivacional. A narrativa não se limita a contar uma história, mas se propõe como experiência de leitura que interpela diretamente o leitor, convidando-o a refletir sobre os momentos decisivos de sua própria trajetória.
A obra apresenta uma **estrutura fragmentada**, alternando episódios narrativos com reflexões filosóficas. Essa forma não-linear funciona como metáfora da própria experiência humana, marcada por rupturas e recomeços. O estilo de Ribas é **confessional e oralizado**, criando proximidade com o leitor. A cadência discursiva aproxima-se da conversação, mas é permeada por imagens poéticas — o tempo como rio, o passado como sombra, o futuro como horizonte.
O livro problematiza a relação entre **escolha e destino**, **arrependimento e reconstrução**, propondo que cada “turning point” é uma oportunidade de reescrever a própria história. Nesse sentido, Ribas dialoga com tradições literárias que exploram memória e subjetividade.
Aqui podemos evocar **Paul Ricoeur**, em *A memória, a história, o esquecimento*, ao afirmar que a memória é sempre seletiva e interpretativa. Ribas parece consciente dessa dimensão: ao narrar pontos de virada, mostra que não se trata de fatos objetivos, mas de reconstruções subjetivas que moldam a identidade.
Do mesmo modo, é possível relacionar a obra com **Walter Benjamin**, em seu ensaio *O narrador*. Benjamin observa que a experiência moderna é marcada pela fragmentação e pela perda da transmissão tradicional de sentido. Ribas, ao propor uma narrativa que interpela diretamente o leitor, busca recuperar essa dimensão de experiência compartilhada, transformando o ato de narrar em um gesto de transmissão e reflexão.
Mais do que uma trama ficcional, *Turning Point* se destaca pela sua **dimensão performativa**: o texto funciona como espelho, provocando o leitor a se ver refletido e a se perguntar até que ponto mudaria sua própria história. Essa característica aproxima a obra de uma literatura de testemunho, mas com forte carga filosófica e ética.
*Turning Point* deve ser compreendido como uma obra de fronteira, que transita entre literatura e filosofia prática. Sua relevância reside na capacidade de articular narrativa e reflexão, estética e ética, oferecendo ao leitor não apenas uma história, mas uma experiência de questionamento existencial. Ao propor esse diálogo, Maurício Ribas inscreve-se na tradição de autores que utilizam a literatura como espaço de transformação e de interrogação sobre o sentido da vida.
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Safaris Humanos, crônica da Barbárie: Entre Sarajevo e Gaza
Sarajevo, início dos anos 1990. A cidade que antes pulsava com música, literatura e cafés que reuniam intelectuais, tornou-se o império do medo. O cerco durou quase quatro anos: ruas viraram corredores da morte, mercados se tornaram alvos, e cada travessia era uma roleta russa contra franco-atiradores escondidos nas colinas. Mais de onze mil pessoas morreram, muitas delas apenas tentando buscar água ou pão.
Mas como se a guerra não bastasse, surgiu o espetáculo mais cruel: os chamados “safáris humanos”. Estrangeiros ricos pagavam pequenas fortunas para serem levados às colinas e, de lá, atirar em civis indefesos. Não havia ideologia, não havia causa política. Apenas o entretenimento macabro de transformar a dor em espetáculo. A vida, reduzida a alvo.
Décadas depois, em Gaza, a cena se repetiu sob outra forma. Correspondentes estrangeiros relataram moradores de cidades israelenses próximas que subiam às colinas para assistir aos bombardeios, como quem assiste a um show. Cadeiras de praia, binóculos, lanches. A guerra convertida em evento público. E, em meio à fome, multidões de palestinos que buscavam alimentos foram recebidas com tiros, transformando a necessidade em sentença, num safari desumano permeado de crueldade.
Em Sarajevo, diversão. Em Gaza, controle e intimidação e escárnio. Mas em ambos os casos, o mesmo efeito simbólico: a banalização da vida. A violência convertida em espetáculo, a dignidade humana caçada como um animal selvagem.
Stefan Zweig dizia que os livros existem para nos defender da transitoriedade e do esquecimento. Diante da repetição destes acontecimentos, parece que o mundo escolheu esquecer. O “safári humano” e os tiros contra famintos são testemunhos de que a barbárie não é exceção: ela se repete, muda de cenário, mas mantém o mesmo roteiro. Não podemos permitir o esquecimento, nossas vozes precisam se fazer ouvidas. Não sem razão foi um escritor e jornalista italiano, Ezio Gavazzeni, quem denunciou a prática em Sarajevo.
Hoje, tribunais investigam, jornalistas denunciam, e a memória tenta se recompor. Mas a pergunta permanece: o que fazemos da dor alheia? Transformamos em notícia, em espetáculo, em silêncio? Sarajevo e Gaza nos lembram que o reverso da existência não é apenas a morte, mas a indiferença.
Stefan Zweig: O Último Humanista da Europa Perdida
“Os livros são escritos unicamente para, acima de tudo, unir os seres humanos e, assim, nos defender do inexorável lado oposto de toda a existência: a transitoriedade e o esquecimento.” Essa frase de Stefan Zweig traz embutida uma verdade provocadora. Quem foi esse escritor e qual o seu legado?
Transitoriedade é a ideia de que tudo o que existe está sujeito ao tempo, à mudança e ao fim. Nada permanece eternamente igual. Heráclito (pré-socrático), afirmava: “Tudo flui” (panta rhei). A transitoriedade é a essência da realidade: nada é fixo, tudo está em constante transformação. Já Heidegger pontuava que: o ser humano é um “ser-para-a-morte”. A consciência da transitoriedade dá autenticidade à vida, pois nos lembra que cada instante é único.
Já o esquecimento é a perda da memória, o apagamento daquilo que foi vivido ou pensado. Nietzsche: fala do “esquecimento ativo” como algo necessário para viver, pois sem esquecer não poderíamos suportar o peso do passado. Mas também alerta para o perigo do esquecimento histórico, que apaga lições fundamentais.
Destarte, Zweig nos afirma que os livros, a literatura, nos unem enquanto seres humanos e por isso nos defendem da transitoriedade e do esquecimento. Elementos esses que são o lado oposto de toda a existência.
Em sua obra autobiográfica “O Mundo de Ontem”, escrita pouco antes da morte, Stefan Zweig descreveu a Viena de sua juventude como um lugar de esplendor cultural, onde a música, a literatura e a ciência conviviam em harmonia. Era, segundo ele, uma época em que se acreditava no progresso contínuo e na paz duradoura. Mas esse mundo, que parecia eterno, desmoronou diante da barbárie das guerras e da ascensão do nazismo.
“Nunca antes a geração jovem acreditou tão firmemente na continuidade e na indestrutibilidade daquilo que lhe era dado.” (O Mundo de Ontem)
Essa frase revela a nostalgia de Zweig por uma Europa que se perdeu, um continente que trocou a confiança no futuro pela violência e pelo ódio.
Nascido em Viena em 1881, Zweig foi um escritor cosmopolita, traduzido em dezenas de línguas e lido em todo o mundo. Mas sua trajetória foi marcada pelo exílio: Londres, Nova Iorque e, finalmente, o Brasil. Em Petrópolis, escreveu “Brasil, País do Futuro”, obra que expressava sua esperança em um novo horizonte cultural. Ainda assim, o peso da guerra e da destruição da Europa o mergulhou em um estado de desesperança.
Em 1942, junto de sua esposa Lotte Altmann, decidiu pôr fim à própria vida. Sua carta de despedida falava de gratidão ao Brasil, mas também de uma dor irreparável diante da ruína de sua pátria espiritual.
Zweig via os livros como fragmentos do infinito, pequenos pedaços de uma totalidade maior. Para ele, a literatura era ponte entre povos, guardiã da memória e resistência contra a barbárie. Suas novelas psicológicas — “Carta de uma desconhecida”, “Amok”, “Novela de xadrez” — revelam a fragilidade humana diante da paixão, da solidão e da obsessão. Suas biografias — “Maria Antonieta”, “Maria Stuart”, “Erasmo de Rotterdam” — são retratos que unem rigor histórico e sensibilidade literária.
Mais do que narrativas, seus textos são testemunhos de uma época em que a cultura parecia capaz de salvar o mundo.
Stefan Zweig permanece como símbolo de um humanismo cosmopolita. Sua obra nos lembra que a cultura é frágil, mas também essencial para a sobrevivência da humanidade. Ele foi, em muitos sentidos, o cronista da perda: da Europa que acreditava no progresso, da confiança no futuro, da paz que se desfez.
“Cada sombra é, em última análise, filha da luz.” (O Mundo de Ontem)
Essa frase resume sua visão: mesmo diante da escuridão, a memória da luz permanece. Zweig nos deixou não apenas livros, mas um testemunho pungente de que a literatura pode ser refúgio, resistência e esperança.
Stefan Zweig foi mais do que um escritor: foi um intérprete da alma humana em tempos de crise. Sua vida e obra nos lembram que o “inexorável reverso da existência” — a morte, a perda, o fim — só ganha sentido quando contraposto à beleza da cultura e ao poder da memória.
Ao dizer que os livros nos defendem da transitoriedade e do esquecimento, Zweig aponta para o papel da escrita como memória coletiva: aquilo que resiste ao tempo, preserva experiências e impede que vidas e ideias desapareçam no silêncio da história.
Em resumo, Zweig enxerga a literatura como um ato de resistência contra o esquecimento, uma forma de eternizar o humano diante da finitude inevitável.
domingo, 26 de outubro de 2025
Foi divulgado na imprensa: Maurício Ribas e a virada silenciosa: de heróis em guerra à batalha interior
Por muito tempo, Maurício Ribas foi reconhecido como um autor que dominava o terreno da ficção histórica e da literatura de guerra. Em *Glória aos Heróis*, seu romance mais conhecido, ele constrói uma narrativa tensa e visceral, ambientada no conflito ucraniano, onde o protagonista André Katyuk Richter enfrenta dilemas éticos em meio ao caos bélico. A obra é marcada por ritmo acelerado, linguagem direta e uma atmosfera de urgência — tudo que se espera de um romance de trincheira.
Mas com *Turning Point: Até que ponto você mudaria a sua história?*, Ribas realiza uma virada literária que surpreende e revela uma nova camada de sua voz autoral. O cenário agora não é um campo de batalha, mas a memória. O inimigo não é externo, mas o tempo. E o conflito não se dá entre nações, mas entre versões de si mesmo.
## Do épico ao íntimo
A transição entre os dois livros é mais do que temática — é estrutural. *Turning Point* abandona o épico para abraçar o íntimo. O protagonista não busca glória, mas redenção. Ele revisita momentos decisivos da vida, confronta escolhas mal feitas e se pergunta, como o título sugere, até que ponto seria possível reescrever sua história.
Essa mudança de eixo narrativo — do mundo externo para o mundo interno — revela um autor que se permite explorar novas camadas da experiência humana. Ribas troca o uniforme militar pela roupa civil da alma, e convida o leitor a fazer o mesmo.
## Estilo narrativo: da ação à contemplação
Em *Glória aos Heróis*, a linguagem é técnica, objetiva, quase jornalística. Já em *Turning Point*, a prosa se torna lírica, reflexiva, com pausas que permitem ao leitor respirar junto com o personagem. O tempo narrativo se dilata, e o silêncio entre as palavras ganha protagonismo.
Essa mudança aproxima Ribas de autores como Julian Barnes ou Milton Hatoum, que trabalham com a memória como matéria-prima da ficção. A guerra agora é emocional, e o campo minado é o passado.
## Temas: da coragem física à coragem emocional
Enquanto o romance anterior trata da coragem em campo — enfrentar o inimigo, proteger aliados, sobreviver — *Turning Point* aborda a coragem de revisitar o passado, de encarar arrependimentos, de aceitar que nem tudo pode ser consertado. É uma obra sobre tempo, escolhas e identidade — temas universais que transcendem fronteiras e contextos.
## Construção do protagonista
A evolução do protagonista entre os dois livros é notável. André, antes um homem em conflito com o mundo, torna-se um homem em conflito consigo mesmo. A complexidade psicológica se aprofunda, e o personagem se torna mais humano, mais falível — e, por isso, mais próximo do leitor.
## Conclusão: maturidade literária
A virada de Maurício Ribas não representa uma ruptura, mas uma evolução. Ele mostra que é capaz de transitar entre gêneros, estilos e atmosferas sem perder sua identidade literária. *Turning Point* é uma obra que marca não apenas um ponto de inflexão na vida do personagem, mas também na trajetória do autor.
Ao trocar o barulho das armas pelo sussurro da memória, Ribas nos lembra que há batalhas que não deixam cicatrizes visíveis — mas que moldam quem somos de forma ainda mais profunda.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
"Se eu não reinar, já sei quem reinará"
"Se eu não reinar, já sei quem reinará."
Essa frase teria sido dita em resposta às ameaças de senhores de escravos que, indignados com a iminente abolição da escravidão, avisaram que a Princesa Isabel perderia o trono se assinasse a Lei Áurea. A frase sugere que ela estava disposta a sacrificar seu futuro político em nome da liberdade dos escravizados.
A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888, abolindo oficialmente a escravidão no Brasil. Longe de ser um beneplácito, foi a pá de cal lançada sobre a escravidão, a libertação foi fruto de uma imensa luta de grandes e valorosos brasileiros. Isabel era a regente do Império na ausência de seu pai, Dom Pedro II. A pressão dos abolicionistas, da opinião pública e das revoltas de escravizados tornava a abolição inevitável. Muitos senhores de escravos ficaram revoltados, pois não houve indenização — e isso contribuiu para o fim da monarquia no ano seguinte, em 1889.
A frase “Se eu não reinar, já sei quem reinará”, atribuída a Isabel, é geralmente entendida como uma expressão de fé — sugerindo que, mesmo que ela perdesse o trono por abolir a escravidão, Deus reinaria, ou que a justiça prevaleceria. No entanto, entendo que a monarca quis dizer algo diferente.
Isabel talvez estivesse reconhecendo que, caso ela não governasse, as elites brasileiras — especialmente os senhores de escravos — continuariam a dominar o país. Essa leitura é bastante plausível, especialmente se considerarmos que a monarquia estava enfraquecida e isolada politicamente; que a abolição da escravidão sem indenização gerou forte oposição das elites agrárias; e que o golpe republicano de 1889 foi liderado por setores militares e civis ligados a essas elites.
Ao assinar a Lei Áurea, Isabel pode ter percebido que estava rompendo com os interesses dominantes, e que isso teria consequências políticas. Nesse sentido, a frase externava uma crítica velada: se ela não reinasse, os mesmos que exploravam os escravizados continuariam a reinar, sob outra forma de governo opressor.
Infelizmente — ou desgraçadamente — as elites dominantes no Brasil de hoje são frequentemente criticadas por manterem privilégios históricos e resistirem a reformas estruturais que promovam maior equidade social. Elas influenciam fortemente o sistema político, econômico e midiático, muitas vezes em benefício próprio. Persistem na concentração de renda, terra e poder, enquanto grande parte da população enfrenta desigualdade e precarização. Seu discurso tende a valorizar o mérito individual, ignorando barreiras sistêmicas. Essa elite também é vista como pouco comprometida com a justiça social e ambiental.
Isabel vaticinou. Ela estava mais do que certa.
MAURICIO RIBAS
terça-feira, 14 de outubro de 2025
Camus o papel das gerações e o artista
Albert Camus afirmou que “cada geração, sem dúvida, sente-se chamada a refazer o mundo”. Isso reflete uma visão sobre o impulso humano de buscar mudanças, progresso e renovação social. No entanto, ele reconhece que sua própria geração percebe que não conseguirá “refazer o mundo”, mas que sua tarefa pode ser ainda maior: impedir que o mundo se destrua. Pelo jeito a minha geração, melhor dizendo a nossa, está imbuída do mesmo “travail”, cada vez mais urgente e necessário.
Camus estava falando de um contexto histórico marcado por guerras, crises e desilusão, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. Ele sugere que, diante da impossibilidade de criar um mundo totalmente novo, o papel fundamental é preservar o que existe, evitar a destruição e proteger valores essenciais. Essa ideia é profundamente ética: não é apenas sobre criar, mas sobre responsabilidade diante do risco de destruição. Em meu livro “Questões Polêmicas – Relações Internacionais”, editora Viseu, eu abordo a imperiosa tarefa de proteger nosso planeta.
Camus diz que “o dever do artista não é servir-se da história, mas servi-la com verdade e liberdade”. O artista, para Camus, não deve usar a história apenas como ferramenta para seus próprios fins ou para manipulação ideológica. O verdadeiro compromisso do artista é com a verdade e a liberdade: ele deve ser honesto em sua expressão e livre de amarras políticas ou sociais que distorçam sua arte. Isso implica uma postura ética e autônoma, em que o artista contribui para a compreensão e preservação da história, sem se submeter a interesses externos.
Essas ideias permanecem intensamente atuais. Em tempos marcados por crise ambiental, polarização política e ameaças à liberdade de expressão, a mensagem de Albert Camus sobre responsabilidade coletiva e integridade artística ressoa como um chamado urgente à ação consciente e ética. Como escrevo em meu livro supracitado:
“Precisamos preencher nossas fissuras — as fissuras do nosso planeta — antes que seja tarde, colando nossos pedaços sem ignorar as causas e consequências de tudo o que fizemos, reparando, assim, nossos equívocos e nossas mazelas.” É justamente por meio da fragilidade e das rachaduras que a graça de Deus pode brilhar. A verdade não se impõe pela força, mas se revela nas brechas — e é nelas que mora a possibilidade de redenção.
#albertcamus
#mauricioribaswriter
#literaturabrasileira
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domingo, 12 de outubro de 2025
Se eu me calar as pedras falarão
Jesus, filho de Maria, entrou em Jerusalém montado em um jumentinho, em um episódio conhecido como a Entrada Triunfal. Multidões de discípulos o saudavam com alegria, proclamando: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor!”. Incomodados com essa aclamação pública, alguns fariseus pediram que Jesus repreendesse seus seguidores. Ele então respondeu com uma frase poderosa: a verdade e a glória de Deus não podem ser silenciadas; se os homens se calarem, até as pedras clamarão.
As pedras, aqui, simbolizam a própria natureza como testemunha da ação divina. Jesus sugere que a revelação não depende da aprovação humana — ela é inevitável. Essa resposta desafia qualquer tentativa de suprimir a expressão da fé, mostrando que a verdade transcende o controle religioso ou político.
Estou escrevendo um livro, provavelmente intitulado “Isaac e Ishmael”, um romance histórico que narra a saga de palestinos e judeus nos últimos 108 anos. Meu objetivo é expor ao mundo a verdade, ainda que sob o véu da ficção, como dizia Eça de Queiroz. É importante destacar: a verdade transcende o controle político. Essa convicção nos fortalece, pois, se nos calarmos, as pedras falarão.
Na Palestina ocupada, as pedras não são apenas objetos; são vestígios de casas demolidas, ruínas de aldeias apagadas, túmulos sem nome. Elas guardam a memória dos que foram expulsos, dos que morreram, dos que resistem em silêncio. Assim como na fala de Jesus, as pedras em minha narrativa são metáforas da verdade que insiste em emergir, mesmo quando tentam silenciá-la.
Isaac e Ishmael, na obra, simbolizam linhagens entrelaçadas — dois povos que, apesar da dor, compartilham raízes. A paz não virá da negação do sofrimento, mas da escuta profunda do que foi silenciado. É preciso falar, não para acusar, mas para lembrar. E lembrar é o primeiro passo para a reconciliação.
Renunciar à violência é fundamental. Gandhi liderou a independência da Índia contra o Império Britânico com a “força da verdade”, escolhendo a resistência moral e a não violência, mesmo diante de um regime brutal. Mandela, que inicialmente apoiou ações armadas contra o apartheid, após 27 anos de prisão, emergiu com uma visão transformadora: a liberdade não se conquista com vingança, mas com reconciliação. Portanto, para resolver a questão palestina, é necessária uma profunda transformação humana.
Linha do tempo do conflito Israel–Palestina:
• 1897–1917: Raízes do conflito
o 1897: Primeiro Congresso Sionista propõe a criação de um lar nacional judaico.
o 1917: Declaração Balfour (Reino Unido) apoia a criação de um Estado judeu na Palestina.
• 1918–1947: Mandato Britânico
o Palestina sob administração britânica após a queda do Império Otomano.
o Crescimento da imigração judaica e aumento das tensões com a população árabe local.
• 1947–1949: Partilha e Guerra
o 1947: ONU propõe a divisão da Palestina em dois Estados (judeu e árabe).
o 1948: Criação do Estado de Israel e início da primeira guerra árabe-israelense.
o Cerca de 700 mil palestinos são deslocados (Nakba).
• 1956–1973: Guerras regionais
o 1956: Crise de Suez — Israel invade o Sinai com apoio britânico e francês.
o 1967: Guerra dos Seis Dias — Israel ocupa Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Golã.
o 1973: Guerra do Yom Kippur — Egito e Síria atacam Israel; conflito termina com cessar-fogo.
• 1987–1993: Primeira Intifada
o Levante popular palestino contra a ocupação israelense.
o Surgimento do Hamas como força política e militar.
o 1993: Acordos de Oslo — tentativa de paz e criação da Autoridade Palestina.
• 2000–2005: Segunda Intifada
o Estopim: visita de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas.
o Intensificação de ataques suicidas e repressão militar.
o Milhares de mortos de ambos os lados.
• 2006–2014: Conflitos em Gaza
o 2006: Hamas vence eleições palestinas.
o 2008–2009: Operação Chumbo Fundido — Israel bombardeia Gaza.
o 2014: Guerra de 50 dias — mais de 2.200 palestinos mortos, 70 israelenses.
• 2018–2021: Tensões recorrentes
o Protestos na fronteira de Gaza resultam em centenas de mortes.
o 2021: Conflito em Jerusalém e nova escalada militar entre Israel e Hamas.
• 2023–2025: Guerra em Gaza
o 7 de outubro de 2023: Hamas lança ataque surpresa, matando mais de 1.200 israelenses.
o Israel responde com ofensiva massiva — mais de 67 mil palestinos mortos até 2025.
o Negociações de paz mediadas por Donald Trump em andamento.
Diante de tanta dor e resistência, é impossível não se comover e se indignar com o nosso silêncio, porque se as pedras começarem a falar é porque falhamos como humanidade. A metáfora aqui apresentada, nos lembra que, mesmo quando a voz humana é calada ou se cala por covardia ou oportunismo, a verdade encontra caminhos para se manifestar. O sofrimento de palestinos e judeus, entrelaçado ao longo de gerações, clama por reconhecimento e escuta.
A esperança de reconciliação nasce justamente desse ato de lembrar e dar voz ao que foi silenciado. Não se trata de buscar culpados, mas de reconhecer a humanidade compartilhada, a dor comum e o desejo profundo de paz. O caminho é difícil, mas só será possível quando houver coragem para ouvir, dialogar e transformar a dor em aprendizado.
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sábado, 30 de agosto de 2025
Foi divulgado pela Imprensa
📰 **Cultura & Literatura | Destaque Nacional**
### Romance sobre amor e guerra é finalista do 2º Prêmio Candango de Literatura
**Brasília** — O romance *Glória aos Heróis: Um Amor em Meio à Guerra da Ucrânia*, do escritor curitibano Maurício Ribas, foi anunciado como finalista na categoria Romance do 2º Prêmio Candango de Literatura, uma das mais prestigiadas premiações literárias do país.
A obra, publicada pela editora Ipê das Letras, narra a trajetória de André Katyuk Richter, um ex-militar brasileiro que se muda para a Estônia em busca de uma nova vida e acaba se apaixonando por Maaria Saar, uma ativista dos Direitos Humanos. Com o início da guerra na Ucrânia, André decide se alistar como voluntário, enfrentando os horrores do conflito e o dilema entre o amor e o dever.
O Prêmio Candango, promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, tem como objetivo valorizar a produção literária em língua portuguesa e consolidar Brasília como polo cultural internacional. A segunda edição do prêmio recebeu centenas de inscrições de autores lusófonos, reafirmando seu papel como vitrine da literatura contemporânea.
Maurício Ribas, que já se destacou por sua atuação nas áreas de diplomacia e filosofia, celebra a indicação como reconhecimento à força da literatura engajada. “Este romance é uma homenagem aos que lutam não apenas com armas, mas com ideias e sentimentos. Ser finalista do Candango é uma honra que compartilho com todos que acreditam no poder transformador da palavra”, declarou o autor.
📚 A cerimônia de premiação está prevista para o final do ano, em Brasília, com presença de escritores, editores e autoridades culturais.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Foi divulgado na imprensa – LANÇAMENTO DE LIVRO "Turning Point" Até que ponto você mudaria a sua história?
Maurício Ribas reúne arte, reflexão e emoção em noite memorável no Espaço Nina em Curitiba, PR – Outubro de 2025
No dia 01 de outubro, o escritor curitibano Maurício Ribas lançou seu mais novo livro, Turning Point – Até que ponto você mudaria a sua história?, em um evento marcante realizado no elegante Espaço Nina, no coração de Curitiba. A noite reuniu artistas, intelectuais, representantes da sociedade civil e leitores apaixonados, que prestigiaram o autor em uma celebração de ideias, beleza e consciência.
A obra, publicada pela Editora Multifoco, é um convite à introspecção. Com linguagem poética e filosófica, Turning Point propõe uma reflexão sobre o tempo, a consciência e a beleza silenciosa daquilo que, mesmo imperfeito, é verdadeiramente nosso. É um livro que fala sobre a vida — não como ela deveria ser, mas como ela é, com suas curvas, pausas e revelações.
“Este livro nasceu da necessidade de olhar para dentro. É sobre os momentos em que tudo muda, mesmo que nada pareça diferente por fora.” – Maurício Ribas.
Maurício Ribas é escritor, advogado e ativista. Formado pela Escola de Diplomacia da Estônia, com especialização em União Europeia e Relações Internacionais, e pós-graduado em Literatura, Filosofia e Arte pela PUC-RS, Ribas é membro da Anistia Internacional e da ICAN, com atuação em causas humanitárias e pacifistas. Já publicou obras como Ingel Addae, Questões Polêmicas – Relações Internacionais e Glória aos Heróis.
📚 Onde encontrar:
Turning Point está disponível na loja da Editora Multifoco
Formato físico e eBook, bem como na Amazon e Google Play
ISBN: [978-65-987927-0-1]
📣 Contato para imprensa e entrevistas
E-mail: [mauricio.dc.ribas@gmail.com]
Instagram: [@mauricioribas.pr]
Site oficial: www.mauricioribas.blogspot.com
sexta-feira, 4 de julho de 2025
As duas coisas infinitas
Albert Einstein disse uma vez: "Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta." Trata-se de uma crítica mordaz de Einstein, à irracionalidade que frequentemente domina o comportamento humano. Para Einstein, que era judeu, o verdadeiro perigo não estava apenas nas forças da natureza, mas na capacidade humana de agir contra a razão, mesmo diante de evidências claras.
Prova disso, são os números oficiais em Gaza, que denunciam que 18.800 crianças, foram mortas pelas forças de defesa de Israel. Refletindo sobre a monstruosidade desses dados, me dei conta que se colocássemos uma criança sobre o ombro da outra, tendo cada criança em média 1,10 m, a altura total seria maior que o Burj Khalifa, 828 m, mais de 23 vezes; mais alto que o Monte Everest, 8.848 m, mais que o dobro; seriam quase 20 km de altura, algo que ultrapassaria até mesmo a estratosfera.
Santo Deus! Estes números são os oficiais, porém está claro que esse número pode chegar ao dobro ou mais, porque nestes números não constam as crianças desaparecidas, aquelas que possivelmente estão sob as milhões de toneladas de escombros de milhares de casas, prédios, escolas, universidades, bibliotecas, hospitais, destruídos por Israel, sob a alegação falaciosa e espúria do direito de defesa. Para aqueles que não sabem os limites da legítima defesa são repelir uma agressão injusta, atual ou iminente, contra si ou contra terceiros, usando moderadamente os meios necessários para se proteger. A legítima defesa não é licença para violência indiscriminada. Fora isso, é assassinato mesmo, – ASSASSINATO. Importante lembrar que até para a guerra existem limites, bem fixados pelo Direito Internacional e é preciso que se diga que Israel já ultrapassou todos, e por isso cometeu e está cometendo vários crimes de guerra.
Vou um pouco mais além e explicar aos idiotas de plantão, porque Israel comete crimes de guerra mesmo alegando o Direito de Defesa. No Direito Internacional, o direito de legítima defesa entre Estados está consagrado no Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, e é uma das poucas exceções à proibição geral do uso da força nas relações internacionais. O que diz o Artigo 51 da Carta da ONU? Diz que: “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso de um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas...”
Ou seja, um Estado pode usar a força militar apenas se for atacado primeiro, ou com autorização do Conselho de Segurança da ONU, no entanto, para que a legítima defesa seja considerada lícita, é necessário: Ataque armado prévio. A resposta deve ser urgente e inevitável, sem alternativas diplomáticas viáveis, no entanto a Carta fala da proporcionalidade, isto é, a reação deve ser proporcional à agressão sofrida. Pergunto:Onde está a proporcionalidade?
O governo israelense é sem qualquer sombra de dúvida, terrivelmente responsável por todas estas mortes de crianças em Gaza, sem falar nas mortes de homens e mulheres inocentes assassinados sem o menor escrúpulo. Neste exato momento, morrem centenas de civis, principalmente crianças, de fome, vítimas da desnutrição. A fome está sendo utilizada como instrumento de guerra. Os soldados da IDF, divertem-se atirando nos civis que atraídos pela distribuição de algum alimento, entram em filas aos milhares e são vítimas de atiradores.
Voltando a Einstein, essa crítica sobre a estupidez humana, não era gratuita. Einstein viveu em uma era marcada por guerras mundiais, genocídios, preconceitos e o uso destrutivo da ciência — como a criação da bomba atômica, da qual ele próprio se arrependeu de ter contribuído indiretamente. Ele compreendia que o conhecimento técnico, sem sabedoria moral, poderia ser fatal. Einstein previu sobre os nossos dias, onde o conhecimento é em grande parte desprovido de sabedoria moral. Mas não apenas isso. O que pensar de nossa espécie e dos rumos que estamos tomando? Onde está a humanidade — esse atributo que nos diferencia, ou diferenciava, de outras espécies? O mundo se cala diante dessas barbáries. No entanto, haverá um dia em que a justiça triunfará, e todas as lágrimas serão enxugadas. Palestina livre.
#LiteraturaDeResistência #PalestinaLivre
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#NarrativasRevolucionárias #EscritorMilitante
sexta-feira, 20 de junho de 2025
O que a história de Ruby Bridges conta sobre a humanidade e o problema com qual todos continuamos vivendo?
Imagine uma garotinha de apenas seis anos, caminhando com passos firmes entre uma multidão hostil, escoltada por quatro agentes federais. Essa é a imagem icônica de Ruby Bridges, a primeira criança negra a integrar uma escola primária de brancos no sul dos Estados Unidos, em 1960. Sim ontem, apenas 65 anos passados.
Ruby nasceu em 1954, no Mississippi, e cresceu em uma época em que, apesar da decisão da Suprema Corte americana de acabar com a segregação nas escolas, muitos estados do sul resistiam ferozmente à mudança. Quando sua família se mudou para Nova Orleans, sua mãe se voluntariou para que Ruby participasse de um programa de integração escolar. Ela foi a única entre seis crianças negras a ser designada para a Escola William Frantz.
No seu primeiro dia de aula, Ruby enfrentou uma multidão de manifestantes brancos gritando insultos racistas. Muitos pais tiraram seus filhos da escola, e todos os professores, exceto uma — Barbara Henry — se recusaram a ensiná-la. Ruby passou o ano inteiro tendo aulas sozinha com a professora, que a tratava com carinho e respeito.
A coragem de Ruby foi eternizada na pintura The Problem We All Live With (O problema com o qual todos vivemos) de Norman Rockwell, que mostra a menina em seu vestido branco, cercada por agentes federais, com pichações racistas e um tomate esmagado na parede ao fundo. Essa obra de arte me fez chorar, logo cedo e por isso escrevo essa crônica. Até quando vamos conviver com o racismo e a intolerância? Até quando continuaremos aceitando as injustiças?
Hoje, Ruby Bridges é uma ativista pelos direitos civis e pela educação, e sua história é um símbolo poderoso da luta contra o racismo e da força que uma criança pode ter diante da injustiça. Free Palestine!
domingo, 8 de junho de 2025
A literatura brasileira e a sua cara
Qual é a cara da literatura brasileira? Como estamos produzindo no campo fértil da literatura? Essas são questões de grande relevância porque tratamos de uma das mais poderosas armas de transformação de que dispõe a humanidade.
Em artigo na Folha de São Paulo de 07 de junho do corrente ano, que discute a predominância do conteúdo sobre a forma na literatura brasileira contemporânea, a autora, Walnice Nogueira Galvão, destaca o impacto do movimento social em torno da negritude, evidenciado na lista dos melhores livros do século. A Folha convidou cem pessoas para indicarem, cada uma, dez livros que não poderiam ficar de fora de uma seleção que reunisse o melhor da literatura brasileira do século 21. Ela observa que essa tendência se estende à ficção, ao ensaio e às artes, servindo como uma reparação simbólica aos males históricos da escravidão e sua emancipação problemática, o que eu concordo.
Entretanto, Galvão aponta um paradoxo: enquanto a temática da negritude domina, outros temas relevantes, como o feminismo, a cultura indígena e questões queer, aparecem de forma muito menos expressiva. Esse desequilíbrio levanta questionamentos sobre a influência dos editores e do mercado literário nas escolhas dos leitores.
Por fim, a autora sugere que essa ênfase excessiva no conteúdo pode estar desviando a literatura de sua natureza artística e experimental, aproximando-a do entretenimento, o que é uma lástima. Ela especula se essa mudança está ligada ao aumento do interesse pela biografia dos autores, em detrimento de sua obra.
A literatura, em sua essência artística e experimental, busca transcender o simples ato de contar histórias e se tornar um espaço de inovação estética e reflexão profunda. Segundo Walnice Nogueira Galvão, há uma preocupação crescente de que a literatura brasileira esteja se afastando dessa essência ao priorizar o conteúdo sobre a forma.
A literatura experimental, por exemplo, desafia convenções tradicionais, explorando novas estruturas narrativas, estilos e até formatos visuais. Autores como James Joyce e Virginia Woolf revolucionaram a escrita ao brincar com a linguagem e a percepção do tempo.
O risco de uma literatura voltada apenas para o entretenimento é que ela perde sua capacidade de provocar e desafiar o leitor. A experimentação literária permite que a arte se reinvente, criando novas maneiras de expressar ideias e emoções, isso é fundamental e necessário.
A verdade é que o Brasil nunca teve um escritor laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, apesar de algumas indicações ao longo dos anos. Entre os brasileiros que já foram considerados para o prêmio estão Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Érico Veríssimo e Clarice Lispector.
Uma das razões apontadas para essa ausência é a falta de apoio institucional e reconhecimento internacional, a falta de apoio é uma vergonha, leva entre outras coisas à falta de reconhecimento. Diferente de países como a Noruega, França e Estados Unidos, o Brasil não tem uma tradição forte de promover seus escritores globalmente. Além disso, a língua portuguesa tem menos alcance internacional, o que dificulta a visibilidade dos autores brasileiros.
Outro fator mencionado é a falta de consenso interno. Segundo relatos, quando um escritor brasileiro é indicado, há pouca mobilização nacional para apoiá-lo, ao contrário do que acontece em outros países, perdoem-me dizer é o “complexo de vira-lata” e a inveja que predominam.
Também é verdade, que a literatura brasileira tem sido criticada por sua falta de conteúdo universal, além disso, há um debate sobre a posição do Brasil na literatura mundial. Alguns estudiosos apontam que a literatura brasileira ocupa um lugar periférico no cenário global e enfrenta dificuldades para se inserir em um discurso mais universal. A falta de um projeto amplo de interculturalidade literária no ensino também contribui para essa limitação, já que a formação dos leitores brasileiros tende a ser mais voltada para produções nacionais e menos para um diálogo com outras tradições literárias.
Por outro lado, há iniciativas que buscam ampliar essa perspectiva, como a literatura periférica, que desafia barreiras e propõe uma visão mais universal da experiência brasileira.
O conteúdo universal na literatura refere-se a temas que transcendem fronteiras culturais e dialogam com questões humanas amplas. Alguns exemplos incluem:
• Identidade e pertencimento: A busca por identidade, seja individual ou coletiva, é um tema recorrente na literatura mundial. No Brasil, autores como Machado de Assis exploraram essa questão em obras como Dom Casmurro.
• Conflitos sociais e desigualdade: A literatura brasileira frequentemente aborda desigualdade racial, social e econômica, temas que ressoam globalmente.
• Amor e relações humanas: As complexidades do amor, da amizade e da família são temas universais. José de Alencar e Clarice Lispector exploraram essas dinâmicas em suas obras.
• Memória e história: A literatura brasileira dialoga com eventos históricos e suas consequências, como a escravidão e a ditadura militar, conectando-se a narrativas semelhantes em outras partes do mundo.
• Natureza e meio ambiente: A relação entre o homem e a natureza é um tema global urgente.
A literatura tem um papel fundamental na provocação de reflexões profundas no leitor, indo além do entretenimento e estimulando o pensamento crítico. A literatura de reflexão é um gênero que busca explorar questões filosóficas, sociais e existenciais, levando o leitor a questionar suas próprias crenças e valores.
Algumas das principais características desse tipo de literatura incluem:
• Temas universais: A busca pela verdade, a moralidade, a liberdade e a solidão são questões que transcendem culturas e épocas.
• Narrativas desafiadoras: Obras como A Metamorfose, de Franz Kafka, e O Estrangeiro, de Albert Camus, fazem o leitor refletir sobre identidade e o absurdo da existência.
• Uso de simbolismos e metáforas: Autores frequentemente utilizam camadas de significado para enriquecer a experiência de leitura.
• Exploração da condição humana: A literatura pode ser um espelho da alma, ajudando o leitor a compreender melhor a si mesmo e o mundo ao seu redor.
A literatura que provoca reflexão profunda não apenas informa, mas transforma. Ela desafia percepções, estimula o autoconhecimento e pode até influenciar mudanças sociais.
Por último gostaria da abordar a questão da forma que segundo a autora falta na literatura brasileira, pois prioriza-se mais o conteúdo. A forma na literatura refere-se à maneira como uma obra é estruturada, estilizada e apresentada artisticamente. Enquanto o conteúdo trata do que é dito, a forma se preocupa com como isso é expresso. Alguns elementos essenciais da forma incluem:
Estilo e linguagem: O uso de metáforas, simbolismos, ritmo e sonoridade na escrita.
Estrutura narrativa: A organização dos eventos, como narrativas não lineares, fluxo de consciência ou múltiplas perspectivas.
Experimentação estética: Inovação na construção textual, como o uso de fragmentação, poesia visual ou jogos de palavras.
Trabalho com o significante: A preocupação com a materialidade da linguagem, indo além do significado imediato das palavras.
É isso, é arte, a literatura de ficção é um instrumento de transformação, um poderoso instrumento, temido, amado e odiado, não é à toa que livros foram destruídos por regimes autoritários em diferentes épocas e ainda são. Além do que em nossos dias as tentativas ou a consumação de censura tentam eliminar aquelas obras tidas como mais nocivas para o sistema. Não é à toa que sociedades desiguais mantem modelos educacionais que não valorizam a literatura, não incentivam crianças e adultos a lerem, antes os condenam a uma vida de analfabetismo ou analfabetismo funcional com modelos educacionais aviltantes, portanto bem distante dos livros.
É preciso que se diga e repita e se combata a triste realidade brasileira. Em nosso país a desigualdade socioeconômica, leva a uma grande disparidade no nível de leitura entre jovens de alta e baixa renda. “A OCDE aponta que a capacidade de leitura dos jovens brasileiros é fortemente influenciada pelo status socioeconômico”. (OCDE. Relatório de educação, Paris: OCDE, 2023), não sem razão, o baixo nível de ensino das populações mais pobres e a falta de incentivo à leitura, fazem da questão uma questão estrutural, o que vou chamar de “aliteratura” ou “anliteratura” estrutural.
Esses dados reforçam a tese que defendo de que a literatura de ficção serve para transformar o ser humano e que o ser humano uma vez transformado, transforma o mundo. Por isso ela é temida, porque nos faz pensar, constrói o conhecimento, a literatura de ficção transforma as nossas certezas em incertezas, abala nossos alicerces, provoca nossa reflexão, faz perguntas muito mais que dá respostas, faz-nos refletir sobre a vida e o seu sentido, mexe com os nossos preconceitos, desconstrói nossas convicções. Eu me atrevo a dizer que a tese de Paulo Freire que afirma que o conhecimento não deve ser passado, mas construído no aluno, central em sua pedagogia, ou seja, um processo dialógico e participativo, onde o aluno é um sujeito ativo na construção do conhecimento, pode ser aplicado no entendimento do processo da literatura de ficção. O livro dialoga com o leitor, da mesma forma que Freire suscita que o professor deve dialogar com o aluno para que o aprendizado ocorra de forma interativa, porque o livro é problematizador que não transforma o leitor em um recipiente vazio a ser preenchido, como Paulo Freire critica na forma de ensino convencional. Viva a literatura brasileira e a sua capacidade de se reinventar, o que é urgente.
sexta-feira, 6 de junho de 2025
Gaza precisa de nós Agora! Gaza needs us NOW!
"The humanitarian crisis in Gaza has reached an unbearable level of suffering. Children cry out for food, families are torn apart, and hope fades with each passing day. The president of the International Committee of the Red Cross declared that Gaza has become 'worse than hell on Earth'—yet the global response remains insufficient.
This is not just a conflict. It is an unprecedented humanitarian disaster. We need urgent international mobilization to ensure an immediate ceasefire, unrestricted humanitarian aid, and the protection of fundamental rights for the Palestinian people.
Every voice matters. Share, protest, demand action from world leaders. Together, we can stop this tragedy from continuing. Gaza needs us NOW!"_
domingo, 23 de março de 2025
A quem serve o Santo Graal?
A história do Rei Pescador e Parsifal é uma das mais conhecidas na tradição do ciclo arturiano e nas lendas do Santo Graal. O Rei Pescador, “Fisher King”, também chamado de Rei Ferido, estava gravemente doente, tinha feridas horríveis por todo o corpo e além disso o reino dele estava passando por uma terrível situação de fome e miséria nunca antes vivida, o que simboliza a decadência espiritual do reino. Só havia uma saída, encontrar o Santo Graal. O Santo Graal para quem não sabe é o cálice que foi usado por Jesus na última ceia e que teria, por isso, poderes inimagináveis.
Parsifal, um jovem cavaleiro, embarca na busca pelo Graal com o objetivo de restaurar a saúde do Rei Pescador e trazer prosperidade ao reino. No entanto, sua jornada é repleta de desafios, incluindo provas de fé, coragem e pureza. Ele passa por uma jornada de amadurecimento, aprendendo sobre a compaixão e o dever espiritual, até estar preparado para completar sua missão, ou seja, encontrar o Santo Graal.
Quando Parsifal finalmente encontra o Santo Graal na lenda, a pergunta que ele deveria fazer ao Rei Pescador é: "A quem serve o Graal?", dependendo da versão da história. Essa pergunta é crucial para quebrar o ciclo de sofrimento do Rei e restaurar a saúde dele, assim como a harmonia no reino. Sem a resposta correta do rei, Parsifal não poderia levar consigo o Santo Graal e salvar o reino. Notem que nesta versão o rei deve saber a resposta e sem ela seu reino não será salvo.
Parsifal, em sua primeira tentativa, não faz essa pergunta devido à sua imaturidade ou falta de compreensão espiritual, mas, em seu retorno, ao ter aprendido com suas jornadas e crescido como pessoa, ele finalmente faz a pergunta certa e pode completar sua missão, desde que a resposta à pergunta seja a correta.
Em uma das versões mais espirituais da lenda, onde a resposta à pergunta sobre a quem serve o Santo Graal é "Ao Senhor do Graal," interpretado como Deus ou uma força divina, ou ainda a quem se destina o Poder de transformação do Santo Graal. Essa resposta, reconhece que o Graal não é apenas um objeto físico, mas um símbolo espiritual ligado à conexão com o divino e ao serviço altruísta e que para que ele atue na transformação pretendida, na cura, a pergunta tem de ser feita e a resposta certa deve ser dada. Note-se que a pergunta é tão importante quanto a resposta.
Essa interpretação destaca que aqueles que servem ao Graal são chamados a viver uma vida de pureza, fé e compaixão, dedicados ao propósito maior de ajudar e iluminar os outros, fazer justiça e valorizar a vida. Podemos reimaginar o Santo Graal como um símbolo da tecnologia moderna - algo profundamente desejado por seu potencial transformador. Assim como na lenda, o Graal deveria trazer cura e prosperidade ao reino, assim como a tecnologia, em nossos tempos, deveria servir como uma ferramenta para promover igualdade, bem-estar e soluções para problemas globais, portanto estaríamos respondendo à pergunta a quem serve o Santo Graal. Portanto, o Santo Graal deve servir ao senhor do Santo Graal, que em última análise é toda a humanidade, porque a humanidade é a obra suprema de Deus, o que nos é lembrado na passagem onde Cristo diz que o que fizeste ao mais pequenino fizestes a mim, isso certamente é revelador.
No entanto, quando o "Graal da tecnologia" é monopolizado por grupos, oligarquias ou governos focados apenas em interesses próprios, ela acaba aumentando as desigualdades e perpetuando a miséria, desviando-se do verdadeiro propósito, tudo porque não está a serviço da humanidade. A pergunta que Parsifal deveria fazer ao Rei Ferido – “A quem serve o Graal?” – pode ser adaptada: “A quem serve a tecnologia?” Precisamos nos indagar. A resposta ideal seria: “A humanidade como um todo.” A tecnologia deve ser utilizada para democratizar oportunidades, combater a desigualdade e fomentar um futuro mais sustentável para o planeta e por isso precisa ser posta a serviço de toda a humanidade e não apenas de alguns.
A tecnologia, o conhecimento, têm um potencial incrível para transformar a humanidade positivamente. De fato, ela poderia – e deveria – ser usada para enfrentar desafios urgentes como o aquecimento global, a miséria, doenças, a fome e tantas outras questões que afetam bilhões de pessoas. O que é a tecnologia? Tecnologia é o conjunto de conhecimentos, ferramentas, técnicas e processos criados e aplicados pelos seres humanos para resolver problemas, melhorar a vida, ou atender a necessidades específicas. Ela abrange desde invenções simples, como a roda, até os sistemas mais complexos, como inteligência artificial e redes globais de comunicação.
No entanto, quando a tecnologia é colocada a serviço de interesses destrutivos, como a guerra, a perpetuação de conflitos que devoram bilhões de dólares, o lucro fácil em detrimento de outros povos, a mentira como instrumento de manipulação, a xenofobia, o nacionalismo, o racismo, a destruição do planeta através da sua exploração desenfreada, acabamos vendo um desperdício trágico desse potencial. É o desvio da verdadeira missão da tecnologia, do conhecimento, que deveria ser um "graal moderno" para beneficiar a coletividade, promovendo a harmonia entre povos e o equilíbrio com o planeta. Destarte, nossos “reinos” estão apodrecendo como as feridas do Rei sofredor e a humanidade fragilizada é o seu reino.
Transformar essa realidade exige um esforço coletivo, tanto de governos quanto da sociedade civil, para reorientar o uso da tecnologia, do conhecimento para fins pacíficos e sustentáveis. É um desafio que requer ética, visão a longo prazo e, acima de tudo, a vontade de servir ao bem comum.
A alegoria do Santo Graal e do sofrimento do Rei Pescador funciona como um poderoso reflexo do estado da humanidade contemporânea. O Graal, enquanto símbolo de cura e harmonia, representa as soluções que buscamos — seja na tecnologia, na ciência ou no conhecimento — para os grandes desafios que enfrentamos, como a miséria, o aquecimento global, as desigualdades sociais e fazermos frente ao desafio de colocar tudo isso a serviço de todos e não de poucos.
Já o Rei Pescador, ferido e incapaz de liderar, pode ser visto como uma metáfora para o estado de fragilidade da nossa civilização, que luta para encontrar equilíbrio diante de conflitos, crises e divisões. Assim como Parsifal na lenda, somos desafiados a encontrar as perguntas certas, além das respostas e os caminhos corretos para servir a esse "graal" de soluções que pode restaurar a prosperidade e a saúde do nosso mundo.
Essa analogia nos convida a refletir sobre nossas responsabilidades e prioridades como sociedade. De que forma podemos agir como Parsifal e superar os erros do passado? A educação, como sabemos, é a verdadeira base para mudar o rumo da humanidade. Investir nas futuras gerações é mais do que preparar crianças e jovens para o mercado; é cultivar cidadãos críticos, conscientes e compassivos, capazes de pensar de forma independente e atuar pelo bem coletivo.
Enfrentar a desinformação e resistir contra a tentativa de transformar a educação em algo alienante são batalhas que exigem união, perseverança e coragem. A educação deve ser um espaço de libertação, onde as pessoas aprendem não apenas a saber, mas também a cuidar, a questionar, a dialogar. Empatia e solidariedade nascem de uma compreensão mais profunda do mundo e do sofrimento humano – e isso pode ser ensinado e amplificado em contextos educacionais.
Essa visão do mundo oferecida lembra muito o Rei Pescador da lenda, esperando por alguém como Parsifal para fazer a pergunta certa e começar a curar as feridas de um reino adoecido. Nós, como sociedade, homens e mulheres, temos o potencial de nos tornarmos esse Parsifal, buscando soluções justas e solidárias calcados na pureza de propósitos, na empatia, na fé, na compaixão e no amor. A quem serve o Graal?
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
O que não sabem ou não querem saber aqueles que atacam a União Europeia - Vida longa à UE - Capítulo do Livro Questões Polêmicas Relações Internacionais - Mauricio Ribas
A Declaração Schuman, sem sombra de dúvida, é a “certidão de nascimento” da União Européia e tem um conteúdo a meu ver apaixonado e idealista, típico de homens que por suas ações e ideias são capazes de mudar o mundo. A proposta do Capitulo presente é refletir sobre a capacidade de usar essa experiência e adaptar o conhecimento prático e formal adquirido ao longo da História, analisar as Instituições e a Formulação de Políticas da UE, na forma prática e fornecer possíveis recomendações aplicáveis aos formuladores de políticas. Este ensaio é composto por duas partes, a primeira descrevendo a Declaração Schuman (1950) e a segunda é analítica.
A Declaração de Schumann, datada de 9 de maio de 1950, foi elaborada e entregue por Robert Schumann, ministro francês das Relações Exteriores da França, em 9 de maio de 1950, esta declaração consiste em um documento que aborda a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), quando esta Comunidade é mencionada pela primeira vez. Este texto é considerado o ponto de partida da União Europeia. Em 1985, por decisão do Conselho Europeu, o dia 9 de maio tornou-se o Dia da Europa.
Robert Schumann é um dos pais da União Européia, ao lado de Adenhauer e Monnet e isso não é por acaso. A grandeza e inspiração que lhe eram inerentes e porque não dizer o amor pela Europa, são evidentes e sobretudo uma força avassaladora que somada ao exaustivo trabalho realizado, levou ao que podemos chamar de “o fim das guerras sem fim” na Europa e na construção de uma sociedade que serve de exemplo e inspiração para o mundo inteiro.
Devemos perguntar primeiro o que é a Europa?
Tal pergunta não é fácil de responder. "O QUE é a Europa?" perguntou Winston Churchill em maio de 1947. “Uma pilha de escombros, um cemitério, um terreno fértil para pestilência e ódio.” Churchill, ex-oficial do exército, repórter de guerra e primeiro-ministro britânico (1940-1945 e 1951-1955), foi um dos primeiros a defender a criação dos "Estados Unidos da Europa". Após a Segunda Guerra Mundial, ele acreditava que somente uma Europa unida poderia garantir a paz. Seu objetivo era eliminar permanentemente as "doenças" europeias do nacionalismo e do belicismo. Churchill apresentou suas conclusões, tiradas da experiência histórica, em seu famoso “Discurso à juventude acadêmica”, proferido na Universidade de Zurique em 1946: “Há um remédio que (...) da Europa (...) livre e feliz. Trata-se de reconstituir a família europeia ou, pelo menos, a parte que podemos reconstituir e dotá-la de uma estrutura que lhe permita viver em paz, segurança e liberdade. Devemos criar uma espécie de Estados Unidos da Europa”. (Europa.eu/europeanunion/sites/europaeu/files/docs/body/winston_churchill).
Se Churchill estivesse vivo, ficaria profundamente desapontado com os caminhos escolhidos pelo Reino Unido, que, sob a influência da extrema-direita nacionalista, promoveu um dos piores e mais tristes momentos para a Europa nos últimos 70 anos, nomeadamente a saída da Uniao Europeia, o BREXIT. O triste é que vivemos uma época em que o mundo precisa construir pontes, amarrar laços e promover o bem-estar comum e não o isolacionismo nacionalista.
O clima histórico e político da época
“De todas as glórias contidas no Ministério das Relações Exteriores da França, a mais gloriosa é o Salon de l'Horloge. Suntuoso em ouro e mármore, adornado com candelabros e sedas, banhado pela luz inclinada do Sena, foi lá que os velhos dirigentes entregaram o Tratado de Versalhes após a primeira guerra mundial. O pacto Kellogg-Briand foi assinado lá em 1928, prometendo proibir o uso agressivo de armas para sempre. E em 18 de abril de 1951, exaltados pelas armadilhas do império, ministros da Alemanha Ocidental, Itália, França e três países do Benelux colocaram seus nomes no Tratado de Paris, o documento fundador do que, quatro décadas depois, se tornaria a União Europeia." (The Economist 2016)
Em 1950, a Europa vivia um clima pestilento em meio a uma Europa destruída e derrubada pela Segunda Guerra Mundial; em 1945, as pessoas não acreditavam que a Europa Ocidental iria se recuperar. Cidades, fábricas, portos, estradas, ferrovias, armazéns, prédios, casas foram destruídos pelos constantes bombardeios. Fazendas também foram destruídas. Milhões perderam a vida, muitos outros foram mutilados, sem falar nos milhões de órfãos, mulheres e velhos indigentes. Com o racionamento forçado de alimentos, as pessoas passavam fome. Essas condições, somadas ao trauma da experiência de guerra, resultaram em instabilidade política em muitos países. Mas com a ajuda dos Estados Unidos, por meio do Plano Marshal, a Europa Ocidental se recuperou.
O Plano Marshall forneceu ajuda crucial para a Europa Ocidental. No entanto, o plano americano não foi suficiente para promover o desenvolvimento europeu. Para reconstruir a Europa Ocidental, algumas nações européias finalmente decidiram cooperar. Essa cooperação precisava ir além das questões meramente econômicas e ousar acabar com os motivos que levaram às constantes guerras que assolam o continente há séculos, trazendo dor e sofrimento.
Neste ponto quero confessar que antes de me aprofundar neste tema, pensava na União Europeia, apenas como um bloco económico forte e pensava que a sua criação se devia apenas à questões económicas e financeiras. Devo dizer que não só eu, mas muitos europeus que conheço, pensam da mesma forma. Eu estava surpreendentemente enganado.
Por que carvão e aço?
“Equipado com as armadilhas de um esquema para administrar a produção de carvão e aço, o tratado era, em essência, um acordo de paz franco-alemão. De acordo com o ambiente, sua instanciação física era suntuosa e simbólica. Em suas memórias, Jean Monnet, um dos pais da Europa, descreve um documento impresso na França em papel holandês com tinta alemã, montado em uma encadernação belga e luxemburguesa e decorado com um marcador de livro de seda italiana. O que Monnet não diz é que, como as negociações foram tão frenéticas, a folha de papel que os ministros assinariam foi deixada em branco. Se estivessem vivos hoje, esses ministros ficariam surpresos ao ver como seus sucessores preencheram aquela página em branco a ponto de explodir em instituições e países. A comunidade começou com seis membros, quatro idiomas, 177 milhões de pessoas e (em caixa em 2014) US$ 1,6 trilhão em produção anual. A UE de hoje tem 28 membros, 24 idiomas, 505 milhões de pessoas e um PIB de US$ 19 trilhões.” (The Economist 2016). É impossível não concordar que a solução para a barbárie e a construção de uma sociedade modelo para o mundo passou por uma construção industrial e comercial, um passo simples, que, inspirado nas ideias dos “pais da Europa”, envolveu a todos num futuro de paz e prosperidade.
Schumann, falando sobre o tratado de carvão e aço, responde à pergunta acima dizendo: “A união da produção de carvão e aço deve fornecer imediatamente o estabelecimento de bases comuns para o desenvolvimento econômico como um primeiro passo na federação da Europa, e mudará destinos as regiões que há muito se dedicam à fabricação de munições de guerra, das quais têm sido as mais constantes vítimas. A solidariedade na produção assim estabelecida deixará claro que qualquer guerra entre a França e a Alemanha não é apenas impensável, mas materialmente impossível. A instalação desta poderosa unidade produtiva, aberta a todos os países que queiram participar e que, em última análise, fornecerá a todos os países membros os elementos básicos da produção industrial nas mesmas condições, constituirá uma base real para sua unificação econômica. Esta produção será oferecida ao mundo, sem distinção ou exceção, com o objetivo de contribuir para a elevação dos padrões de vida e promover conquistas pacíficas.”
Sim, o carvão e o aço e seu monopólio foram usados até então para produzir guerras de dominação a serviço da ganância e do poder e agora controlados seriam colocados a serviço do desenvolvimento e do progresso.
Schumann um sonhador?
"A paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criativos à medida dos perigos que a ameaçam. A Europa não se fará de uma só vez, nem segundo um único plano. Será construída através de realizações concretas que criem primeiro uma solidariedade de fato. O contributo que uma Europa organizada e viva pode fazer à civilização é indispensável para a manutenção de relações pacíficas. A união das nações da Europa requer a eliminação da antiga oposição da França e da Alemanha." “... Reunindo a produção básica e instituindo uma nova Alta Autoridade, cujas decisões vincularão a França, Alemanha e outros países membros, esta proposta levará à realização da primeira fundação concreta de uma federação européia essencial para a preservação da paz. A movimentação de carvão e aço entre os países membros será imediatamente isenta de todos os impostos alfandegários e não será afetada por taxas diferenciadas de transporte. Aos poucos vão-se criando condições que permitirão espontaneamente uma distribuição mais nacional da produção ao mais alto nível de produtividade.” (Schumann 1950).
Sim, Schumann era um sonhador que sonhava alto, que pensava não só na Europa, mas no mundo, no desenvolvimento e queria e principalmente incluir a África nos planos de desenvolvimento e progresso humano. Precisamos de mais homens como Schumann.
Paz, esforço, solidariedade, criatividade, proporcionalidade, passo a passo, essas são as palavras de ordem. “... os países há muito se opõem a divisões sangrentas. Reunindo a produção básica e instituindo uma nova Alta Autoridade, cujas decisões vincularão a França, a Alemanha e outros países membros, esta proposta levará à realização da primeira fundação concreta de uma federação europeia indispensável para a preservação da paz.” (Schumann 1950)
O nacionalismo ainda é uma ameaça à União da Europa e à paz?
Evidentemente que sim. Do ponto de vista histórico, o nacionalismo fomentou rivalidades que dariam sentido à Primeira e à Segunda Guerra Mundial. As rivalidades imperialistas sempre estiveram próximas de um discurso no qual o interesse de uma nação deveria estar acima das “ameaças” de outras nações inimigas imaginárias. E o cerne da organização da ideologia nacionalista é a noção de superioridade e rivalidade.
Analisando o século passado, o nacionalismo conseguiu atingir sua expressão mais radical com a ascensão dos movimentos totalitários na Europa. Sob o pretexto de defender a nação, os movimentos nacionalistas tomaram para si a ideia de que as liberdades individuais deveriam ser suprimidas em favor de um líder máximo, capaz de ditar e executar os desejos de toda uma coletividade segundo seu discernimento quase divino. O resultado monstruoso da Segunda Guerra Mundial nos mostra o que podemos esperar dessa ideologia infame.
Hoje em dia, apesar da história nos mostrar o passado, apesar do fenómeno da globalização, do vertiginoso desenvolvimento tecnológico, este cancro, o nacionalismo, aparece mesmo na expressão de alguns pequenos grupos que rejeitam o ideal de integração contemporânea. Propagam a construção de muros e a destruição de pontes entre as nações, espalham o ódio, o racismo, a intolerância e arrastam multidões cada vez mais. Eles usam o medo, a deformação e a ignorância das massas. A intolerância não pode ser tolerada, e devemos ser fortes e ágeis no combate a essas ideias que podem levar a humanidade ao caos, ao sofrimento e à dor vivenciados no passado recente. Em alguns países, os chamados neonazistas, também aparecem alimentados por um nacionalismo que repudia a união entre os povos, a questão migratória, fomenta a perseguição de minorias, prega o racismo e a superioridade racial. Sem dúvida, a questão nacionalista ainda hoje é miserável.
Recomendações aplicáveis aos formuladores de políticas
As políticas devem tratar da defesa intransigente da democracia contra o autoritarismo, o nacionalismo e todas as doutrinas que atentem contra o ideal de solidariedade e respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana; defender a liberdade de imprensa e lutar contra o uso indevido da tecnologia ao serviço da desinformação e da propagação da mentira, promovendo os direitos humanos e o Estado de direito como forma de alcançar a liberdade e o desenvolvimento social na UE e no estrangeiro.
A UE, através dos seus agentes-alvo, deve apelar ao setor privado, incluindo o setor tecnológico e as empresas das redes sociais, para que atuem no sentido de assumir compromissos, reconhecendo a sua extrema responsabilidade e o seu enorme interesse em preservar sociedades abertas e democráticas e proteger a liberdade de expressão no mundo. Não podemos mais tolerar; tolerar o avanço e a consolidação de doutrinas antidemocráticas contrárias aos direitos humanos e às liberdades fundamentais da pessoa humana e valores que em grande medida foram engrandecidos na formação e manutenção da União Européia. Devemos promover os valores europeus baseados na ética.
Conclusão
Segundo McCormick e penso que tem toda a razão, “a Europa hoje é o resultado direto da “Declaração Schuman” de 9 de maio de 1950. Segue o mesmo método e mantém os objetivos. É necessário reler o único livro que este “Pai da Europa” escreveu “Pela Europa” e dedicou a esta aventura, um sonho inicialmente inacessível que se tornou uma realidade tangível, para compreender a sua abordagem e as apostas políticas desta pacífica construção voluntária da unidade do continente, como tal sem precedentes na história. No contexto muito particular da época, que recorda, não foge a nenhuma das questões que legitimamente se podem colocar sobre o projeto europeu: a nação, o federalismo, a cultura, as raízes da Europa. E sob sua pena, em vez de se confrontarem, os Estados e os povos da Europa se somam; uma Europa política e voluntária, rica na sua diversidade, mas forte na sua unidade. Esta visão continua a ser uma necessidade para a Europa hoje e um requisito para imaginar o seu futuro.” (John McCormick, p. XII)
“Os europeus têm opiniões divergentes sobre a conveniência de transferir os poderes dos estados membros para um novo nível de governo e, embora as pesquisas de opinião mostrem que cerca de metade aprova a União Europeia, a outra metade desaprova ou ainda não tem certeza do que pensa. Os críticos acusam os "eurocratas intrometidos" e se preocupam com os custos de dar autoridade a instituições que para eles muitas vezes são secretas e irresponsáveis. Eles também questionam até que ponto a integração pode ser creditada com o crescimento econômico e a prosperidade que atingiram a Europa Ocidental desde 1945. (robertschhuman.eu/fr/librairie/0073-pour-l-europe-sixieme-edition)”. (John McCormick, p. XII)
Neste contexto, vale a pena recordar um excerto do discurso do ex-presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, “Se eu não fosse luxemburguês, alertaria para o provincianismo, que, no melhor sentido da palavra, , não é um conceito ou fórmula para imaginar ou moldar o futuro. E porque a Europa é a Europa - com todo o valor que traz, com todos os sonhos que evoca no mundo, como lugar de esperança para muitos - tal como é, devemos preocupar-nos, não em criar mais a Europa, mas em fazer da Europa um melhor lugar. E a Europa só se tornará um lugar melhor se não aceitarmos o fato de que tantos jovens na Europa não conseguem encontrar trabalho. Este é o verdadeiro problema que o continente europeu enfrenta. Não devemos permitir que, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os pais não possam oferecer aos seus filhos uma vida melhor do que a deles, ou pelo menos tão boa quanto a deles. E enquanto 25.000 crianças morrerem de fome em todo o mundo todos os dias, o trabalho da Europa e da Europa neste mundo não estará terminado”. (Jean-Claude Juncker 2016).
Os pais da UE são universalistas e, em essência, “os universalistas acreditam que os tratados multilaterais e as organizações internacionais a eles associadas são tanto a causa quanto o efeito de uma transição de noções anacrônicas de soberania e auto engrandecimento, ainda resumidas em poderes bilaterais baseados em pactos - para uma sociedade internacional mais esclarecida. Esta sociedade tem sido descrita como uma "comunidade", uma "aldeia global", um "bairro", uma "família de nações", ou ainda - no seu retrato mais exagerado - como um precursor de uma visão inspirada de "amor global. " (Philip Allott 2001).
A paz não é uma tarefa fácil e comum, requer trabalho e vigilância, amor e sacrifício. A Europa tem muitos desses elementos de construção da paz. A paz leva as pessoas a um sentimento de alegria, e talvez a escolha da Ode à Alegria de Ludwig von Beethoven como Hino Europeu tenha sido mais uma grande inspiração para aqueles que sonhavam com um mundo de felicidade para todos, não apenas os europeus, mas toda a humanidade.
sábado, 18 de janeiro de 2025
Pedro I de Portugal e Inês de Castro meus trisavós de vigésimo segundo grau
Recentemente explorando um site de genealogia, como a viajar no tempo, fiquei estarrecido ao fazer uma emocionante descoberta. Eu sou descendente de Pedro I e Dona Inês de Castro. Aí vai o porquê da minha emoção:
Pedro I, também conhecido como Pedro, o Cruel, era filho do rei Afonso IV de Portugal. Ele se apaixonou por Inês de Castro, dama de companhia de sua esposa, D. Constança Manuel. Mesmo após o casamento com Constança, Pedro e Inês mantiveram um romance secreto. Importante dizer que naquela época e mesmo hoje em dia, muitas reinos adotam critérios de casamento para os príncipes e princesas com base em interesses políticos e não necessariamente o amor. Pedro, portanto, foi obrigado pelo pai a casar-se com D. Constança.
Após a morte de Constança em 1345, Pedro passou a viver abertamente com Inês, o que gerou grande descontentamento na corte e entre o povo. O rei Afonso IV, pai de Pedro, não aprovava a relação e, em 1355, ordenou a execução de Inês de Castro.
Devastado pela morte de sua amada, Pedro liderou uma revolta contra seu pai e, quando assumiu o trono em 1357, vingou-se dos assassinos de Inês, mandando arrancar-lhes o coração, assim como eles tinham figurativamente feito com ele, ao assassinar a mulher de sua vida, daí a alcunha de Pedro, o Cruel. Ele também declarou que havia se casado secretamente com Inês e a reconheceu como rainha póstuma de Portugal.
Uma das lendas mais macabras e fascinantes da história portuguesa conta que Pedro mandou exumar o corpo de Inês e a coroou. Daí a frase que repetimos sem saber a origem quando queremos dizer que algo que acaba de ser feito não tem mais importância: “Agora é tarde, a Inês é morta!" Durante a cerimônia, ele teria obrigado os nobres da corte a beijarem a mão do cadáver de Inês, como um gesto de reconhecimento e respeito, através do qual, ele se vingou da corte que humilhou Inês devido ao seu relacionamento com Pedro.
A verdade é que Pedro mandou trasladar o corpo de Inês para o Mosteiro de Alcobaça, onde mandou construir dois magníficos túmulos para que pudessem descansar juntos para sempre.
Essa história de amor proibido, traição e vingança é muitas vezes comparada à de Romeu e Julieta, mas com a diferença de que é uma história real que marcou profundamente a história de Portugal. Eu sempre tive um encantamento com essa história, sem saber da minha descendência.
Eles tiveram três filhos: Beatriz, João e Dinis. Foi João que originou a linha dos meus antepassados até o meu bisavô materno Idelfonso de Castro Deus, meu avô Rêmolo de Castro Deus e minha mãe Marli Miranda de Castro Ribas. Vinte e duas gerações e 705 anos depois, estou aqui, feliz e sensibilizado por ser a 22ª geração fruto deste grande amor, portanto eu sou o trineto de vigésimo segundo grau de Pedro e Inês.
Ainda hoje, os túmulos de Pedro I e Inês de Castro estão localizados no Mosteiro de Alcobaça, em Portugal. Eles são verdadeiras obras-primas da escultura gótica portuguesa, construídas entre 1358 e 1367. Os túmulos estão posicionados frente a frente no transepto da igreja do mosteiro, de modo que, segundo a lenda, quando ressuscitarem, possam se ver imediatamente.
Estou indo à Portugal em junho para o lançamento do meu novo livro, Glória aos Heróis nas Feiras de Lisboa e do Porto, além de um lançamento em uma livraria portuguesa e com toda a certeza visitarei o túmulo de meus ancestrais de meus trisavós Pedro e Inês.
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