"Bem-vindo ao espaço literário de Mauricio Ribas! Aqui, compartilho minha jornada como escritor, explorando histórias, reflexões e debates sobre leitura e escrita. Se você ama literatura e busca inspiração, este blog é o seu ponto de encontro!"
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quarta-feira, 25 de março de 2026
Um texto argumentativo convence. Um romance transforma.
Há livros que passam. Outros permanecem. E há aqueles, mais raros, que não apenas permanecem, eles se instalam em silêncio dentro de quem os leu. Um romance, quando verdadeiro, não se limita a contar uma história. Ele cria uma espécie de vida paralela, uma existência provisória na qual o leitor se vê lançado sem perceber exatamente quando começou.
Ao mergulharmos na história, já não estamos apenas lendo: estamos vivendo. Caminhamos com os personagens, sofremos com eles, hesitamos diante de suas escolhas. E o mais curioso é que o cérebro não distingue com tanta clareza essa fronteira entre o vivido e o imaginado. Aquilo que se lê, de certo modo, acontece.
Talvez seja por isso que a literatura atinge onde outros discursos não alcançam. Um argumento tenta convencer; um romance, não. Ele não pede concordância, ele envolve. Não explica o mundo, mas o faz sentir. E, ao sentir, o leitor começa a compreender de outra maneira, mais profunda e menos defensiva.
Há uma transformação silenciosa que se opera nesse processo. Não é imediata, nem estrondosa. O leitor não fecha o livro e declara ter mudado. Ao contrário: muitas vezes nem percebe. Mas algo se desloca. Uma certeza antiga se enfraquece. Um julgamento rápido já não parece tão seguro. O mundo, antes organizado em linhas simples, passa a revelar zonas de sombra.
Isso acontece porque o romance cria algo raro: a experiência do outro por dentro. Não se trata apenas de entender uma dor, mas de habitá-la. Não é apenas reconhecer um conflito, mas sentir o peso das escolhas que o sustentam. E, uma vez que isso ocorre, torna-se difícil voltar ao estado anterior. A simplificação perde força. A indiferença já não se sustenta com a mesma facilidade.
O que fica não são necessariamente ideias, essas o tempo apaga. O que permanece são imagens, sensações, fragmentos de humanidade: uma perda que doeu como se fosse própria, um gesto de amor que interrompeu a leitura por um instante, uma decisão que ecoou além da página. Essas experiências se alojam na memória emocional, e é a partir delas que o leitor passa a ver, ainda que discretamente, com outros olhos.
No fim, talvez seja esse o verdadeiro poder da literatura. Não oferecer respostas prontas, nem resolver as tensões do mundo, mas impedir que elas sejam ignoradas. Um bom romance não ensina o leitor a pensar, ele o impede de continuar pensando da mesma forma. E essa mudança, quase imperceptível, é também a mais duradoura.
segunda-feira, 9 de março de 2026
O paradoxo que diz algo essencial sobre a condição humana
Há algo profundamente desconcertante na maneira como a história humana parece escolher seus protagonistas. Quando olhamos para trás, para aqueles que marcaram o mundo, na religião, na arte, no pensamento, quase nunca encontramos vidas lineares, limpas, heroicas no sentido clássico. Pelo contrário, encontramos falhas, contradições, quedas e impulsos desordenados. Encontramos homens e mulheres profundamente humanos.
Talvez seja por isso que a história de Paulo de Tarso cause tanto espanto. Antes de ser Paulo, ele era Saulo, o perseguidor. Um homem convencido de que defendia a verdade ao combater os cristãos. Participou da perseguição, aprovou a morte de Estêvão e acreditou estar fazendo o que era justo. Nada em sua trajetória parecia apontar para o homem que mais tarde atravessaria o mundo romano pregando o Evangelho.
Algo semelhante ocorre com Pedro Apóstolo. Pedro promete fidelidade absoluta. Pouco depois, diante do medo, nega conhecer Jesus três vezes. É um dos episódios mais humanos de todo o Evangelho. A coragem que se desfaz diante da ameaça, o coração que vacila quando o risco se torna real. Ainda assim, é esse homem falível, impulsivo e frágil que se torna a pedra sobre a qual se edifica a Igreja.
Se olharmos com atenção, esse padrão se repete inúmeras vezes na história. Não apenas na religião, mas também na arte e na literatura. Vincent van Gogh escrevia cartas desesperadas pedindo tinta ao irmão. Ernest Hemingway terminou a vida testando o próprio rifle. Fyodor Dostoevsky esteve diante de um pelotão de fuzilamento antes de se tornar um dos maiores romancistas da história. Federico García Lorca foi assassinado numa estrada durante a Guerra Civil Espanhola.
Nenhum deles corresponde à imagem do herói perfeito. Todos carregavam fissuras profundas. E, no entanto, foi através dessas vidas imperfeitas que surgiram obras capazes de atravessar o tempo e iluminar gerações.
O poeta Charles Bukowski percebeu esse paradoxo com brutal clareza. Em seu poema Feras Saltando Através do Tempo, ele reúne uma espécie de galeria de artistas quebrados pela vida. Van Gogh pedindo tinta ao irmão, Hemingway testando seu rifle, Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade, Sylvia Plath com a cabeça no forno, Lorca assassinado na estrada. A cada exemplo, o poeta repete a mesma constatação dura e simples: “a impossibilidade de ser humano”. E ainda assim, apesar de todas essas ruínas, Bukowski termina reconhecendo que esses homens e mulheres continuam movendo “esse pedacinho de luz em direção a nós, impossivelmente”.
Talvez exista aqui um paradoxo que diz algo essencial sobre a condição humana. Não são os perfeitos que movem o mundo. São aqueles que, apesar de suas falhas, respondem a um chamado.
Esse chamado pode assumir muitas formas. Para alguns, é a fé. Para outros, a arte. Para outros ainda, a tarefa de construir algo maior do que a própria vida, uma ideia, uma comunidade, uma esperança. O ponto comum não está na pureza moral, mas numa inquietação interior que impede certas pessoas de viver apenas na superfície das coisas.
Há um pensamento frequentemente atribuído a Fyodor Dostoevsky segundo o qual no coração do homem existe um vazio do tamanho de Deus. Talvez seja essa falta, esse espaço interior que nunca se preenche completamente, que impulsiona o ser humano a buscar algo maior do que si mesmo. A fé nasce daí, mas também nascem daí a arte, a filosofia e a literatura.
Os escritores sabem bem disso. Muitos passam a vida inteira burilando frases, corrigindo páginas, voltando incansavelmente sobre as mesmas palavras. Buscam a forma justa, a expressão exata, a cadência perfeita. Não porque sejam perfeitos, mas precisamente porque sabem que não o são. A imperfeição que carregam dentro de si torna-se, paradoxalmente, o motor de uma busca incessante por beleza e verdade.
Talvez escrevam assim porque amam essa tarefa e sentem que foram chamados a ela. Por isso revisam um parágrafo dezenas de vezes, como um artesão paciente diante de uma pedra bruta. Não para esconder suas falhas, mas para responder com o melhor que possuem a essa vocação silenciosa.
No fundo, a verdadeira medida de um ser humano talvez não esteja em nunca falhar. A história mostra justamente o contrário. O que parece distinguir certas vidas é a capacidade de reconhecer, mesmo em meio às próprias quedas, uma voz que as chama para algo maior e de responder a ela com perseverança.
A grandeza humana raramente nasce da perfeição. Ela nasce da coragem de continuar caminhando, de continuar criando, de continuar acreditando, mesmo quando sabemos que somos feitos da mesma matéria imperfeita de todos os homens. Ainda assim, algumas pessoas escutam o chamado e respondem. E é nessa resposta, imperfeita e persistente, que algo de extraordinário se torna possível.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Crônica – O Pinguim que Partiu para as Montanhas
Há imagens que não pertencem apenas ao mundo natural, mas ao reino da poesia. Uma delas é a do pinguim que, em meio ao seu bando, decide romper o destino coletivo e partir sozinho, em direção às montanhas geladas, onde não há alimento, nem colônia, nem sobrevivência.
Esse gesto, aparentemente insano, tornou-se metáfora. O pinguim que se afasta é o ser humano que ousa quebrar o círculo da repetição, que se recusa a seguir o caminho seguro, que escolhe a solidão como forma de liberdade. É loucura, dizem alguns. É resistência, dizem outros. É busca espiritual, afirmam os que enxergam além da lógica.
Naquele caminhar trôpego, há uma poesia silenciosa: o animal que se torna símbolo da alma inquieta, que não se contenta com o abrigo da multidão. Ele parte, mesmo sabendo que a morte o espera, como quem busca um sentido maior do que a sobrevivência.
A cena nos fere porque revela nossa própria condição. Quantos de nós já sentimos o impulso de abandonar o bando, de seguir um caminho incompreensível, de buscar montanhas interiores onde talvez não haja nada além de silêncio? O pinguim é o espelho da liberdade radical, da loucura que nos habita, da resistência contra o destino imposto.
E talvez seja também um ato espiritual. Porque há quem veja, nesse caminhar solitário, uma prece. Uma entrega ao mistério. Uma recusa em aceitar que a vida se resume a comer, reproduzir, sobreviver. O pinguim que parte é o monge que se retira, é o poeta ou escritor que se isola, é o visionário que escolhe o deserto.
Para a humanidade, essa imagem é um chamado. Um lembrete de que dentro de nós existe sempre a possibilidade de romper o bando, de buscar o impossível, de caminhar para montanhas que não prometem nada além de silêncio e transcendência.
O pinguim que parte sozinho não é apenas um animal perdido. É um ato poético. É a metáfora viva da liberdade, da loucura, da resistência e da busca espiritual. É um canto trágico e sublime de rebelião.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
CAMUS ARENDT E BEAUVOIR - O DIREITO DE EXISTIR E A PENA DE MORTE
Arendt, Beauvoir e Camus partem de um mesmo solo histórico, o trauma do nazismo, da ocupação e do genocídio, mas constroem respostas distintas diante da pergunta mais dura do pós-guerra: como julgar o crime absoluto sem nos tornarmos cúmplices de outra violência absoluta?
Hannah Arendt, ao analisar o caso Eichmann, desloca o debate da psicologia do criminoso para o campo político. Eichmann não é um demônio excepcional, mas um homem comum que abdicou do pensamento. Essa “banalidade do mal” não o absolve; ao contrário, o condena. Para Arendt, Eichmann deve morrer não por vingança nem por exemplaridade moral, mas porque rompeu o fundamento da convivência humana. Ele participou de um sistema que negou a milhões o direito de existir no mundo comum. A pena de morte, nesse sentido, não é catarse, mas um reconhecimento jurídico de que há crimes que expulsam o sujeito da comunidade política dos vivos.
Simone de Beauvoir chega a uma conclusão semelhante por outro caminho. No caso de Robert Brasillach, ela insiste na responsabilidade existencial. Para Beauvoir, a liberdade humana é inseparável de suas consequências históricas. O intelectual não escreve no vazio: a palavra é ação. Brasillach, ao colaborar ideologicamente com o nazismo, escolheu o ódio e a exclusão; escolheu, portanto, as mortes que ajudou a legitimar. Beauvoir aceita a execução não com frieza jurídica, mas com consciência trágica: trata-se de uma decisão amarga, quase um fracasso moral coletivo, porém inevitável diante da gravidade do crime. A pena de morte não é celebrada; é suportada.
Albert Camus, por sua vez, rompe com ambas. Também marcado pela resistência e pela violência do século, ele recusa a pena capital em qualquer circunstância. Para Camus, o assassinato cometido pelo Estado, mesmo contra um assassino, destrói a possibilidade de uma justiça verdadeiramente humana. Em Reflexões sobre a guilhotina, ele afirma que a pena de morte não repara o mal cometido; apenas o prolonga sob outra forma. Onde Arendt vê a necessidade de afirmar um limite político, e Beauvoir aceita a punição como tragédia inevitável, Camus enxerga uma contradição insuperável: matar em nome da vida é negar o próprio valor que se pretende defender.
O diálogo entre os três não é uma disputa simples entre “a favor” e “contra”. Arendt pensa o crime a partir do mundo comum e da política; Beauvoir, a partir da liberdade e da responsabilidade individual; Camus, a partir da dignidade humana levada até suas últimas consequências. Os três concordam em algo essencial: não há inocência possível diante da barbárie. Divergem, porém, na resposta final. Arendt e Beauvoir admitem que certos crimes colocam a humanidade diante de decisões-limite. Camus se recusa a atravessar esse limite.
Esse desacordo não enfraquece o debate, ao contrário, o torna mais humano. Ele revela que, após Auschwitz, qualquer reflexão sobre justiça carrega uma ferida aberta: como punir o mal sem reproduzi-lo? Cada um oferece uma resposta distinta, e nenhuma é confortável. Talvez seja justamente aí que reside a força desse diálogo.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Crônica – As amizades perigosas - Bandido bom é bandido amigo
Há amizades que dizem mais do que discursos. Donald Trump, com seu sorriso calculado e seus gestos de proximidade, sempre soube escolher bem os companheiros de palco. Entre eles, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu — nomes que carregam não apenas poder, mas também acusações pesadas de crimes de guerra, com mandados de prisão expedidos pelo Tribunal Penal Internacional.
É curioso observar como esses laços se entrelaçam. Putin, com sua guerra que devora vidas na Ucrânia; Netanyahu, com a necropolítica que bombardeia, sufoca e expande assentamentos; ambos, figuras que transformaram a violência em instrumento de governo. E Trump, ao lado deles, como quem legitima, pela amizade, a brutalidade travestida de estratégia.
Do outro lado, surge Nicolás Maduro. Ditador, sim, e não há como negar. Mas sua sombra, por mais longa que seja, não alcança as dimensões das mortes provocadas por Putin e Netanyahu. Maduro é lembrado pela repressão, pela fome que corrói a Venezuela, mas ainda assim sua figura não se distancia tanto dos outros dois — apenas se mede em escala.
O contraste é revelador: Trump se aproxima dos que carregam o peso de genocídios e guerras, enquanto o mundo se ocupa em capturar Maduro.O pior é que tem gente que comemora a morte anunciada do Direito Internacional. A pergunta que fica é: por que alguns ditadores são tratados como monstros absolutos, enquanto outros, com crimes ainda maiores, são recebidos como aliados estratégicos?
Na política internacional, a justiça parece ter olhos seletivos. E é nesse jogo de conveniências que se revela a verdadeira crônica do nosso tempo: a paz é sempre adiada, a violência sempre justificada, e os amigos de Trump continuam a escrever, com sangue, as páginas mais sombrias da história contemporânea.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
A Hipocrisia da Mídia: Entre o Incêndio na Suíça e os Bombardeios em Gaza
O início do ano novo foi marcado por uma tragédia na Suíça: jovens morreram em um incêndio em um bar de uma pequena cidade, que tem uma famosa estação de esqui. A mídia internacional não tardou em cobrir cada detalhe, especular sobre as causas e exibir apresentadores visivelmente consternados e profundamente sensibilizados diante das câmeras. A comoção foi imediata, os discursos de pesar se multiplicaram e a narrativa ganhou espaço privilegiado nos noticiários.
No entanto, essa mesma mídia parece incapaz de demonstrar igual consternação diante da realidade brutal que se desenrola em Gaza. Há mais de dois anos, milhares de pessoas — homens, mulheres e crianças — têm sido mortas em bombardeios diários, despedaçadas ou carbonizadas por armas israelenses com apoio explícito dos Estados Unidos. A repetição da violência, a impunidade e o silêncio cúmplice transformaram o massacre em rotina invisível.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando um líder, como Benjamin Netanyahu, aparece em um evento social, tranquilamente assistindo a queimas de fogos na residência de Donald Trump em Mar-a-Lago, localizada em Palm Beach, mesmo com mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional, por crimes de guerra cometidos. A normalização dessa presença contrasta com a cobertura sensacionalista de tragédias europeias, revelando um padrão seletivo de indignação.
O que se expõe, portanto, é uma hipocrisia estrutural: vidas europeias, brancas e ricas são tratadas como preciosas e dignas de luto coletivo, enquanto vidas palestinas, pobres e de pele escura são relegadas ao esquecimento. A mídia, ao reproduzir esse desequilíbrio, reforça uma hierarquia implícita de quem merece compaixão e quem pode ser descartado.
Não se trata de negar a dor das famílias suíças, mas de denunciar a falsa universalidade da solidariedade midiática. O mundo chora quando a tragédia atinge os privilegiados, mas permanece indiferente quando a barbárie se repete contra os despossuídos. Essa seletividade revela que, no fundo, não é a humanidade que importa, mas o lugar social e racial de quem sofre. A inescrupulosa mídia em verdade não se importa com nada, apenas em faturar bilhões e fazer o jogo do sistema.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Resenha Crítica do livro Turning Point - Até que ponto você mudaria a sua história?
Maurício Ribas, em *Turning Point*, constrói uma obra que se inscreve na tradição da literatura contemporânea de caráter híbrido, situada entre o romance introspectivo e o texto motivacional. A narrativa não se limita a contar uma história, mas se propõe como experiência de leitura que interpela diretamente o leitor, convidando-o a refletir sobre os momentos decisivos de sua própria trajetória.
A obra apresenta uma **estrutura fragmentada**, alternando episódios narrativos com reflexões filosóficas. Essa forma não-linear funciona como metáfora da própria experiência humana, marcada por rupturas e recomeços. O estilo de Ribas é **confessional e oralizado**, criando proximidade com o leitor. A cadência discursiva aproxima-se da conversação, mas é permeada por imagens poéticas — o tempo como rio, o passado como sombra, o futuro como horizonte.
O livro problematiza a relação entre **escolha e destino**, **arrependimento e reconstrução**, propondo que cada “turning point” é uma oportunidade de reescrever a própria história. Nesse sentido, Ribas dialoga com tradições literárias que exploram memória e subjetividade.
Aqui podemos evocar **Paul Ricoeur**, em *A memória, a história, o esquecimento*, ao afirmar que a memória é sempre seletiva e interpretativa. Ribas parece consciente dessa dimensão: ao narrar pontos de virada, mostra que não se trata de fatos objetivos, mas de reconstruções subjetivas que moldam a identidade.
Do mesmo modo, é possível relacionar a obra com **Walter Benjamin**, em seu ensaio *O narrador*. Benjamin observa que a experiência moderna é marcada pela fragmentação e pela perda da transmissão tradicional de sentido. Ribas, ao propor uma narrativa que interpela diretamente o leitor, busca recuperar essa dimensão de experiência compartilhada, transformando o ato de narrar em um gesto de transmissão e reflexão.
Mais do que uma trama ficcional, *Turning Point* se destaca pela sua **dimensão performativa**: o texto funciona como espelho, provocando o leitor a se ver refletido e a se perguntar até que ponto mudaria sua própria história. Essa característica aproxima a obra de uma literatura de testemunho, mas com forte carga filosófica e ética.
*Turning Point* deve ser compreendido como uma obra de fronteira, que transita entre literatura e filosofia prática. Sua relevância reside na capacidade de articular narrativa e reflexão, estética e ética, oferecendo ao leitor não apenas uma história, mas uma experiência de questionamento existencial. Ao propor esse diálogo, Maurício Ribas inscreve-se na tradição de autores que utilizam a literatura como espaço de transformação e de interrogação sobre o sentido da vida.
quinta-feira, 13 de novembro de 2025
Safaris Humanos, crônica da Barbárie: Entre Sarajevo e Gaza
Sarajevo, início dos anos 1990. A cidade que antes pulsava com música, literatura e cafés que reuniam intelectuais, tornou-se o império do medo. O cerco durou quase quatro anos: ruas viraram corredores da morte, mercados se tornaram alvos, e cada travessia era uma roleta russa contra franco-atiradores escondidos nas colinas. Mais de onze mil pessoas morreram, muitas delas apenas tentando buscar água ou pão.
Mas como se a guerra não bastasse, surgiu o espetáculo mais cruel: os chamados “safáris humanos”. Estrangeiros ricos pagavam pequenas fortunas para serem levados às colinas e, de lá, atirar em civis indefesos. Não havia ideologia, não havia causa política. Apenas o entretenimento macabro de transformar a dor em espetáculo. A vida, reduzida a alvo.
Décadas depois, em Gaza, a cena se repetiu sob outra forma. Correspondentes estrangeiros relataram moradores de cidades israelenses próximas que subiam às colinas para assistir aos bombardeios, como quem assiste a um show. Cadeiras de praia, binóculos, lanches. A guerra convertida em evento público. E, em meio à fome, multidões de palestinos que buscavam alimentos foram recebidas com tiros, transformando a necessidade em sentença, num safari desumano permeado de crueldade.
Em Sarajevo, diversão. Em Gaza, controle e intimidação e escárnio. Mas em ambos os casos, o mesmo efeito simbólico: a banalização da vida. A violência convertida em espetáculo, a dignidade humana caçada como um animal selvagem.
Stefan Zweig dizia que os livros existem para nos defender da transitoriedade e do esquecimento. Diante da repetição destes acontecimentos, parece que o mundo escolheu esquecer. O “safári humano” e os tiros contra famintos são testemunhos de que a barbárie não é exceção: ela se repete, muda de cenário, mas mantém o mesmo roteiro. Não podemos permitir o esquecimento, nossas vozes precisam se fazer ouvidas. Não sem razão foi um escritor e jornalista italiano, Ezio Gavazzeni, quem denunciou a prática em Sarajevo.
Hoje, tribunais investigam, jornalistas denunciam, e a memória tenta se recompor. Mas a pergunta permanece: o que fazemos da dor alheia? Transformamos em notícia, em espetáculo, em silêncio? Sarajevo e Gaza nos lembram que o reverso da existência não é apenas a morte, mas a indiferença.
Stefan Zweig: O Último Humanista da Europa Perdida
“Os livros são escritos unicamente para, acima de tudo, unir os seres humanos e, assim, nos defender do inexorável lado oposto de toda a existência: a transitoriedade e o esquecimento.” Essa frase de Stefan Zweig traz embutida uma verdade provocadora. Quem foi esse escritor e qual o seu legado?
Transitoriedade é a ideia de que tudo o que existe está sujeito ao tempo, à mudança e ao fim. Nada permanece eternamente igual. Heráclito (pré-socrático), afirmava: “Tudo flui” (panta rhei). A transitoriedade é a essência da realidade: nada é fixo, tudo está em constante transformação. Já Heidegger pontuava que: o ser humano é um “ser-para-a-morte”. A consciência da transitoriedade dá autenticidade à vida, pois nos lembra que cada instante é único.
Já o esquecimento é a perda da memória, o apagamento daquilo que foi vivido ou pensado. Nietzsche: fala do “esquecimento ativo” como algo necessário para viver, pois sem esquecer não poderíamos suportar o peso do passado. Mas também alerta para o perigo do esquecimento histórico, que apaga lições fundamentais.
Destarte, Zweig nos afirma que os livros, a literatura, nos unem enquanto seres humanos e por isso nos defendem da transitoriedade e do esquecimento. Elementos esses que são o lado oposto de toda a existência.
Em sua obra autobiográfica “O Mundo de Ontem”, escrita pouco antes da morte, Stefan Zweig descreveu a Viena de sua juventude como um lugar de esplendor cultural, onde a música, a literatura e a ciência conviviam em harmonia. Era, segundo ele, uma época em que se acreditava no progresso contínuo e na paz duradoura. Mas esse mundo, que parecia eterno, desmoronou diante da barbárie das guerras e da ascensão do nazismo.
“Nunca antes a geração jovem acreditou tão firmemente na continuidade e na indestrutibilidade daquilo que lhe era dado.” (O Mundo de Ontem)
Essa frase revela a nostalgia de Zweig por uma Europa que se perdeu, um continente que trocou a confiança no futuro pela violência e pelo ódio.
Nascido em Viena em 1881, Zweig foi um escritor cosmopolita, traduzido em dezenas de línguas e lido em todo o mundo. Mas sua trajetória foi marcada pelo exílio: Londres, Nova Iorque e, finalmente, o Brasil. Em Petrópolis, escreveu “Brasil, País do Futuro”, obra que expressava sua esperança em um novo horizonte cultural. Ainda assim, o peso da guerra e da destruição da Europa o mergulhou em um estado de desesperança.
Em 1942, junto de sua esposa Lotte Altmann, decidiu pôr fim à própria vida. Sua carta de despedida falava de gratidão ao Brasil, mas também de uma dor irreparável diante da ruína de sua pátria espiritual.
Zweig via os livros como fragmentos do infinito, pequenos pedaços de uma totalidade maior. Para ele, a literatura era ponte entre povos, guardiã da memória e resistência contra a barbárie. Suas novelas psicológicas — “Carta de uma desconhecida”, “Amok”, “Novela de xadrez” — revelam a fragilidade humana diante da paixão, da solidão e da obsessão. Suas biografias — “Maria Antonieta”, “Maria Stuart”, “Erasmo de Rotterdam” — são retratos que unem rigor histórico e sensibilidade literária.
Mais do que narrativas, seus textos são testemunhos de uma época em que a cultura parecia capaz de salvar o mundo.
Stefan Zweig permanece como símbolo de um humanismo cosmopolita. Sua obra nos lembra que a cultura é frágil, mas também essencial para a sobrevivência da humanidade. Ele foi, em muitos sentidos, o cronista da perda: da Europa que acreditava no progresso, da confiança no futuro, da paz que se desfez.
“Cada sombra é, em última análise, filha da luz.” (O Mundo de Ontem)
Essa frase resume sua visão: mesmo diante da escuridão, a memória da luz permanece. Zweig nos deixou não apenas livros, mas um testemunho pungente de que a literatura pode ser refúgio, resistência e esperança.
Stefan Zweig foi mais do que um escritor: foi um intérprete da alma humana em tempos de crise. Sua vida e obra nos lembram que o “inexorável reverso da existência” — a morte, a perda, o fim — só ganha sentido quando contraposto à beleza da cultura e ao poder da memória.
Ao dizer que os livros nos defendem da transitoriedade e do esquecimento, Zweig aponta para o papel da escrita como memória coletiva: aquilo que resiste ao tempo, preserva experiências e impede que vidas e ideias desapareçam no silêncio da história.
Em resumo, Zweig enxerga a literatura como um ato de resistência contra o esquecimento, uma forma de eternizar o humano diante da finitude inevitável.
domingo, 26 de outubro de 2025
Foi divulgado na imprensa: Maurício Ribas e a virada silenciosa: de heróis em guerra à batalha interior
Por muito tempo, Maurício Ribas foi reconhecido como um autor que dominava o terreno da ficção histórica e da literatura de guerra. Em *Glória aos Heróis*, seu romance mais conhecido, ele constrói uma narrativa tensa e visceral, ambientada no conflito ucraniano, onde o protagonista André Katyuk Richter enfrenta dilemas éticos em meio ao caos bélico. A obra é marcada por ritmo acelerado, linguagem direta e uma atmosfera de urgência — tudo que se espera de um romance de trincheira.
Mas com *Turning Point: Até que ponto você mudaria a sua história?*, Ribas realiza uma virada literária que surpreende e revela uma nova camada de sua voz autoral. O cenário agora não é um campo de batalha, mas a memória. O inimigo não é externo, mas o tempo. E o conflito não se dá entre nações, mas entre versões de si mesmo.
## Do épico ao íntimo
A transição entre os dois livros é mais do que temática — é estrutural. *Turning Point* abandona o épico para abraçar o íntimo. O protagonista não busca glória, mas redenção. Ele revisita momentos decisivos da vida, confronta escolhas mal feitas e se pergunta, como o título sugere, até que ponto seria possível reescrever sua história.
Essa mudança de eixo narrativo — do mundo externo para o mundo interno — revela um autor que se permite explorar novas camadas da experiência humana. Ribas troca o uniforme militar pela roupa civil da alma, e convida o leitor a fazer o mesmo.
## Estilo narrativo: da ação à contemplação
Em *Glória aos Heróis*, a linguagem é técnica, objetiva, quase jornalística. Já em *Turning Point*, a prosa se torna lírica, reflexiva, com pausas que permitem ao leitor respirar junto com o personagem. O tempo narrativo se dilata, e o silêncio entre as palavras ganha protagonismo.
Essa mudança aproxima Ribas de autores como Julian Barnes ou Milton Hatoum, que trabalham com a memória como matéria-prima da ficção. A guerra agora é emocional, e o campo minado é o passado.
## Temas: da coragem física à coragem emocional
Enquanto o romance anterior trata da coragem em campo — enfrentar o inimigo, proteger aliados, sobreviver — *Turning Point* aborda a coragem de revisitar o passado, de encarar arrependimentos, de aceitar que nem tudo pode ser consertado. É uma obra sobre tempo, escolhas e identidade — temas universais que transcendem fronteiras e contextos.
## Construção do protagonista
A evolução do protagonista entre os dois livros é notável. André, antes um homem em conflito com o mundo, torna-se um homem em conflito consigo mesmo. A complexidade psicológica se aprofunda, e o personagem se torna mais humano, mais falível — e, por isso, mais próximo do leitor.
## Conclusão: maturidade literária
A virada de Maurício Ribas não representa uma ruptura, mas uma evolução. Ele mostra que é capaz de transitar entre gêneros, estilos e atmosferas sem perder sua identidade literária. *Turning Point* é uma obra que marca não apenas um ponto de inflexão na vida do personagem, mas também na trajetória do autor.
Ao trocar o barulho das armas pelo sussurro da memória, Ribas nos lembra que há batalhas que não deixam cicatrizes visíveis — mas que moldam quem somos de forma ainda mais profunda.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
"Se eu não reinar, já sei quem reinará"
"Se eu não reinar, já sei quem reinará."
Essa frase teria sido dita em resposta às ameaças de senhores de escravos que, indignados com a iminente abolição da escravidão, avisaram que a Princesa Isabel perderia o trono se assinasse a Lei Áurea. A frase sugere que ela estava disposta a sacrificar seu futuro político em nome da liberdade dos escravizados.
A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888, abolindo oficialmente a escravidão no Brasil. Longe de ser um beneplácito, foi a pá de cal lançada sobre a escravidão, a libertação foi fruto de uma imensa luta de grandes e valorosos brasileiros. Isabel era a regente do Império na ausência de seu pai, Dom Pedro II. A pressão dos abolicionistas, da opinião pública e das revoltas de escravizados tornava a abolição inevitável. Muitos senhores de escravos ficaram revoltados, pois não houve indenização — e isso contribuiu para o fim da monarquia no ano seguinte, em 1889.
A frase “Se eu não reinar, já sei quem reinará”, atribuída a Isabel, é geralmente entendida como uma expressão de fé — sugerindo que, mesmo que ela perdesse o trono por abolir a escravidão, Deus reinaria, ou que a justiça prevaleceria. No entanto, entendo que a monarca quis dizer algo diferente.
Isabel talvez estivesse reconhecendo que, caso ela não governasse, as elites brasileiras — especialmente os senhores de escravos — continuariam a dominar o país. Essa leitura é bastante plausível, especialmente se considerarmos que a monarquia estava enfraquecida e isolada politicamente; que a abolição da escravidão sem indenização gerou forte oposição das elites agrárias; e que o golpe republicano de 1889 foi liderado por setores militares e civis ligados a essas elites.
Ao assinar a Lei Áurea, Isabel pode ter percebido que estava rompendo com os interesses dominantes, e que isso teria consequências políticas. Nesse sentido, a frase externava uma crítica velada: se ela não reinasse, os mesmos que exploravam os escravizados continuariam a reinar, sob outra forma de governo opressor.
Infelizmente — ou desgraçadamente — as elites dominantes no Brasil de hoje são frequentemente criticadas por manterem privilégios históricos e resistirem a reformas estruturais que promovam maior equidade social. Elas influenciam fortemente o sistema político, econômico e midiático, muitas vezes em benefício próprio. Persistem na concentração de renda, terra e poder, enquanto grande parte da população enfrenta desigualdade e precarização. Seu discurso tende a valorizar o mérito individual, ignorando barreiras sistêmicas. Essa elite também é vista como pouco comprometida com a justiça social e ambiental.
Isabel vaticinou. Ela estava mais do que certa.
MAURICIO RIBAS
terça-feira, 14 de outubro de 2025
Camus o papel das gerações e o artista
Albert Camus afirmou que “cada geração, sem dúvida, sente-se chamada a refazer o mundo”. Isso reflete uma visão sobre o impulso humano de buscar mudanças, progresso e renovação social. No entanto, ele reconhece que sua própria geração percebe que não conseguirá “refazer o mundo”, mas que sua tarefa pode ser ainda maior: impedir que o mundo se destrua. Pelo jeito a minha geração, melhor dizendo a nossa, está imbuída do mesmo “travail”, cada vez mais urgente e necessário.
Camus estava falando de um contexto histórico marcado por guerras, crises e desilusão, especialmente após a Segunda Guerra Mundial. Ele sugere que, diante da impossibilidade de criar um mundo totalmente novo, o papel fundamental é preservar o que existe, evitar a destruição e proteger valores essenciais. Essa ideia é profundamente ética: não é apenas sobre criar, mas sobre responsabilidade diante do risco de destruição. Em meu livro “Questões Polêmicas – Relações Internacionais”, editora Viseu, eu abordo a imperiosa tarefa de proteger nosso planeta.
Camus diz que “o dever do artista não é servir-se da história, mas servi-la com verdade e liberdade”. O artista, para Camus, não deve usar a história apenas como ferramenta para seus próprios fins ou para manipulação ideológica. O verdadeiro compromisso do artista é com a verdade e a liberdade: ele deve ser honesto em sua expressão e livre de amarras políticas ou sociais que distorçam sua arte. Isso implica uma postura ética e autônoma, em que o artista contribui para a compreensão e preservação da história, sem se submeter a interesses externos.
Essas ideias permanecem intensamente atuais. Em tempos marcados por crise ambiental, polarização política e ameaças à liberdade de expressão, a mensagem de Albert Camus sobre responsabilidade coletiva e integridade artística ressoa como um chamado urgente à ação consciente e ética. Como escrevo em meu livro supracitado:
“Precisamos preencher nossas fissuras — as fissuras do nosso planeta — antes que seja tarde, colando nossos pedaços sem ignorar as causas e consequências de tudo o que fizemos, reparando, assim, nossos equívocos e nossas mazelas.” É justamente por meio da fragilidade e das rachaduras que a graça de Deus pode brilhar. A verdade não se impõe pela força, mas se revela nas brechas — e é nelas que mora a possibilidade de redenção.
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domingo, 12 de outubro de 2025
Se eu me calar as pedras falarão
Jesus, filho de Maria, entrou em Jerusalém montado em um jumentinho, em um episódio conhecido como a Entrada Triunfal. Multidões de discípulos o saudavam com alegria, proclamando: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor!”. Incomodados com essa aclamação pública, alguns fariseus pediram que Jesus repreendesse seus seguidores. Ele então respondeu com uma frase poderosa: a verdade e a glória de Deus não podem ser silenciadas; se os homens se calarem, até as pedras clamarão.
As pedras, aqui, simbolizam a própria natureza como testemunha da ação divina. Jesus sugere que a revelação não depende da aprovação humana — ela é inevitável. Essa resposta desafia qualquer tentativa de suprimir a expressão da fé, mostrando que a verdade transcende o controle religioso ou político.
Estou escrevendo um livro, provavelmente intitulado “Isaac e Ishmael”, um romance histórico que narra a saga de palestinos e judeus nos últimos 108 anos. Meu objetivo é expor ao mundo a verdade, ainda que sob o véu da ficção, como dizia Eça de Queiroz. É importante destacar: a verdade transcende o controle político. Essa convicção nos fortalece, pois, se nos calarmos, as pedras falarão.
Na Palestina ocupada, as pedras não são apenas objetos; são vestígios de casas demolidas, ruínas de aldeias apagadas, túmulos sem nome. Elas guardam a memória dos que foram expulsos, dos que morreram, dos que resistem em silêncio. Assim como na fala de Jesus, as pedras em minha narrativa são metáforas da verdade que insiste em emergir, mesmo quando tentam silenciá-la.
Isaac e Ishmael, na obra, simbolizam linhagens entrelaçadas — dois povos que, apesar da dor, compartilham raízes. A paz não virá da negação do sofrimento, mas da escuta profunda do que foi silenciado. É preciso falar, não para acusar, mas para lembrar. E lembrar é o primeiro passo para a reconciliação.
Renunciar à violência é fundamental. Gandhi liderou a independência da Índia contra o Império Britânico com a “força da verdade”, escolhendo a resistência moral e a não violência, mesmo diante de um regime brutal. Mandela, que inicialmente apoiou ações armadas contra o apartheid, após 27 anos de prisão, emergiu com uma visão transformadora: a liberdade não se conquista com vingança, mas com reconciliação. Portanto, para resolver a questão palestina, é necessária uma profunda transformação humana.
Linha do tempo do conflito Israel–Palestina:
• 1897–1917: Raízes do conflito
o 1897: Primeiro Congresso Sionista propõe a criação de um lar nacional judaico.
o 1917: Declaração Balfour (Reino Unido) apoia a criação de um Estado judeu na Palestina.
• 1918–1947: Mandato Britânico
o Palestina sob administração britânica após a queda do Império Otomano.
o Crescimento da imigração judaica e aumento das tensões com a população árabe local.
• 1947–1949: Partilha e Guerra
o 1947: ONU propõe a divisão da Palestina em dois Estados (judeu e árabe).
o 1948: Criação do Estado de Israel e início da primeira guerra árabe-israelense.
o Cerca de 700 mil palestinos são deslocados (Nakba).
• 1956–1973: Guerras regionais
o 1956: Crise de Suez — Israel invade o Sinai com apoio britânico e francês.
o 1967: Guerra dos Seis Dias — Israel ocupa Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Golã.
o 1973: Guerra do Yom Kippur — Egito e Síria atacam Israel; conflito termina com cessar-fogo.
• 1987–1993: Primeira Intifada
o Levante popular palestino contra a ocupação israelense.
o Surgimento do Hamas como força política e militar.
o 1993: Acordos de Oslo — tentativa de paz e criação da Autoridade Palestina.
• 2000–2005: Segunda Intifada
o Estopim: visita de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas.
o Intensificação de ataques suicidas e repressão militar.
o Milhares de mortos de ambos os lados.
• 2006–2014: Conflitos em Gaza
o 2006: Hamas vence eleições palestinas.
o 2008–2009: Operação Chumbo Fundido — Israel bombardeia Gaza.
o 2014: Guerra de 50 dias — mais de 2.200 palestinos mortos, 70 israelenses.
• 2018–2021: Tensões recorrentes
o Protestos na fronteira de Gaza resultam em centenas de mortes.
o 2021: Conflito em Jerusalém e nova escalada militar entre Israel e Hamas.
• 2023–2025: Guerra em Gaza
o 7 de outubro de 2023: Hamas lança ataque surpresa, matando mais de 1.200 israelenses.
o Israel responde com ofensiva massiva — mais de 67 mil palestinos mortos até 2025.
o Negociações de paz mediadas por Donald Trump em andamento.
Diante de tanta dor e resistência, é impossível não se comover e se indignar com o nosso silêncio, porque se as pedras começarem a falar é porque falhamos como humanidade. A metáfora aqui apresentada, nos lembra que, mesmo quando a voz humana é calada ou se cala por covardia ou oportunismo, a verdade encontra caminhos para se manifestar. O sofrimento de palestinos e judeus, entrelaçado ao longo de gerações, clama por reconhecimento e escuta.
A esperança de reconciliação nasce justamente desse ato de lembrar e dar voz ao que foi silenciado. Não se trata de buscar culpados, mas de reconhecer a humanidade compartilhada, a dor comum e o desejo profundo de paz. O caminho é difícil, mas só será possível quando houver coragem para ouvir, dialogar e transformar a dor em aprendizado.
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sábado, 30 de agosto de 2025
Foi divulgado pela Imprensa
📰 **Cultura & Literatura | Destaque Nacional**
### Romance sobre amor e guerra é finalista do 2º Prêmio Candango de Literatura
**Brasília** — O romance *Glória aos Heróis: Um Amor em Meio à Guerra da Ucrânia*, do escritor curitibano Maurício Ribas, foi anunciado como finalista na categoria Romance do 2º Prêmio Candango de Literatura, uma das mais prestigiadas premiações literárias do país.
A obra, publicada pela editora Ipê das Letras, narra a trajetória de André Katyuk Richter, um ex-militar brasileiro que se muda para a Estônia em busca de uma nova vida e acaba se apaixonando por Maaria Saar, uma ativista dos Direitos Humanos. Com o início da guerra na Ucrânia, André decide se alistar como voluntário, enfrentando os horrores do conflito e o dilema entre o amor e o dever.
O Prêmio Candango, promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, tem como objetivo valorizar a produção literária em língua portuguesa e consolidar Brasília como polo cultural internacional. A segunda edição do prêmio recebeu centenas de inscrições de autores lusófonos, reafirmando seu papel como vitrine da literatura contemporânea.
Maurício Ribas, que já se destacou por sua atuação nas áreas de diplomacia e filosofia, celebra a indicação como reconhecimento à força da literatura engajada. “Este romance é uma homenagem aos que lutam não apenas com armas, mas com ideias e sentimentos. Ser finalista do Candango é uma honra que compartilho com todos que acreditam no poder transformador da palavra”, declarou o autor.
📚 A cerimônia de premiação está prevista para o final do ano, em Brasília, com presença de escritores, editores e autoridades culturais.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
Foi divulgado na imprensa – LANÇAMENTO DE LIVRO "Turning Point" Até que ponto você mudaria a sua história?
Maurício Ribas reúne arte, reflexão e emoção em noite memorável no Espaço Nina em Curitiba, PR – Outubro de 2025
No dia 01 de outubro, o escritor curitibano Maurício Ribas lançou seu mais novo livro, Turning Point – Até que ponto você mudaria a sua história?, em um evento marcante realizado no elegante Espaço Nina, no coração de Curitiba. A noite reuniu artistas, intelectuais, representantes da sociedade civil e leitores apaixonados, que prestigiaram o autor em uma celebração de ideias, beleza e consciência.
A obra, publicada pela Editora Multifoco, é um convite à introspecção. Com linguagem poética e filosófica, Turning Point propõe uma reflexão sobre o tempo, a consciência e a beleza silenciosa daquilo que, mesmo imperfeito, é verdadeiramente nosso. É um livro que fala sobre a vida — não como ela deveria ser, mas como ela é, com suas curvas, pausas e revelações.
“Este livro nasceu da necessidade de olhar para dentro. É sobre os momentos em que tudo muda, mesmo que nada pareça diferente por fora.” – Maurício Ribas.
Maurício Ribas é escritor, advogado e ativista. Formado pela Escola de Diplomacia da Estônia, com especialização em União Europeia e Relações Internacionais, e pós-graduado em Literatura, Filosofia e Arte pela PUC-RS, Ribas é membro da Anistia Internacional e da ICAN, com atuação em causas humanitárias e pacifistas. Já publicou obras como Ingel Addae, Questões Polêmicas – Relações Internacionais e Glória aos Heróis.
📚 Onde encontrar:
Turning Point está disponível na loja da Editora Multifoco
Formato físico e eBook, bem como na Amazon e Google Play
ISBN: [978-65-987927-0-1]
📣 Contato para imprensa e entrevistas
E-mail: [mauricio.dc.ribas@gmail.com]
Instagram: [@mauricioribas.pr]
Site oficial: www.mauricioribas.blogspot.com
sexta-feira, 4 de julho de 2025
As duas coisas infinitas
Albert Einstein disse uma vez: "Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta." Trata-se de uma crítica mordaz de Einstein, à irracionalidade que frequentemente domina o comportamento humano. Para Einstein, que era judeu, o verdadeiro perigo não estava apenas nas forças da natureza, mas na capacidade humana de agir contra a razão, mesmo diante de evidências claras.
Prova disso, são os números oficiais em Gaza, que denunciam que 18.800 crianças, foram mortas pelas forças de defesa de Israel. Refletindo sobre a monstruosidade desses dados, me dei conta que se colocássemos uma criança sobre o ombro da outra, tendo cada criança em média 1,10 m, a altura total seria maior que o Burj Khalifa, 828 m, mais de 23 vezes; mais alto que o Monte Everest, 8.848 m, mais que o dobro; seriam quase 20 km de altura, algo que ultrapassaria até mesmo a estratosfera.
Santo Deus! Estes números são os oficiais, porém está claro que esse número pode chegar ao dobro ou mais, porque nestes números não constam as crianças desaparecidas, aquelas que possivelmente estão sob as milhões de toneladas de escombros de milhares de casas, prédios, escolas, universidades, bibliotecas, hospitais, destruídos por Israel, sob a alegação falaciosa e espúria do direito de defesa. Para aqueles que não sabem os limites da legítima defesa são repelir uma agressão injusta, atual ou iminente, contra si ou contra terceiros, usando moderadamente os meios necessários para se proteger. A legítima defesa não é licença para violência indiscriminada. Fora isso, é assassinato mesmo, – ASSASSINATO. Importante lembrar que até para a guerra existem limites, bem fixados pelo Direito Internacional e é preciso que se diga que Israel já ultrapassou todos, e por isso cometeu e está cometendo vários crimes de guerra.
Vou um pouco mais além e explicar aos idiotas de plantão, porque Israel comete crimes de guerra mesmo alegando o Direito de Defesa. No Direito Internacional, o direito de legítima defesa entre Estados está consagrado no Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, e é uma das poucas exceções à proibição geral do uso da força nas relações internacionais. O que diz o Artigo 51 da Carta da ONU? Diz que: “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva no caso de um ataque armado contra um Membro das Nações Unidas...”
Ou seja, um Estado pode usar a força militar apenas se for atacado primeiro, ou com autorização do Conselho de Segurança da ONU, no entanto, para que a legítima defesa seja considerada lícita, é necessário: Ataque armado prévio. A resposta deve ser urgente e inevitável, sem alternativas diplomáticas viáveis, no entanto a Carta fala da proporcionalidade, isto é, a reação deve ser proporcional à agressão sofrida. Pergunto:Onde está a proporcionalidade?
O governo israelense é sem qualquer sombra de dúvida, terrivelmente responsável por todas estas mortes de crianças em Gaza, sem falar nas mortes de homens e mulheres inocentes assassinados sem o menor escrúpulo. Neste exato momento, morrem centenas de civis, principalmente crianças, de fome, vítimas da desnutrição. A fome está sendo utilizada como instrumento de guerra. Os soldados da IDF, divertem-se atirando nos civis que atraídos pela distribuição de algum alimento, entram em filas aos milhares e são vítimas de atiradores.
Voltando a Einstein, essa crítica sobre a estupidez humana, não era gratuita. Einstein viveu em uma era marcada por guerras mundiais, genocídios, preconceitos e o uso destrutivo da ciência — como a criação da bomba atômica, da qual ele próprio se arrependeu de ter contribuído indiretamente. Ele compreendia que o conhecimento técnico, sem sabedoria moral, poderia ser fatal. Einstein previu sobre os nossos dias, onde o conhecimento é em grande parte desprovido de sabedoria moral. Mas não apenas isso. O que pensar de nossa espécie e dos rumos que estamos tomando? Onde está a humanidade — esse atributo que nos diferencia, ou diferenciava, de outras espécies? O mundo se cala diante dessas barbáries. No entanto, haverá um dia em que a justiça triunfará, e todas as lágrimas serão enxugadas. Palestina livre.
#LiteraturaDeResistência #PalestinaLivre
#MauricioRibasEscritor #ArtePorPalestina
#NarrativasRevolucionárias #EscritorMilitante
sexta-feira, 20 de junho de 2025
O que a história de Ruby Bridges conta sobre a humanidade e o problema com qual todos continuamos vivendo?
Imagine uma garotinha de apenas seis anos, caminhando com passos firmes entre uma multidão hostil, escoltada por quatro agentes federais. Essa é a imagem icônica de Ruby Bridges, a primeira criança negra a integrar uma escola primária de brancos no sul dos Estados Unidos, em 1960. Sim ontem, apenas 65 anos passados.
Ruby nasceu em 1954, no Mississippi, e cresceu em uma época em que, apesar da decisão da Suprema Corte americana de acabar com a segregação nas escolas, muitos estados do sul resistiam ferozmente à mudança. Quando sua família se mudou para Nova Orleans, sua mãe se voluntariou para que Ruby participasse de um programa de integração escolar. Ela foi a única entre seis crianças negras a ser designada para a Escola William Frantz.
No seu primeiro dia de aula, Ruby enfrentou uma multidão de manifestantes brancos gritando insultos racistas. Muitos pais tiraram seus filhos da escola, e todos os professores, exceto uma — Barbara Henry — se recusaram a ensiná-la. Ruby passou o ano inteiro tendo aulas sozinha com a professora, que a tratava com carinho e respeito.
A coragem de Ruby foi eternizada na pintura The Problem We All Live With (O problema com o qual todos vivemos) de Norman Rockwell, que mostra a menina em seu vestido branco, cercada por agentes federais, com pichações racistas e um tomate esmagado na parede ao fundo. Essa obra de arte me fez chorar, logo cedo e por isso escrevo essa crônica. Até quando vamos conviver com o racismo e a intolerância? Até quando continuaremos aceitando as injustiças?
Hoje, Ruby Bridges é uma ativista pelos direitos civis e pela educação, e sua história é um símbolo poderoso da luta contra o racismo e da força que uma criança pode ter diante da injustiça. Free Palestine!
domingo, 8 de junho de 2025
A literatura brasileira e a sua cara
Qual é a cara da literatura brasileira? Como estamos produzindo no campo fértil da literatura? Essas são questões de grande relevância porque tratamos de uma das mais poderosas armas de transformação de que dispõe a humanidade.
Em artigo na Folha de São Paulo de 07 de junho do corrente ano, que discute a predominância do conteúdo sobre a forma na literatura brasileira contemporânea, a autora, Walnice Nogueira Galvão, destaca o impacto do movimento social em torno da negritude, evidenciado na lista dos melhores livros do século. A Folha convidou cem pessoas para indicarem, cada uma, dez livros que não poderiam ficar de fora de uma seleção que reunisse o melhor da literatura brasileira do século 21. Ela observa que essa tendência se estende à ficção, ao ensaio e às artes, servindo como uma reparação simbólica aos males históricos da escravidão e sua emancipação problemática, o que eu concordo.
Entretanto, Galvão aponta um paradoxo: enquanto a temática da negritude domina, outros temas relevantes, como o feminismo, a cultura indígena e questões queer, aparecem de forma muito menos expressiva. Esse desequilíbrio levanta questionamentos sobre a influência dos editores e do mercado literário nas escolhas dos leitores.
Por fim, a autora sugere que essa ênfase excessiva no conteúdo pode estar desviando a literatura de sua natureza artística e experimental, aproximando-a do entretenimento, o que é uma lástima. Ela especula se essa mudança está ligada ao aumento do interesse pela biografia dos autores, em detrimento de sua obra.
A literatura, em sua essência artística e experimental, busca transcender o simples ato de contar histórias e se tornar um espaço de inovação estética e reflexão profunda. Segundo Walnice Nogueira Galvão, há uma preocupação crescente de que a literatura brasileira esteja se afastando dessa essência ao priorizar o conteúdo sobre a forma.
A literatura experimental, por exemplo, desafia convenções tradicionais, explorando novas estruturas narrativas, estilos e até formatos visuais. Autores como James Joyce e Virginia Woolf revolucionaram a escrita ao brincar com a linguagem e a percepção do tempo.
O risco de uma literatura voltada apenas para o entretenimento é que ela perde sua capacidade de provocar e desafiar o leitor. A experimentação literária permite que a arte se reinvente, criando novas maneiras de expressar ideias e emoções, isso é fundamental e necessário.
A verdade é que o Brasil nunca teve um escritor laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, apesar de algumas indicações ao longo dos anos. Entre os brasileiros que já foram considerados para o prêmio estão Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Érico Veríssimo e Clarice Lispector.
Uma das razões apontadas para essa ausência é a falta de apoio institucional e reconhecimento internacional, a falta de apoio é uma vergonha, leva entre outras coisas à falta de reconhecimento. Diferente de países como a Noruega, França e Estados Unidos, o Brasil não tem uma tradição forte de promover seus escritores globalmente. Além disso, a língua portuguesa tem menos alcance internacional, o que dificulta a visibilidade dos autores brasileiros.
Outro fator mencionado é a falta de consenso interno. Segundo relatos, quando um escritor brasileiro é indicado, há pouca mobilização nacional para apoiá-lo, ao contrário do que acontece em outros países, perdoem-me dizer é o “complexo de vira-lata” e a inveja que predominam.
Também é verdade, que a literatura brasileira tem sido criticada por sua falta de conteúdo universal, além disso, há um debate sobre a posição do Brasil na literatura mundial. Alguns estudiosos apontam que a literatura brasileira ocupa um lugar periférico no cenário global e enfrenta dificuldades para se inserir em um discurso mais universal. A falta de um projeto amplo de interculturalidade literária no ensino também contribui para essa limitação, já que a formação dos leitores brasileiros tende a ser mais voltada para produções nacionais e menos para um diálogo com outras tradições literárias.
Por outro lado, há iniciativas que buscam ampliar essa perspectiva, como a literatura periférica, que desafia barreiras e propõe uma visão mais universal da experiência brasileira.
O conteúdo universal na literatura refere-se a temas que transcendem fronteiras culturais e dialogam com questões humanas amplas. Alguns exemplos incluem:
• Identidade e pertencimento: A busca por identidade, seja individual ou coletiva, é um tema recorrente na literatura mundial. No Brasil, autores como Machado de Assis exploraram essa questão em obras como Dom Casmurro.
• Conflitos sociais e desigualdade: A literatura brasileira frequentemente aborda desigualdade racial, social e econômica, temas que ressoam globalmente.
• Amor e relações humanas: As complexidades do amor, da amizade e da família são temas universais. José de Alencar e Clarice Lispector exploraram essas dinâmicas em suas obras.
• Memória e história: A literatura brasileira dialoga com eventos históricos e suas consequências, como a escravidão e a ditadura militar, conectando-se a narrativas semelhantes em outras partes do mundo.
• Natureza e meio ambiente: A relação entre o homem e a natureza é um tema global urgente.
A literatura tem um papel fundamental na provocação de reflexões profundas no leitor, indo além do entretenimento e estimulando o pensamento crítico. A literatura de reflexão é um gênero que busca explorar questões filosóficas, sociais e existenciais, levando o leitor a questionar suas próprias crenças e valores.
Algumas das principais características desse tipo de literatura incluem:
• Temas universais: A busca pela verdade, a moralidade, a liberdade e a solidão são questões que transcendem culturas e épocas.
• Narrativas desafiadoras: Obras como A Metamorfose, de Franz Kafka, e O Estrangeiro, de Albert Camus, fazem o leitor refletir sobre identidade e o absurdo da existência.
• Uso de simbolismos e metáforas: Autores frequentemente utilizam camadas de significado para enriquecer a experiência de leitura.
• Exploração da condição humana: A literatura pode ser um espelho da alma, ajudando o leitor a compreender melhor a si mesmo e o mundo ao seu redor.
A literatura que provoca reflexão profunda não apenas informa, mas transforma. Ela desafia percepções, estimula o autoconhecimento e pode até influenciar mudanças sociais.
Por último gostaria da abordar a questão da forma que segundo a autora falta na literatura brasileira, pois prioriza-se mais o conteúdo. A forma na literatura refere-se à maneira como uma obra é estruturada, estilizada e apresentada artisticamente. Enquanto o conteúdo trata do que é dito, a forma se preocupa com como isso é expresso. Alguns elementos essenciais da forma incluem:
Estilo e linguagem: O uso de metáforas, simbolismos, ritmo e sonoridade na escrita.
Estrutura narrativa: A organização dos eventos, como narrativas não lineares, fluxo de consciência ou múltiplas perspectivas.
Experimentação estética: Inovação na construção textual, como o uso de fragmentação, poesia visual ou jogos de palavras.
Trabalho com o significante: A preocupação com a materialidade da linguagem, indo além do significado imediato das palavras.
É isso, é arte, a literatura de ficção é um instrumento de transformação, um poderoso instrumento, temido, amado e odiado, não é à toa que livros foram destruídos por regimes autoritários em diferentes épocas e ainda são. Além do que em nossos dias as tentativas ou a consumação de censura tentam eliminar aquelas obras tidas como mais nocivas para o sistema. Não é à toa que sociedades desiguais mantem modelos educacionais que não valorizam a literatura, não incentivam crianças e adultos a lerem, antes os condenam a uma vida de analfabetismo ou analfabetismo funcional com modelos educacionais aviltantes, portanto bem distante dos livros.
É preciso que se diga e repita e se combata a triste realidade brasileira. Em nosso país a desigualdade socioeconômica, leva a uma grande disparidade no nível de leitura entre jovens de alta e baixa renda. “A OCDE aponta que a capacidade de leitura dos jovens brasileiros é fortemente influenciada pelo status socioeconômico”. (OCDE. Relatório de educação, Paris: OCDE, 2023), não sem razão, o baixo nível de ensino das populações mais pobres e a falta de incentivo à leitura, fazem da questão uma questão estrutural, o que vou chamar de “aliteratura” ou “anliteratura” estrutural.
Esses dados reforçam a tese que defendo de que a literatura de ficção serve para transformar o ser humano e que o ser humano uma vez transformado, transforma o mundo. Por isso ela é temida, porque nos faz pensar, constrói o conhecimento, a literatura de ficção transforma as nossas certezas em incertezas, abala nossos alicerces, provoca nossa reflexão, faz perguntas muito mais que dá respostas, faz-nos refletir sobre a vida e o seu sentido, mexe com os nossos preconceitos, desconstrói nossas convicções. Eu me atrevo a dizer que a tese de Paulo Freire que afirma que o conhecimento não deve ser passado, mas construído no aluno, central em sua pedagogia, ou seja, um processo dialógico e participativo, onde o aluno é um sujeito ativo na construção do conhecimento, pode ser aplicado no entendimento do processo da literatura de ficção. O livro dialoga com o leitor, da mesma forma que Freire suscita que o professor deve dialogar com o aluno para que o aprendizado ocorra de forma interativa, porque o livro é problematizador que não transforma o leitor em um recipiente vazio a ser preenchido, como Paulo Freire critica na forma de ensino convencional. Viva a literatura brasileira e a sua capacidade de se reinventar, o que é urgente.
sexta-feira, 6 de junho de 2025
Gaza precisa de nós Agora! Gaza needs us NOW!
"The humanitarian crisis in Gaza has reached an unbearable level of suffering. Children cry out for food, families are torn apart, and hope fades with each passing day. The president of the International Committee of the Red Cross declared that Gaza has become 'worse than hell on Earth'—yet the global response remains insufficient.
This is not just a conflict. It is an unprecedented humanitarian disaster. We need urgent international mobilization to ensure an immediate ceasefire, unrestricted humanitarian aid, and the protection of fundamental rights for the Palestinian people.
Every voice matters. Share, protest, demand action from world leaders. Together, we can stop this tragedy from continuing. Gaza needs us NOW!"_
domingo, 23 de março de 2025
A quem serve o Santo Graal?
A história do Rei Pescador e Parsifal é uma das mais conhecidas na tradição do ciclo arturiano e nas lendas do Santo Graal. O Rei Pescador, “Fisher King”, também chamado de Rei Ferido, estava gravemente doente, tinha feridas horríveis por todo o corpo e além disso o reino dele estava passando por uma terrível situação de fome e miséria nunca antes vivida, o que simboliza a decadência espiritual do reino. Só havia uma saída, encontrar o Santo Graal. O Santo Graal para quem não sabe é o cálice que foi usado por Jesus na última ceia e que teria, por isso, poderes inimagináveis.
Parsifal, um jovem cavaleiro, embarca na busca pelo Graal com o objetivo de restaurar a saúde do Rei Pescador e trazer prosperidade ao reino. No entanto, sua jornada é repleta de desafios, incluindo provas de fé, coragem e pureza. Ele passa por uma jornada de amadurecimento, aprendendo sobre a compaixão e o dever espiritual, até estar preparado para completar sua missão, ou seja, encontrar o Santo Graal.
Quando Parsifal finalmente encontra o Santo Graal na lenda, a pergunta que ele deveria fazer ao Rei Pescador é: "A quem serve o Graal?", dependendo da versão da história. Essa pergunta é crucial para quebrar o ciclo de sofrimento do Rei e restaurar a saúde dele, assim como a harmonia no reino. Sem a resposta correta do rei, Parsifal não poderia levar consigo o Santo Graal e salvar o reino. Notem que nesta versão o rei deve saber a resposta e sem ela seu reino não será salvo.
Parsifal, em sua primeira tentativa, não faz essa pergunta devido à sua imaturidade ou falta de compreensão espiritual, mas, em seu retorno, ao ter aprendido com suas jornadas e crescido como pessoa, ele finalmente faz a pergunta certa e pode completar sua missão, desde que a resposta à pergunta seja a correta.
Em uma das versões mais espirituais da lenda, onde a resposta à pergunta sobre a quem serve o Santo Graal é "Ao Senhor do Graal," interpretado como Deus ou uma força divina, ou ainda a quem se destina o Poder de transformação do Santo Graal. Essa resposta, reconhece que o Graal não é apenas um objeto físico, mas um símbolo espiritual ligado à conexão com o divino e ao serviço altruísta e que para que ele atue na transformação pretendida, na cura, a pergunta tem de ser feita e a resposta certa deve ser dada. Note-se que a pergunta é tão importante quanto a resposta.
Essa interpretação destaca que aqueles que servem ao Graal são chamados a viver uma vida de pureza, fé e compaixão, dedicados ao propósito maior de ajudar e iluminar os outros, fazer justiça e valorizar a vida. Podemos reimaginar o Santo Graal como um símbolo da tecnologia moderna - algo profundamente desejado por seu potencial transformador. Assim como na lenda, o Graal deveria trazer cura e prosperidade ao reino, assim como a tecnologia, em nossos tempos, deveria servir como uma ferramenta para promover igualdade, bem-estar e soluções para problemas globais, portanto estaríamos respondendo à pergunta a quem serve o Santo Graal. Portanto, o Santo Graal deve servir ao senhor do Santo Graal, que em última análise é toda a humanidade, porque a humanidade é a obra suprema de Deus, o que nos é lembrado na passagem onde Cristo diz que o que fizeste ao mais pequenino fizestes a mim, isso certamente é revelador.
No entanto, quando o "Graal da tecnologia" é monopolizado por grupos, oligarquias ou governos focados apenas em interesses próprios, ela acaba aumentando as desigualdades e perpetuando a miséria, desviando-se do verdadeiro propósito, tudo porque não está a serviço da humanidade. A pergunta que Parsifal deveria fazer ao Rei Ferido – “A quem serve o Graal?” – pode ser adaptada: “A quem serve a tecnologia?” Precisamos nos indagar. A resposta ideal seria: “A humanidade como um todo.” A tecnologia deve ser utilizada para democratizar oportunidades, combater a desigualdade e fomentar um futuro mais sustentável para o planeta e por isso precisa ser posta a serviço de toda a humanidade e não apenas de alguns.
A tecnologia, o conhecimento, têm um potencial incrível para transformar a humanidade positivamente. De fato, ela poderia – e deveria – ser usada para enfrentar desafios urgentes como o aquecimento global, a miséria, doenças, a fome e tantas outras questões que afetam bilhões de pessoas. O que é a tecnologia? Tecnologia é o conjunto de conhecimentos, ferramentas, técnicas e processos criados e aplicados pelos seres humanos para resolver problemas, melhorar a vida, ou atender a necessidades específicas. Ela abrange desde invenções simples, como a roda, até os sistemas mais complexos, como inteligência artificial e redes globais de comunicação.
No entanto, quando a tecnologia é colocada a serviço de interesses destrutivos, como a guerra, a perpetuação de conflitos que devoram bilhões de dólares, o lucro fácil em detrimento de outros povos, a mentira como instrumento de manipulação, a xenofobia, o nacionalismo, o racismo, a destruição do planeta através da sua exploração desenfreada, acabamos vendo um desperdício trágico desse potencial. É o desvio da verdadeira missão da tecnologia, do conhecimento, que deveria ser um "graal moderno" para beneficiar a coletividade, promovendo a harmonia entre povos e o equilíbrio com o planeta. Destarte, nossos “reinos” estão apodrecendo como as feridas do Rei sofredor e a humanidade fragilizada é o seu reino.
Transformar essa realidade exige um esforço coletivo, tanto de governos quanto da sociedade civil, para reorientar o uso da tecnologia, do conhecimento para fins pacíficos e sustentáveis. É um desafio que requer ética, visão a longo prazo e, acima de tudo, a vontade de servir ao bem comum.
A alegoria do Santo Graal e do sofrimento do Rei Pescador funciona como um poderoso reflexo do estado da humanidade contemporânea. O Graal, enquanto símbolo de cura e harmonia, representa as soluções que buscamos — seja na tecnologia, na ciência ou no conhecimento — para os grandes desafios que enfrentamos, como a miséria, o aquecimento global, as desigualdades sociais e fazermos frente ao desafio de colocar tudo isso a serviço de todos e não de poucos.
Já o Rei Pescador, ferido e incapaz de liderar, pode ser visto como uma metáfora para o estado de fragilidade da nossa civilização, que luta para encontrar equilíbrio diante de conflitos, crises e divisões. Assim como Parsifal na lenda, somos desafiados a encontrar as perguntas certas, além das respostas e os caminhos corretos para servir a esse "graal" de soluções que pode restaurar a prosperidade e a saúde do nosso mundo.
Essa analogia nos convida a refletir sobre nossas responsabilidades e prioridades como sociedade. De que forma podemos agir como Parsifal e superar os erros do passado? A educação, como sabemos, é a verdadeira base para mudar o rumo da humanidade. Investir nas futuras gerações é mais do que preparar crianças e jovens para o mercado; é cultivar cidadãos críticos, conscientes e compassivos, capazes de pensar de forma independente e atuar pelo bem coletivo.
Enfrentar a desinformação e resistir contra a tentativa de transformar a educação em algo alienante são batalhas que exigem união, perseverança e coragem. A educação deve ser um espaço de libertação, onde as pessoas aprendem não apenas a saber, mas também a cuidar, a questionar, a dialogar. Empatia e solidariedade nascem de uma compreensão mais profunda do mundo e do sofrimento humano – e isso pode ser ensinado e amplificado em contextos educacionais.
Essa visão do mundo oferecida lembra muito o Rei Pescador da lenda, esperando por alguém como Parsifal para fazer a pergunta certa e começar a curar as feridas de um reino adoecido. Nós, como sociedade, homens e mulheres, temos o potencial de nos tornarmos esse Parsifal, buscando soluções justas e solidárias calcados na pureza de propósitos, na empatia, na fé, na compaixão e no amor. A quem serve o Graal?
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